Opinião

O desafio atual do Douro não é mais turistas, é uma visão estratégica a longo prazo

Paulo Fonseca

O Douro entra em mais uma época alta a bater recordes. Em 2025, a atividade marítimo-turística transportou 1,39 milhões de passageiros, registando o oitavo ano seguido de crescimento. Atualmente, o setor reúne 113 operadores e 252 embarcações, números que revelam a dimensão e a relevância que o turismo fluvial conquistou ao longo da última década, reforçando o seu papel como um dos motores económicos da região.

Estes resultados merecem ser celebrados. Mas é precisamente a dimensão que o setor atingiu que nos obriga a colocar uma questão: o que queremos que o Douro seja daqui a dez anos?

Durante anos, o desafio passou por afirmar o Douro enquanto destino turístico e reforçar a sua capacidade de atração. Esse objetivo encontra-se amplamente alcançado. Com mais de um milhão de passageiros por ano, o turismo fluvial é hoje uma atividade consolidada, com impacto económico relevante para a região e para o país. O verdadeiro desafio deixou de ser atrair mais visitantes. O desafio é garantir que o crescimento continua a gerar valor sem comprometer os recursos e as condições que o tornaram possível.

É precisamente aqui que o debate se torna mais importante. O crescimento, por si só, não garante sustentabilidade. Sem planeamento, antecipação e capacidade de resposta, os sinais de pressão acumulam-se: maior utilização dos cais, concentração de embarcações nos mesmos troços e períodos horários, necessidade de reforço de infraestruturas e exigências acrescidas na gestão da via navegável. Nenhum destino consegue preservar a sua competitividade a longo prazo se não acompanhar o sucesso com investimento e preparação.

O futuro do turismo fluvial não pode ser pensado apenas em função da próxima época turística ou dos resultados do próximo ano. Exige uma visão partilhada entre Governo, APDL, autarquias e operadores, capaz de definir prioridades e responder aos desafios que acompanham o crescimento do setor.

Uma das questões que importa responder é qual a capacidade que o Douro consegue suportar sem comprometer a qualidade da experiência turística e a preservação ambiental. Quantas embarcações e quantos passageiros pode o rio acolher de forma sustentável? Este limiar não se decide por intuição: deve resultar de um estudo técnico, definido por uma autoridade competente, em conjunto com os operadores, que fixe a capacidade sustentável do rio. Sem esse número, qualquer visão de futuro fica a planear às cegas. .

Também é fundamental garantir previsibilidade a quem investe. O turismo fluvial exige investimentos avultados e decisões com horizontes de longo prazo. Quem investe numa embarcação está a fazer uma aposta para dez ou quinze anos e precisa de regras estáveis, enquadramentos claros e condições que permitam planear com confiança.

Por fim, o crescimento da atividade tem de ser acompanhado pelo reforço das infraestruturas e das condições de operação. O sucesso do setor não pode continuar a avançar mais depressa do que os investimentos necessários para o acompanhar. O reforço dos cais, dos acessos e dos mecanismos de monitorização e proteção do rio deve fazer parte de uma estratégia capaz de preservar a competitividade do Douro e assegurar a sua sustentabilidade a longo prazo.

O desafio que agora se coloca ao Douro não é continuar a crescer a qualquer custo. É garantir que o sucesso alcançado continua a ser uma oportunidade para o futuro. Isso implica encarar o turismo fluvial não como uma sucessão de épocas altas, mas como uma atividade estruturante para a região, que exige planeamento, coordenação e visão de longo prazo.

A pergunta, no fundo, é simples: queremos um Douro preparado apenas para responder ao próximo verão ou um Douro preparado para a próxima década?

Paulo Fonseca,
membro da Direção da Associação das Atividades Marítimo‑Turísticas do Douro (AAMTD)

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