Apesar de a engenharia ser uma das áreas mais associadas ao futuro, continua, em muitos aspetos, presa a ideias do passado. Todos os dias, milhares de profissionais desenham soluções para problemas complexos, desenvolvem tecnologia, melhoram sistemas de transporte, tornam as cidades mais eficientes e ajudam a responder a alguns dos grandes desafios da humanidade. Ainda assim, muitas mulheres sentem que precisam de provar que pertencem a esta área, mesmo antes de terem a oportunidade de demonstrar competência.
Durante décadas alimentou-se a noção de que algumas profissões são mais adequadas para homens e outras para mulheres. A persistência desta ideia deu origem a desigualdades claras, que geram hoje, em muitos profissionais, uma necessidade profunda de validação, uma exigência implícita de que terão de trabalhar mais para alcançar o mesmo reconhecimento que o género oposto. Em áreas ligadas à engenharia, quem sente este peso extra são, maioritariamente, as mulheres.
Embora nos últimos anos tenhamos assistido a uma evolução significativa, alguns desses preconceitos persistem de forma subtil. Muitas jovens que revelam talento para a matemática ou para as ciências, crescem rodeadas por estereótipos que condicionam as suas escolhas e alimentam a ideia de que determinados caminhos não são apropriados para elas. Isto reflete-se posteriormente se na presença feminina no mercado de trabalho: dados divulgados pela UNESCO em 2024 indicam que apenas 35% dos diplomados nas áreas STEM são mulheres, uma proporção que se traduz numa presença ainda menor no mercado de trabalho, já que apenas 22% dos empregos STEM nos países do G20 são ocupados por mulheres.
A representatividade feminina no setor da ciência e tecnologia tem, contudo, vindo a aumentar. Segundo a Eurostat, em 2025 as mulheres representavam 52,5% de todos os trabalhadores das áreas da ciência e tecnologia na União Europeia. Este crescimento demonstra que cada vez mais mulheres desafiam as expectativas e escolhem estas áreas por vocação e vontade de inovar, o que ajuda a quebrar barreiras e a abrir portas a novas profissionais. O talento, esse, sempre existiu.
É preciso continuar a desafiar o status quo e abrir portas para que cada vez mais mulheres conquistem posições de referência. Para tal, é necessário combater as diferenças salariais e equilibrar critérios de exigência. Mantém-se ainda uma menor presença feminina em cargos de liderança e dificuldades acrescidas no acesso a funções de maior responsabilidade. A estas barreiras soma-se, com frequência, a exigência de conciliar carreira e vida pessoal, uma realidade que continua a afetar mais as mulheres do que os homens, limitando as suas oportunidades de progressão.
O problema não reside na capacidade nem na qualificação. Reside, sobretudo, na forma como a competência é percecionada. Enquanto o sucesso masculino tende a ser interpretado como natural, o feminino continua, por vezes, a ser encarado como exceção. Não basta desempenhar bem uma função: é necessário demonstrar repetidamente que se merece ocupá-la. O sucesso de uma mulher nas áreas STEM é ainda recebido, maioritariamente, com surpresa, tanto por homens como por mulheres. O estigma está enraizado.
A mudança já está a acontecer, e ficará completa quando a competência for avaliada sem filtros nem preconceitos. O futuro está em construção e, em breve, o mérito, o talento e os resultados pesarão mais do que o género: as mulheres encontrarão menos desigualdades salariais, mais oportunidades de carreira e maior reconhecimento numa área em que a igualdade, durante demasiado tempo, ficou por cumprir.
Débora Amorim,
Engenheira de Software Aeroespacial da Critical FlyTech





