Na 4.ª edição do Women Summit, promovido pela Forbes Portugal, Sofia Martins, autora do blogue “Just Go by Wheel”, onde partilha experiências de viagem e procura sensibilizar para a importância da acessibilidade, deu um testemunho inspirador sobre viagens, acessibilidade e superação pessoal, refletindo sobre os desafios que enfrentou enquanto pessoa com mobilidade reduzida (em cadeira de rodas) e sobre a forma como transformou essas experiências numa missão de sensibilização social.
Ao recordar os primeiros anos após a mudança radical na sua vida, ocorrida após um acidente de viação, quando tinha 24 anos de idade, explicou que as viagens realizadas pela Europa, com amigos e família, eram vividas com sentimentos contraditórios: por um lado, a emoção e a expectativa de descobrir novos lugares; por outro, o receio constante perante as dificuldades que poderia encontrar. Rapidamente percebeu que o mundo ainda não estava preparado para pessoas com deficiência motora. Escadas, degraus, ausência de rampas e espaços inacessíveis tornavam muitas experiências cansativas e frustrantes. “O melhor dia da viagem era o dia de voltar para casa”, recordou, citando uma observação do irmão que, na altura, custou a aceitar.
Apesar das dificuldades, nunca deixou de viajar. Com o tempo, criou estratégias para ultrapassar obstáculos, ganhou confiança e percebeu que era capaz de fazer muito mais do que imaginava. Alguns destinos, porém, pareciam-lhe impossíveis. A Grande Muralha da China era um deles. Depois de ver fotografias de amigos naquele local, acreditou que nunca conseguiria chegar lá. O mesmo acontecia com destinos paradisíacos, muitas vezes associados a praias pouco acessíveis para quem utiliza cadeira de rodas.
A vontade de conhecer o mundo acabou por falar mais alto. Depois de conhecer o marido, também apaixonado por viagens, as experiências intensificaram-se. Começaram por destinos mais simples na Europa e, mais tarde, viajaram várias vezes para as Caraíbas, escolhendo resorts com melhores condições de acessibilidade.
Em 2010, o casal viajou para Nova Iorque e para o Havai em lua de mel. Se Nova Iorque se revelou uma cidade bastante acessível, o Havai proporcionou-lhe uma experiência transformadora. Num momento em que passeava sozinha, acabou por conversar com um desconhecido e percebeu que viajar também significava independência, descoberta e liberdade. Foi aí que compreendeu que existia, de facto, um mundo mais acessível além das limitações que tantas vezes imaginava.

A partir dessa fase, começaram viagens mais ambiciosas, envolvendo diferentes países, cidades e meios de transporte. Em 2016, visitou pela primeira vez a Ásia, passando pela China, Macau, Hong Kong, Xangai e Pequim. Contra todas as expectativas, conseguiu finalmente chegar à Grande Muralha da China. O momento teve um forte impacto emocional. Sozinha diante de uma das maiores obras construídas pela humanidade, percebeu que muitos dos limites que carregava existiam sobretudo dentro da sua própria mente.
Depois da pandemia, período em que admitiu ter perdido parte da confiança, voltou a aventurar-se em viagens de longa distância. Em 2023, visitou Singapura, Coreia do Sul e Japão, experiência que lhe devolveu a segurança necessária para concretizar um sonho ainda maior no ano seguinte: dar a volta ao mundo. Em apenas 40 dias, passou pela Austrália, Nova Zelândia, Polinésia Francesa e Califórnia. Em Moorea, viveu outro momento marcante ao conseguir finalmente estar num daqueles cenários paradisíacos que, durante muitos anos, acreditou serem inacessíveis.
Ao longo da intervenção, fez questão de sublinhar que viajar com mobilidade reduzida continua longe de ser simples. Existem obstáculos permanentes, limitações físicas e situações em que determinadas experiências simplesmente não são possíveis. Ainda assim, destacou que a maior frustração não está nos monumentos antigos ou nos locais históricos construídos numa época em que a acessibilidade não era considerada, mas sim no facto de, ainda hoje, continuarem a existir restaurantes sem casas de banho adaptadas, hotéis que cobram mais por quartos acessíveis e espaços públicos sem condições adequadas.
Foi precisamente dessa realidade que nasceu o blogue “Just Go by Wheel”, plataforma onde partilha experiências de viagem e procura sensibilizar para a importância da acessibilidade. Na sua visão, a acessibilidade não deve ser encarada como um favor, mas como um direito fundamental que garante liberdade, autonomia e participação plena na sociedade.
A encerrar a intervenção, deixou uma mensagem de perseverança e reflexão: há impossíveis, e nem todos os desafios podem ser ultrapassados. No entanto, antes de desistir de um sonho, é essencial ter a certeza de que ele é realmente impossível.





