As empresas do Norte estão cada vez mais conscientes de que a sustentabilidade é uma questão de gestão e competitividade, mas continuam a enfrentar dificuldades em transformar essa preocupação em estratégia, metas, indicadores e mecanismos de acompanhamento. Esta é uma das principais conclusões de um estudo realizado no âmbito do projeto “Novo Rumo a Norte – Rumo à Sustentabilidade”, promovido pela AEP – Associação Empresarial de Portugal.
O diagnóstico revela que 91% das empresas inquiridas consideram a sustentabilidade uma preocupação da empresa e 80% entendem que a gestão de ESG é uma responsabilidade da liderança. No entanto, apenas 15% afirmam ter objetivos de sustentabilidade definidos para o curto, médio e longo prazo, evidenciando uma diferença significativa entre a consciência sobre a importância do tema e a sua integração formal na gestão.
A dimensão das empresas é um dos fatores que mais marca esta realidade. As microempresas representam mais de 94% do tecido empresarial em todas as sub-regiões do Norte, mas são também as que apresentam maiores dificuldades na formalização de políticas, definição de responsabilidades, monitorização de indicadores e reporte de informação ESG.
O estudo mostra, contudo, que o ponto de partida não é de ausência de práticas. Eficiência energética, gestão de resíduos, saúde e segurança no trabalho, igualdade e formação estão entre as áreas onde as empresas apresentam níveis de implementação mais elevados. O desafio está agora em transformar estas práticas, muitas vezes desenvolvidas de forma autónoma ou informal, em sistemas de gestão capazes de medir resultados, estabelecer objetivos e demonstrar desempenho perante clientes, fornecedores, financiadores e outros parceiros.
Instrumentos de sustentabilidade
A maior dificuldade surge precisamente nos instrumentos que permitem estruturar essa resposta. Mais de 40% das empresas inquiridas apresentam conhecimento inexistente ou muito limitado sobre vários referenciais e instrumentos de sustentabilidade, incluindo CSRD, ESRS, VSME, Taxonomia Europeia, dupla materialidade, due diligence e análise de ciclo de vida. Também o conhecimento sobre financiamento sustentável e prevenção do greenwashing permanece relativamente reduzido.
A integração do ESG nas relações de negócio é igualmente limitada. Cerca de um terço das empresas nunca solicita informação ESG aos seus fornecedores e cerca de 30% nunca utiliza critérios ESG na seleção de fornecedores. Do lado dos clientes, 28% das empresas dizem nunca receber pedidos de informação sobre sustentabilidade. No relacionamento com a banca, 36% nunca discutem temas ESG e 54% nunca foram questionadas sobre informação desta natureza.
É neste contexto que a AEP dá agora início à ação de capacitação “Rumo à Prática” dirigida às micro, pequenas e médias empresas das oito sub-regiões do Norte. A iniciativa pretende responder precisamente ao principal desafio identificado no estudo: passar do conhecimento e da intenção para a implementação concreta.
As ações de capacitação “Rumo à Prática” são gratuitas e destinam-se às MPME do Norte.
Os encontros arrancam em outubro, com sessões presenciais no Alto Minho e em Terras de Trás-os-Montes, seguindo-se o Cávado em novembro e as restantes sub-regiões ao longo do projeto. Ao longo de sete sessões temáticas, as empresas terão acesso a ferramentas e orientações práticas sobre introdução ao ESG, descarbonização e eficiência energética, economia circular e resíduos, pessoas e cadeia de valor, ética e gestão de risco, financiamento sustentável, reporte, certificação e regulamentação.
A iniciativa pretende ainda responder à diversidade empresarial existente no território. O estudo evidencia diferenças relevantes entre as oito sub-regiões, quer ao nível da estrutura empresarial e setorial, quer na capacidade de formalização e implementação das práticas ESG. O objetivo é, por isso, aproximar a sustentabilidade da realidade concreta das empresas, evitando soluções uniformes para realidades empresariais distintas.
O projeto é promovido pela AEP e cofinanciado pela União Europeia através do Programa Regional NORTE 2030.
“O estudo mostra-nos que as empresas já estão a fazer muito, mas nem sempre conseguem medir, estruturar e demonstrar aquilo que fazem. É precisamente essa passagem da prática informal para uma gestão mais estruturada da sustentabilidade que queremos apoiar”, afirma Luís Miguel Ribeiro, presidente da AEP.
Com um universo-alvo de 500 micro, pequenas e médias empresas do Norte, o projeto “Novo Rumo a Norte – Rumo à Sustentabilidade” pretende reforçar a capacidade das empresas para responder às novas exigências dos mercados, das cadeias de fornecimento e do financiamento, encarando o ESG não apenas como uma questão de conformidade, mas como um fator de competitividade, eficiência e acesso a novas oportunidades de negócio.





