Opinião

Porque devemos ensinar as raparigas a falar de dinheiro

Vanda de Jesus

Quando pensamos nas desigualdades financeiras entre homens e mulheres, olhamos sobretudo para a vida adulta: diferenças salariais, interrupções de carreira ligadas à maternidade ou menor acesso à liderança. Mas onde começa, afinal, esta diferença?

A resposta pode estar muito antes do primeiro emprego ou investimento. Pode estar na forma como educamos as nossas crianças.

Durante décadas, ensinámos muitas raparigas a serem prudentes e muitos rapazes a serem ousados. Ainda hoje, incentivamos mais facilmente um rapaz a experimentar, a correr riscos ou a sair da sua zona de conforto. Às raparigas, transmitimos sobretudo mensagens de cautela, proteção e segurança. Nenhuma destas atitudes é negativa. O problema surge quando esta diferença de estímulo molda a forma como cada um encara o risco ao longo da vida.

Com o dinheiro não é diferente. Investir, empreender, negociar ou pedir um aumento implica sempre algum grau de incerteza. E quem cresce menos habituado a arriscar tende, naturalmente, a sentir-se menos confortável perante estas decisões.

O impacto também se sente nas empresas. Em Portugal, apenas 14% das startups são fundadas ou lideradas por mulheres e cerca de 80% dos cargos de direção deste ecossistema continuam a ser ocupados por homens. Isto não limita apenas as oportunidades das mulheres: tem consequências para as empresas e a economia. Diversos estudos têm encontrado uma associação positiva entre uma maior representação feminina nos órgãos de decisão e o desempenho das organizações. A investigação sugere ainda que empresas com mulheres na liderança têm maior propensão para desenvolver novas práticas e atividades criativas.

Num contexto em que persistem diferenças salariais entre homens e mulheres, falar de dinheiro não é só saber poupar ou investir. É reconhecer o próprio valor, negociar uma remuneração justa, pedir um aumento quando faz sentido e defender direitos ao longo da carreira.

O problema não está na capacidade. Está, muitas vezes, na confiança.

E a confiança não surge de forma automática na idade adulta. Constrói-se quando uma criança participa nas decisões do dia a dia, compreende um orçamento familiar ou percebe que o dinheiro não é um tema proibido nem reservado aos adultos.

É por isso que falar de dinheiro com as raparigas é tão importante.

Não para as transformar em especialistas em finanças aos dez anos de idade, mas para que cresçam a sentir que este é também um tema delas. Que podem poupar, investir, empreender, negociar e liderar decisões financeiras com a mesma legitimidade que qualquer outra pessoa.

A mudança pode começar em casa. As mães têm aqui um papel particularmente relevante. Não porque sejam as únicas responsáveis pela educação financeira dos filhos, mas porque continuam a ser uma das referências mais influentes na transmissão de conhecimentos, hábitos e expectativas. Quando uma mãe fala abertamente sobre dinheiro ou gere as suas finanças com confiança, mostra, pelo exemplo, que as mulheres também pertencem a este espaço.

Mas esta responsabilidade não é apenas das mães. É das famílias, das escolas e da sociedade no seu conjunto.

Se queremos mulheres financeiramente autónomas, confiantes e preparadas para gerir o futuro, não podemos esperar que tudo comece aos 30 ou aos 40 anos. Temos de começar quando ainda estão a construir a sua relação com o dinheiro.

Porque a literacia financeira não é apenas uma questão de conhecimento. É também uma questão de confiança.

E quanto mais cedo ensinarmos as raparigas a falar de dinheiro, mais cedo lhes estaremos a dar confiança para decidir sobre ele, assumir riscos de forma consciente e ocupar o seu lugar nas conversas que moldam o seu futuro.

Vanda de Jesus,
Co-CEO do Doutor Finanças

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