Na quarta edição da Forbes Women’s Summit, tendo como mote “O Poder da Voz”, a escrita foi um dos temas que subiu ao palco. Filipa Martins, que escreveu “No Meu Fim Está o Meu Começo”, Filipa Fonseca Silva, autora de “A Mulher por Detrás da Parede”, e Helena Magalhães, autora de “Atos de Desobediência”, foram as convidadas para a conversa sobre a escrita como instrumento de pensamento, influência e transformação cultural. As escritoras começaram por olhar para a influência que a sua arte pode ter, explicando de que forma olham para ela.
“Há pouco tempo perguntaram-me qual era a diferença entre uma escritora mulher e um escritor homem. A minha resposta foi herança. A nossa herança, enquanto escritora mulher, é muito mais limitada. Enquanto leitora fui formatada e formada por romances escritos por vozes masculinas, em que os protagonistas eram masculinos ou então protagonistas femininas formatadas por uma visão masculina. Inevitavelmente considerei que essa abordagem era a que era aceite a nível literário”, afirmou Filipa Martins.
A partir daí acabou por considerar que algumas histórias não seriam suficientes para darem origem a um livro. Até que o tempo e a maturidade lhe foram mostrando que o legado é importante e cabe em qualquer página. Vemos isso no seu último livro, mencionado anteriormente, mas também na biografia que escreveu sobre Natália Correia: “O Dever de Deslumbrar”.

“Eu só percebi que a intimidade, o que existe dentro das casas, tem um papel literário e até político depois de escrever a biografia da Natália Correia. Toda a gente conhece esta figura, era uma mulher extremamente pública que falava muito alto. Mas a verdade é que enquanto biografa senti-me mais comovida e mais próxima daquela figura quando conheci os seus detalhes mais íntimos, e percebi como é que o contexto social como aquele que se viveu 40 anos em Portugal condicionam uma mulher tão livre”, disse.
“Também encontrei na história das mulheres da minha família mulheres anónimas, sem voz, que não sabiam a que violência tinham estado sujeitadas porque não conheciam a palavra para a nomear, nunca tinham sido violadas porque não conheciam a palavra violação. Senti a obrigação moral de contar estas histórias”, acrescentou.
Filipa Fonseca Silva, fundadora do Clube das Mulheres Escritoras, olha sempre para a escrita como um ato político”. “Acho que os escritores, e os artistas em geral, têm essa quase obrigação de usar a sua voz para falar de assuntos que muitas vezes são esquecidos. Eu sempre escrevi com essa intenção. Se não seria só entretenimento, o que também é válido e necessário, mas eu não consigo desligar essa parte política. Depois também acaba por transparecer em alguns dos meus livros algum ativismo, como numa distopia que eu escrevi que é o ‘Admirável Mundo Verde’. O meu romance mais recente também fala sobre o adultério, culpa e as múltiplas formas de violência a que as mulheres estão sujeitas”, disse.

Helena Magalhães descreve a escrita como uma “intervenção cultural”. “Quando escrevemos, nós escritoras mulheres, sobre violência, desigualdade ou opressão, não estamos apenas a contar histórias, estamos também a alterar a forma como certas experiências podem ser vistas pelos leitores, nomeadas e discutidas culturalmente. Muitos dos temas sobre os quais eu gosto de escrever, sobrevivem até hoje sobretudo através deste silêncio que foi imposto àquilo que era permitido às mulheres escreverem. E eu acho que as escritoras de hoje, nós as três que estamos aqui, escrevermos sobre estes temas acaba também por interromper este silêncio. Quando uma experiência ganha linguagem, ganha também reflexão pública e a possibilidade de que a literatura gere mudanças”, defendeu a autora.
E deu como exemplo o seu último livro, que publicou no ano passado. “Atos de Desobediência” esteve muito tempo arrumado por a autora saber que iria criar algum incómodo, confessou. “Mas apesar de haver esse certo medo, eu também quero que o meu trabalho continue a desenvolver-se à margem das convenções que são dominantes no meio literário em Portugal, quero continuar a questionar as estruturas de poder e acima de tudo os limites que são impostos à voz da mulher”, afirmou.
Helena confessou também que não acredita que os livros possam mudar o mundo sozinhos, mas “mudam consciências”.
“Ainda há muito por fazer”
A história mostra-nos que as vozes das mulheres nem sempre tiveram lugar no mundo da literatura. Se este painel, composto unicamente por mulheres, aconteceu, então sabemos também que as coisas mudaram ao longo dos últimos anos. Mas até que ponto?
“O que eu sinto que mudou nestes últimos anos, sobretudo nos últimos cinco anos talvez, foi as mulheres atreverem-se a sair do registo do romance e atreverem-se e ir para registos onde historicamente os homens já estavam e as mulheres pouco estavam. Nomeadamente as distopias, terror, policial, erótico”, começa por dizer Filipa Martins.
“A verdade é que já muito foi feito, conseguimos fazer nos últimos dez anos aquilo que gerações anteriores não conseguiram fazer em décadas, mas ainda há muito para fazer”, acrescenta Filipa Fonseca Silva. E começa por falar pelos estudos que nos mostram que na hora de escolher um livro para ler, as mulheres são muito mais democráticas que os homens, que normalmente optam por escolher ler outros homens.

“Ainda há o estigma do romance feminino, que é assim meio açucarado, ingénuo, ainda vou para sul e para norte deste país fazer parte de painéis em que me perguntam várias vezes quais são as características da escrita feminina. Ainda há aqui muita gente que nos tenta engavetar e não olham para nós como autoras de corpo inteiro, somos autoras de um segmento. É natural, estamos a combater séculos de silenciamento. Estamos a conseguir soldados e armas onde os devemos conseguir, que é nos leitores”, disse.
Helena Magalhães também consegue ver esse lado em que fica clara a evolução já conquistada. Mas também defende que há coisas que são urgentes mudar. “Hoje uma mulher tem muito mais liberdade para escrever sem ter de parecer exemplar, que era o papel que era reservado à mulher, mas eu acho que continuamos a ser muito julgadas em Portugal, ainda não há uma total liberdade para as mulheres escreverem. As escritoras que tiveram a coragem de fugir à moralidade, sabemos o que é que lhes aconteceu. Sabemos o que aconteceu a Maria Teresa Horta, a Natália Correia, Maria Velho da Costa, Florbela Espanca. Todas elas foram censuradas por escreverem como mulheres fora deste papel que nos foi permitido. Hoje em dia, as mulheres já não são censuradas, mas sofremos outro tipo de silenciamento. Ainda há experiências humanas que as mulheres escrevem que continuam a ser tratadas como uma vergonha privada e que deviam ser discutidas coletivamente”, conclui.





