Opinião

Afinal, o que significa ser produtivo em 2026?

Martim de Botton

Durante muito tempo, associámos produtividade à capacidade de fazer mais em menos tempo. Mais tarefas concluídas, mais reuniões realizadas, mais e-mails respondidos, mais processos executados. Hoje, como já sabemos, a Inteligência Artificial está a desafiar essa lógica. Pela primeira vez, temos acesso a ferramentas capazes de automatizar uma parte significativa do trabalho repetitivo e administrativo que ocupa os nossos dias. E isso cria uma oportunidade única: deixar de medir produtividade apenas pela quantidade de trabalho realizado e começar a medi-la pela qualidade do impacto gerado.

A promessa é sedutora. Delegar à IA tarefas operacionais, pesquisas, resumos, análises preliminares ou processos administrativos para que as pessoas possam dedicar mais tempo ao pensamento crítico, à criatividade, à colaboração e à tomada de decisão. Em teoria, parece um cenário evidente. Na práctica, a realidade é mais complexa.

Um dos maiores equívocos do actual debate sobre IA é precisamente assumir que rapidez significa automaticamente produtividade. Não significa.

O passado mostra-nos que cada salto tecnológico trouxe ganhos de eficiência, mas também novos desafios. O e-mail reduziu drasticamente o tempo de comunicação, mas a par dos dispositivos móveis acabou por criar uma cultura de disponibilidade permanente. As plataformas de colaboração facilitaram o trabalho à distância, mas multiplicaram notificações, interrupções e reuniões. Com a IA, corremos o risco de repetir o mesmo padrão: utilizar uma tecnologia transformadora para acelerar sistemas de trabalho que já eram excessivamente exigentes.

De acordo com o Future of Jobs Report 2025 do Fórum Económico Mundial, 86% das organizações esperam que a inteligência artificial e as tecnologias de processamento de informação transformem significativamente a sua actividade até 2030. No entanto, o mesmo relatório mostra que 63% dos empregadores identificam a falta de competências como a principal barreira à transformação das empresas, enquanto 77% planeiam investir na requalificação e actualização das competências das suas equipas. A tecnologia existe e continuará a evoluir rapidamente. O verdadeiro desafio está em garantir que as pessoas conseguem acompanhá-la e utilizá-la de forma eficaz.

À medida que os chamados agentes de IA se tornam mais autónomos e assumem tarefas cada vez mais complexas, a supervisão humana deixa de ser uma etapa opcional para se tornar uma competência crítica. A capacidade de questionar, validar e interpretar resultados será tão importante quanto a capacidade de utilizar as ferramentas em si. Por isso, talvez a grande oportunidade da IA não esteja em fazer mais trabalho. Talvez esteja em permitir um trabalho melhor.

Num contexto em que a atenção se tornou um dos recursos mais escassos, produtividade pode significar ter mais tempo para pensar. Mais espaço para inovar. Mais disponibilidade para conversar, criar relações, desenvolver equipas e resolver problemas complexos. No fundo, mais tempo para aquilo que continua a ser exclusivamente humano.

Martim de Botton,
CEO do LACS

 

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