Opinião

No imobiliário de luxo, o comprador mudou. A forma de vender também

Miguel Poisson

O comprador de luxo já não procura apenas uma propriedade. Procura uma forma de viver, um contexto e uma experiência que estejam alinhados com as suas prioridades. Esta mudança está a transformar o mercado imobiliário global e exige novas formas de aproximar ativos excecionais dos compradores certos.

 

Durante muitos anos, no imobiliário de luxo, a localização foi apresentada como o principal fator diferenciador. Hoje, essa realidade mudou. O comprador de elevado património já não procura apenas uma morada privilegiada. Procura uma forma de viver, uma experiência e um conjunto de atributos que respondam às suas prioridades pessoais, familiares e profissionais.

Esta evolução está a transformar não apenas o tipo de imóveis procurados, mas também a forma como estes chegam ao mercado. Num segmento em que cada ativo é único, a pergunta deixou de ser apenas “onde está este imóvel?” e passou a ser “como conseguimos colocá-lo perante o comprador certo?”.

Esta é uma mudança estrutural no imobiliário de luxo. O comprador tornou-se mais informado, mais internacional e mais exigente. Analisa diferentes geografias, compara estilos de vida e procura ativos que representem mais do que uma decisão financeira: procura, acima de tudo, uma escolha de um novo estilo de vida.

Portugal beneficia particularmente desta transformação. Num contexto internacional marcado pela procura por segurança, qualidade de vida, privacidade e autenticidade, o país reúne características que o tornam cada vez mais competitivo no segmento residencial premium. Não é apenas a localização que atrai os compradores internacionais, mas sim a combinação entre o clima, a escala humana, a conectividade, o património cultural, a natureza e uma forma de viver que se tornou cada vez mais valorizada.

Os dados da Portugal Sotheby’s International Realty refletem esta evolução. Em 2025, os compradores estrangeiros representaram 44% das transações realizadas, com destaque para mercados como os Estados Unidos, o Reino Unido e o Brasil. No mesmo período, o aumento da faturação e do ticket médio demonstrou um mercado mais maduro, seletivo e orientado para a qualidade dos ativos.

Mas um mercado mais sofisticado exige, também, uma abordagem diferente. Os imóveis verdadeiramente excecionais não podem depender apenas da exposição tradicional ou de uma rede local de contactos. Precisam de uma estratégia capaz de criar visibilidade internacional, identificar compradores qualificados e gerar as condições certas para uma decisão de aquisição.

A primeira operação realizada em Portugal, através da Sotheby’s Concierge Auctions, é um exemplo concreto desta mudança. Uma propriedade em Vilamoura foi apresentada a uma audiência internacional de compradores qualificados, num processo que gerou mais de 40 visitas e nove propostas, culminando numa sessão de venda ao vivo na sede da Sotheby’s, em New Bond Street, Londres, onde foi adquirida por um comprador britânico.

Mais do que uma transação, esta operação mostra como o imobiliário de luxo está a evoluir. Quando uma propriedade tem características verdadeiramente diferenciadoras, o seu mercado potencial deixa de estar limitado pela geografia. O desafio passa a ser encontrar a melhor forma de ligar um ativo excecional a um comprador que reconheça o seu valor.

Esta transformação acompanha, também, uma mudança mais profunda no próprio conceito de luxo residencial. A casa deixou de ser avaliada apenas pela sua dimensão, arquitetura ou localização. Os compradores valorizam cada vez mais fatores como o bem-estar, a privacidade, o conforto, a sustentabilidade e a qualidade de vida a longo prazo. O Mid-Year Luxury Outlook 2026 da Sotheby’s International Realty identifica precisamente esta evolução, mostrando que o luxo residencial está cada vez mais associado à forma como as pessoas querem viver.

O futuro do imobiliário de luxo em Portugal dependerá da capacidade de continuar a qualificar a oferta e a acompanhar um comprador cada vez mais sofisticado. O crescimento deste segmento não deve ser medido apenas pelo número de transações, mas pela capacidade de criar valor, preservar a identidade dos territórios e oferecer imóveis que respondam às novas expectativas internacionais.

No imobiliário de luxo, o comprador mudou. Tornou-se mais global, mais informado e mais exigente. A forma de vender terá, inevitavelmente, de acompanhar essa evolução, combinando o conhecimento local, o alcance internacional e uma compreensão profunda daquilo que hoje define um estilo de vida verdadeiramente excecional.

Miguel Poisson,
CEO da Portugal Sotheby’s International Realty

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