“Treinar só quando estamos motivados não é opção”: campeãs falam de sacrifício, pressão e superação no Forbes Women Summit

O desporto de alta competição foi apresentado no Forbes Women Summit sem um "embrulho cor-de-rosa". Entre histórias de títulos mundiais e medalhas, as atletas falaram sobretudo das renúncias, da disciplina diária e da capacidade de continuar mesmo quando tudo parece correr mal. Foram histórias sobre atletas que são líderes e que cimentaram essa liderança na…
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Sacrifícios pessoais, lesões e pressão marcaram o painel “As Vozes das Campeãs”, na 4ª edição do Forbes Women Summit, no Hotel Palácio Estoril. Carolina Duarte (velocista paralímpica), Naide Gomes (salto em comprimento) e Agate de Sousa (salto em comprimento) falaram sobre o lado menos visível do sucesso no desporto de alta competição, numa conversa franca marcada pela cumplicidade entre gerações.
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O desporto de alta competição foi apresentado no Forbes Women Summit sem um “embrulho cor-de-rosa”. Entre histórias de títulos mundiais e medalhas, as atletas falaram sobretudo das renúncias, da disciplina diária e da capacidade de continuar mesmo quando tudo parece correr mal. Foram histórias sobre atletas que são líderes e que cimentaram essa liderança na resiliência.

Carolina Duarte, campeã paralímpica em velocidade, admitiu que o percurso até ao topo exigiu abdicações profundas: “Tudo o que eu abdiquei é complicado, mas eu sabia que precisava de abdicar para alcançar o que alcancei”, afirmou.

Entre os exemplos, recordou momentos familiares que acabou por perder devido à competição. Um desses foi a festa dos “50 anos da minha mãe, não fui, estava em estágio.”

A atleta reconheceu que o desporto acabou também por afetar a vida social: “Hoje em dia, não são muitos os amigos que tenho, pois não nutri muito os eventos sociais, caso de aniversários.” E acrescentou, em tom de humor: “Hoje em dia já nem sou convidada para aniversários.”

Ainda assim, considera que os sacrifícios fazem parte inevitável do percurso competitivo. “Estávamos a abdicar de tudo o que é lazer, pois tínhamos sempre competição, temos medo de lesões, etc.”

Carolina Duarte falou também da maternidade, explicando que descobriu a gravidez aos três meses e teve de suspender os treinos.

“Eu sabia que precisava de abdicar para alcançar o que alcancei”, diz Carolina Duarte.

A atleta paralímpica defendeu ainda a importância de humanizar os ídolos desportivos perante os mais novos. “Os ídolos são pessoas normais que enfrentam desafios que nós próprios temos.”

“Digo aos mais jovens que fico nervosa antes das competições e eles ficam a olhar para mim. E sentem um alívio por sentir que também sinto isso”, explicou.

Também contou que treinava “com uma t-shirt com a cara da Naide Gomes”, assumindo a antiga campeã mundial como inspiração direta. “O que a Naide fez é um legado que também quero deixar para outros.”

Para Carolina Duarte, a medalha é apenas uma consequência de algo maior: “Não me atrai a medalha em si, mas através dela eu chegar a outros miúdos, no meu caso, acenando com a bandeira da inclusão.”

A atleta, que revelou ter apenas 10% de visão, recusou definir-se pelas limitações: “Não me deixo afetar por aquilo que não tenho, procurando fazer tudo aquilo que eu faço.”

Sobre a exigência do treino, deixou uma máxima: “Treinar só quando estamos motivados não é opção.”

“Não sentimos aquela alegria enorme de treinar, sobretudo quando o treino corre mal”, admitiu. “Às vezes temos um mês inteiro em que tudo corre mal, mas mantemos a persistência de continuar.”

Naide Gomes, campeã mundial de salto em comprimento em 2004, reconheceu igualmente o peso das renúncias pessoais ao longo da carreira. “Abdiquei do tempo em família, mas não me arrependo, pois para chegar onde cheguei tive de o fazer.”

“Não tenho grande núcleo de amizade, pois foram desistindo um pouco de mim, porque eu estava cega no que fazia. Mas não me arrependo. Faria tudo de novo”, afirmou.

Ao longo da conversa, tornou-se evidente a ligação próxima entre Naide Gomes e Agate de Sousa, atual campeã mundial de salto em comprimento. Naide recordou o momento em que Agate lhe disse que era sua inspiração: “Ela foi ter comigo e dizer que eu era ídolo dela. Nem sempre as pessoas fazem isso.”

Sobre a atual geração, Naide mostrou orgulho no percurso da atleta mais nova: “Ela está a conseguir fazer uma história bonita.” E acrescentou: “Foi gratificante para mim vê-la a ser ela a atleta que está a brilhar lá fora.”

Naide Gomes abordou ainda os momentos de maior fragilidade da carreira, sobretudo durante as lesões. “Os momentos das lesões fazem parte da vida de um campeão”, afirmou.

“Chorei muitas vezes e gritei. Mas no dia seguinte estava com determinação em seguir em frente.” Para a antiga atleta, o mais importante é não perder a confiança: “Não podes duvidar das tuas capacidades.”

Apoio familiar e confiança na equipa foram apontados como fundamentais. “A minha mãe disse que eu tinha de continuar a acreditar.”

“Chorei muitas vezes e gritei. Mas no dia seguinte estava com determinação em seguir em frente”, refere Naide Gomes.

A antiga campeã explicou ainda como aprendeu a lidar com a pressão externa: “Tu habituas as pessoas a um nível tão alto, que as pessoas pedem sempre mais, mas na realidade a exigência é comigo própria. Eu queria mais do que toda a gente.”

“Somos os nossos próprios adversários”, resumiu.

Por seu lado, Agate, campeã mundial de salto em comprimento em 2026, admitiu que uma das maiores dificuldades continua a ser gerir expectativas familiares e académicas. “A parte mais difícil é abrir mão do sonho ou desejo dos miúdos, já que os pais querem que o filho se forme em primeiro lugar.”

“Eu tenho 26 anos e não tenho licenciatura e estou a tentar conciliar”, contou.

Nesse momento, Naide interrompeu-a para recordar a sua própria experiência: “Eu terminei o meu curso universitário aos 32 anos, mas consegui.”

Agate de Sousa, que assumiu desde o início a emoção de partilhar o palco com Naide Gomes, reforçou isso, dizendo, com emoção, que “a Naide é uma inspiração para mim.”

No diálogo que encetaram, a atual campeã mundial recordou ainda o apoio recebido de Naide quando, vinda de São Tomé e Príncipe, chegou a Portugal: “Quando comecei o atletismo, a Naide também me ajudou com materiais.” Tal como as restantes atletas, Agate reconheceu que o desporto condiciona fortemente a vida social. “Não sei o que é sair à noite com os meus colegas; já não nos convidam para festas porque não vale a pena.”

“A pressão é continuar a manter o trabalho, acreditando que levará a bons resultados”, aponta Agate de Sousa.

Sobre a pressão da alta competição, Agate de Sousa explicou que a abordagem passa por focar-se no processo e não apenas nos resultados. “A pressão é continuar a manter o trabalho, acreditando que levará a bons resultados.” No seu caso, bons resultados será também bater o recorde de Naide, de 7,12 metros, que estava ali sentada ao seu lado.

Mesmo depois de nos Mundiais de Atletismo já ter assegurado o título mundial, Agate revelou que, nos saltos que ainda tinha pela frente, continuou motivada por um objetivo específico: “A minha motivação na competição era bater o recorde da Naide Gomes”. E hoje essa meta continua a ser algo que tem na mira: “Estou a tentar bater os 7,12 metros da Naide”, disse.

“Acredito que o meu recorde vai ser batido”, respondeu Naide, dirigindo-se à atleta mais nova, deixando-lhe também um conselho direto: “Acredita nas tuas capacidades”. E concluiu: “Vou ficar feliz por ti quando bateres o meu recorde.”

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