Tragédia num parque de diversões pode custar milhares de milhões à Six Flags

A morte de um homem de 42 anos, de Atlanta, Geórgia, EUA, numa montanha-russa da Six Flags, nos Estados Unidos, poderá agravar as dificuldades financeiras que a operadora de parques de diversões já enfrentava. Além das possíveis indemnizações judiciais, a empresa poderá ter de suportar custos elevados com alterações de segurança, prémios de seguro mais…
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A morte de um visitante numa montanha-russa levou ao encerramento temporário de outras nove atrações da Six Flags e fez cair as ações da empresa mais de 20%. Com mais de 4,2 mil milhões de euros de dívida, a operadora norte-americana enfrenta agora o risco de indemnizações milionárias, seguros mais caros e uma crise de reputação.
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A morte de um homem de 42 anos, de Atlanta, Geórgia, EUA, numa montanha-russa da Six Flags, nos Estados Unidos, poderá agravar as dificuldades financeiras que a operadora de parques de diversões já enfrentava. Além das possíveis indemnizações judiciais, a empresa poderá ter de suportar custos elevados com alterações de segurança, prémios de seguro mais caros e uma quebra na procura, num cenário que já levou outras empresas do setor a enfrentar graves problemas financeiros.

Hassan Kariem, professor de 42 anos, morreu na segunda-feira, depois de cair da Goliath, uma montanha-russa com cerca de 61 metros de altura, no parque Six Flags Over Georgia. O homem visitava o parque com a companheira, a filha desta e uma sobrinha.

O acidente levou ao encerramento temporário de outras nove atrações em diferentes parques do grupo. As ações da Six Flags, cotada na Bolsa de Nova Iorque com o símbolo FUN, caíram mais de 20% desde a morte de Kariem.

A desvalorização bolsista é apenas uma das consequências financeiras possíveis de uma tragédia desta natureza. A Six Flags já enfrentava uma dívida superior a 5 mil milhões de dólares (4,25 mil milhões de euros) e uma estrutura financeira fragilizada após a fusão com a Cedar Fair, concluída em 2024.

A empresa depende em grande medida de um sistema de autorresseguro, o que significa que tem de suportar determinados custos com indemnizações e processos judiciais antes de as apólices comerciais começarem a cobrir as despesas. Os documentos mais recentes entregues à Securities and Exchange Commission (SEC), a entidade reguladora dos mercados financeiros norte-americanos, indicavam que a empresa tinha 45,5 milhões de dólares (38,7 milhões de euros) em reservas para autorresseguro no final de junho.

Ao mesmo tempo, as seguradoras poderão aumentar os prémios cobrados à empresa. Também é possível que venham a ser exigidas dispendiosas alterações de segurança em montanhas-russas semelhantes, obrigando a Six Flags a desviar recursos financeiros essenciais para manter as atrações em funcionamento.

Ainda assim, o acidente poderá não ser, por si só, suficiente para levar a empresa ao colapso. Dennis Spiegel, especialista do setor e fundador da International Theme Park Services, considera que a tragédia poderá agravar uma situação já delicada, mas dificilmente será o único fator determinante. A Six Flags opera 34 parques e registou uma queda de 25% nas receitas líquidas de bilheteira ao longo dos últimos quatro trimestres.

“Mais um prego no caixão” da Six Flags

“Não será este acidente a dar o golpe final na Six Flags, mas a empresa não vai sair ilesa”, diz Dennis Spiegel à Forbes.

O especialista considera que os problemas da operadora são anteriores ao acidente. “A Six Flags é um navio sem capitão há mais de dez anos. Este acidente certamente não ajudou, mas a empresa já estava numa situação difícil devido a cinco ou dez anos de má gestão, além de uma fusão falhada e mal concebida. Isto vem apenas agravar tudo”, acrescentou.

Que montanhas-russas foram encerradas?

Na sequência da morte de Hassan Kariem, a Six Flags suspendeu temporariamente o funcionamento de nove outras atrações, distribuídas por vários parques nos Estados Unidos e no Canadá.

Entre elas estão a Nitro, no Six Flags Great Adventure, em Nova Jérsia; a Raging Bull, no Six Flags Great America, no Illinois; a Goliath, no Six Flags Magic Mountain, na Califórnia; a Diamondback e a Orion, no Kings Island, no Ohio; a Fury 325 e a Thunder Striker, no Carowinds, na Carolina do Norte; e a Behemoth e a Leviathan, no Canada’s Wonderland, no Ontário, Canadá.

Nove das dez atrações encerradas — incluindo a montanha-russa onde ocorreu o acidente — são montanhas-russas de grande dimensão, conhecidas como hypercoasters ou gigacoasters, fabricadas pela empresa suíça Bolliger & Mabillard. Estas atrações incluem quedas de pelo menos 61 metros e utilizam sistemas de retenção à altura do colo, em vez de arneses que passam sobre os ombros.

A suspensão das atrações poderá implicar inspeções adicionais e intervenções técnicas, com custos que se somam às potenciais consequências jurídicas do acidente.

Quando os acidentes colocaram parques de diversões em risco financeiro

A história do setor mostra que acidentes graves podem desencadear uma cadeia de consequências financeiras, desde indemnizações e encerramentos prolongados até ao aumento dos custos dos seguros e à perda de visitantes.

Em 2016, a morte de um rapaz de dez anos no escorrega aquático Verrückt, no parque Schlitterbahn, em Kansas City, desencadeou uma crise financeira para a empresa. O encerramento definitivo da atração principal, os acordos judiciais de vários milhões de dólares, a dificuldade em obter seguros de responsabilidade civil a preços comportáveis e a quebra na conversão de visitantes em titulares de passes sazonais provocaram uma forte pressão sobre o negócio. Em 2019, a Schlitterbahn vendeu os seus principais ativos à Cedar Fair.

No Reino Unido, um acidente na montanha-russa Smiler, no parque Alton Towers, provocou 16 feridos. Embora a Merlin Entertainments, proprietária do parque, tenha conseguido absorver o impacto financeiro, estimou que o acidente teria um efeito imediato de 40 a 50 milhões de libras (46 a 58 milhões de euros) nos lucros operacionais. O valor refletia as inspeções de segurança realizadas em várias atrações, os encerramentos temporários noutros parques e a quebra de visitantes durante a época alta.

Em 2017, quatro pessoas morreram na atração aquática Thunder River Rapids, no parque Dreamworld, em Queensland, na Austrália. O parque encerrou durante dois meses e a empresa registou custos totais relacionados com o acidente de 95,2 milhões de dólares australianos (cerca de 58 milhões de euros). A afluência caiu mais de 30% no período imediatamente posterior à tragédia, enquanto as ações da empresa-mãe, a Ardent Leisure, perderam mais de metade do seu valor. A empresa acabou por vender ativos não essenciais e, anos mais tarde, enfrentou uma tentativa de aquisição a um preço fortemente descontado.

Nem todos os acidentes provocam uma crise duradoura

Há, contudo, exemplos de parques que conseguiram ultrapassar acidentes graves sem sofrer consequências financeiras prolongadas. Em 2003, uma falha mecânica na atração Big Thunder Mountain Railroad, na Disneyland, na Califórnia, provocou uma morte e dez feridos. A Disney encerrou a atração durante vários meses e reviu os seus procedimentos de manutenção em todos os parques, mas conseguiu absorver os custos jurídicos, operacionais e reputacionais sem um impacto significativo nos resultados a longo prazo.

Mais recentemente, a Universal Orlando enfrentou uma situação semelhante, depois de um homem com uma condição pré-existente na coluna vertebral ter morrido, em março de 2026, na montanha-russa Stardust Racers, no parque Epic Universe. A autópsia apontou para lesões provocadas por múltiplos impactos. O incidente não teve um efeito significativo na afluência aos parques.

Estes casos demonstram que o impacto financeiro de um acidente depende de vários fatores, incluindo a dimensão da empresa, a capacidade de resposta, as medidas de segurança adotadas e a confiança dos visitantes.

Uma empresa com mais de 5 mil milhões de dólares de dívida

A Six Flags acumulou anos de endividamento elevado, enquanto enfrentava dificuldades em aumentar a afluência aos parques e os gastos dos visitantes durante as visitas.

Em 2024, concluiu uma fusão avaliada em 8 mil milhões de dólares (6,8 mil milhões de euros) com a Cedar Fair, juntando dois dos maiores operadores regionais de parques de diversões da América do Norte. A operação criou um grupo de grande dimensão, mas também deixou a empresa combinada com uma dívida superior a 5 mil milhões de dólares (4,25 mil milhões de euros).

O serviço dessa dívida exige mais de 350 milhões de dólares (297,5 milhões de euros) por ano apenas em pagamentos de juros, pressionando continuamente a tesouraria.

Para obter liquidez e reduzir o endividamento, a Six Flags tem vendido ativos. No início deste ano, anunciou a venda de sete parques à EPR Properties. Ainda assim, os resultados financeiros mais recentes continuam a mostrar uma descida das receitas trimestrais e um agravamento dos prejuízos líquidos.

A pressão sobre a gestão também aumentou. O fundo ativista Jana Partners adquiriu uma participação na empresa e está a pressionar a administração para analisar opções como a venda integral do grupo ou uma operação que permita retirar a empresa da bolsa, numa tentativa de recuperar o valor para os acionistas.

O que esperar nos próximos meses?

A Six Flags deverá divulgar os próximos resultados trimestrais a 5 de novembro. As contas, referentes ao trimestre terminado a 30 de setembro, não deverão refletir os efeitos financeiros da morte de Hassan Kariem, mas a administração poderá abordar o acidente e as suas potenciais consequências durante a apresentação dos resultados.

Para a empresa, o desafio será gerir as consequências imediatas da tragédia sem agravar uma situação financeira já pressionada pelo endividamento, pela quebra de receitas e pela necessidade de recuperar a confiança dos visitantes e dos investidores.

Texto original aqui. Artigo traduzido e editado por Paulo Marmé.

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