Netflix corta mil postos de trabalho no maior despedimento desde 2022

A Netflix comunicou aos trabalhadores que vai cortar cerca de mil postos de trabalho, numa redução equivalente a aproximadamente 6% da sua força de trabalho global. Trata-se da maior vaga de despedimentos da empresa desde 2022, numa altura em que o crescimento e o envolvimento dos espectadores estão a perder ritmo. De acordo com o…
ebenhack/AP
A gigante do streaming Netflix vai eliminar cerca de 6% da sua força de trabalho global, numa altura em que o crescimento e o envolvimento dos espectadores estão a abrandar. A empresa prepara-se para divulgar os resultados do terceiro trimestre a 20 de outubro.
Negócios

A Netflix comunicou aos trabalhadores que vai cortar cerca de mil postos de trabalho, numa redução equivalente a aproximadamente 6% da sua força de trabalho global. Trata-se da maior vaga de despedimentos da empresa desde 2022, numa altura em que o crescimento e o envolvimento dos espectadores estão a perder ritmo.

De acordo com o Wall Street Journal, os co-CEO da empresa, Greg Peters e Ted Sarandos, informaram os trabalhadores dos cortes através de um email enviado na manhã de quarta-feira. A maioria das reduções deverá afetar as equipas de produto, tecnologia, área jurídica e recursos humanos.

Os despedimentos surgem cerca de um mês depois de Sarandos ter admitido, durante um evento da Bloomberg, que a empresa não estava a crescer ao ritmo que pretendia.

“No geral, não estamos a crescer tão depressa quanto gostaria e estamos a trabalhar para acelerar esse crescimento”, afirmou o responsável no evento Screentime 2026, da Bloomberg. Sarandos procurou, no entanto, relativizar a declaração, acrescentando que «o negócio está a correr muito bem e a crescer de forma satisfatória».

As ações da Netflix não registaram alterações significativas na abertura da sessão de quarta-feira, após a divulgação da notícia. Ainda assim, acumulam uma desvalorização de cerca de 22% desde o início do ano, num contexto em que os analistas apontam para uma redução do envolvimento global dos espectadores e para uma menor transparência da empresa na divulgação de indicadores operacionais.

Na terça-feira, Craig Huber, analista da Huber Research, reviu em baixa a recomendação para as ações da Netflix, passando de Overweight — equivalente a uma recomendação de compra — para Underweight, uma indicação de venda. O analista reduziu também o preço-alvo a 12 meses, de 85 dólares (72 euros) para 70 dólares (60 euros), antes da apresentação dos resultados do terceiro trimestre.

325 milhões de subscritores

Este era o número de subscritores anunciado pela Netflix no início do ano, a última ocasião em que a empresa divulgou este indicador. Desde então, a evolução da base de clientes tem sido acompanhada de perto pelos investidores, num momento em que o crescimento da plataforma dá sinais de abrandamento.

A Netflix foi, durante mais de uma década, a líder incontestada do streaming e esteve na origem de uma corrida entre os grandes estúdios tradicionais de Hollywood, que levou à criação de mais de 200 serviços de streaming. Contudo, a expansão sem precedentes do número de subscritores durante a pandemia acabou por colocar a empresa perante um novo desafio: depois de anos centrada na conquista de clientes, passou a privilegiar a maximização das receitas.

Nos últimos anos, a empresa avançou com uma campanha global contra a partilha de palavras-passe, lançou um plano de subscrição mais barato com publicidade e reforçou a aposta na aquisição de direitos de transmissão de eventos em direto, incluindo jogos da NFL e combates de boxe.

Durante o evento da Bloomberg, Sarandos revelou que a Netflix investe cerca de 5% dos seus 20 mil milhões de dólares (17 mil milhões de euros) anuais em conteúdos na programação em direto. Segundo o responsável, estes eventos geram “muitas inscrições”, mas representam apenas cerca de 1% do consumo total de conteúdos na plataforma.

O crescimento do número de subscritores e o envolvimento dos espectadores têm vindo a abrandar de forma consistente, levando vários analistas de Wall Street a rever em baixa as suas recomendações para as ações da empresa.

O impacto da tentativa de aquisição da Warner Bros.

A tentativa da Netflix de adquirir a Warner Bros. Discovery também marcou a estratégia recente da empresa. No final de 2025, a plataforma avançou com uma proposta de 83 mil milhões de dólares (70,6 mil milhões de euros) para adquirir os estúdios de cinema e televisão da Warner Bros. Discovery e o serviço HBO Max.

A iniciativa gerou oposição imediata de reguladores e investidores ativistas, preocupados com a concentração de mercado e os riscos associados ao financiamento de uma operação de grande dimensão através de dívida.

A Paramount Skydance, concorrente na disputa e apoiada pela família bilionária Ellison, apresentou uma proposta concorrente agressiva e acabou por adquirir a Warner Bros., numa operação que recebeu luz verde no início deste mês.

A derrota na disputa representou um revés estratégico para a Netflix, que ficou sem o vasto catálogo de conteúdos que pretendia utilizar para sustentar o crescimento do negócio a longo prazo. A reação negativa de Wall Street às movimentações em torno da aquisição e o desfecho da operação aumentaram a pressão sobre a empresa para reduzir custos e reorganizar as suas operações, com o objetivo de recuperar as margens de lucro.

No mês passado, Sarandos afirmou não se arrepender da tentativa de aquisição. “Penso que o plano era sólido. Chegámos a ganhar o negócio em determinado momento, pelo que consideramos que o preço estava certo, tendo em conta a nossa dimensão. Esse era o preço máximo a partir do qual acreditava que poderíamos gerar valor para os nossos acionistas com aquele ativo. Acima desse valor, estaríamos a entrar em território negativo”, declarou.

A Netflix deverá divulgar os resultados financeiros do terceiro trimestre na terça-feira, 20 de outubro. A apresentação será uma oportunidade para os investidores avaliarem a evolução do negócio numa fase marcada pelo abrandamento do crescimento, pela pressão sobre as ações e por uma nova ronda de contenção de custos.

Texto original aqui. Artigo traduzido e editado por Paulo Marmé.

Mais Artigos