Opinião

Portugal provou que consegue adotar a IA. O maior desafio ainda está pela frente

André Rodrigues

Nos últimos anos, a pergunta que pairava entre líderes empresariais e decisores políticos em Portugal era: será que as empresas vão mesmo adotar ferramentas de inteligência artificial? Já temos a resposta, e é um sim inequívoco. Mais de metade das empresas portuguesas utiliza atualmente IA, face a 41% há apenas um ano. Os ganhos de produtividade são reais. As expectativas de crescimento são altas. Os primeiros céticos estavam, em grande medida, enganados.

Mas, se a adoção está a acelerar, porque é que paira a sensação de que ainda falta dar um passo decisivo?  Talvez por que adoção não seja o mais difícil. O grande desafio é o que vem a seguir, e Portugal ainda não ultrapassou esse limiar.

O mais recente estudo da Strand Partners para a AWS, ‘Desbloquear o Potencial de IA em Portugal 2026’, revela um cenário simultaneamente encorajador e incompleto. 80% das empresas que utilizam IA referem ganhos de produtividade mensuráveis. E 85% esperam que esta tecnologia impulsione o seu crescimento. No entanto, por detrás destes dados está uma realidade desconfortável: quase seis em cada dez dessas empresas continuam a utilizar a Inteligência Artificial para automatizar tarefas rotineiras, implementar chatbots prontos a utilizar ou a adquirir soluções pré-configuradas. Apenas 16% atingiram um nível que pode, de facto, ser considerado de integração avançada.

Por outras palavras, Portugal aprendeu a utilizar a IA, mas ainda não aprendeu a pensar com ela.

A distinção é mais relevante do que pode parecer. Uma empresa que utiliza um chatbot para responder a questões dos clientes poupa tempo. Mas, uma empresa que utiliza IA para repensar a forma como concebe produtos, aloca recursos ou entra em novos mercados cria um tipo de valor completamente diferente, um valor que se multiplica. A diferença entre estas duas abordagens não é tecnológica, é estratégica. E, é aí que se vai decidir a capacidade de Portugal para competir nesta nova era da IA.

O que está a impedir as empresas de avançar? O estudo aponta para um conjunto de obstáculos que se reforçam mutuamente e que não podem ser resolvidos isoladamente. A falta de competências é o mais frequentemente citado: 45% das empresas identificam a escassez de recursos humanos com competências digitais, e em IA, como uma das principais barreiras. Apenas um quarto das empresas inquiridas considera dispor atualmente das competências necessárias, ainda que nove em cada dez reconheçam que estas vão ser essenciais nos próximos cinco anos. Existe nas empresas portuguesas uma distância entre o saber e o fazer que deve preocupar todos os que pensam na nossa resiliência económica a longo prazo.

Mas, o desafio das competências vai além da contratação de especialistas em dados. As empresas que estão a aumentar a sua utilização da IA com sucesso não são as que têm as maiores equipas técnicas. São aquelas em que, de forma transversal – da área financeira, operacional ao marketing – têm profissionais que compreendem o suficiente sobre o que a IA é capaz de fazer, e que fazem as perguntas certas. O verdadeiro desafio não é a falta de pessoas capazes de criar modelos de IA. É a falta de pessoas que saibam onde e como os aplicar.

Há ainda a questão do investimento. Mais de metade das empresas portuguesas ainda não tem um orçamento dedicado à Inteligência Artificial. Quase um terço aponta a falta de clareza sobre o retorno do investimento como razão para não avançar. É compreensível, mas o resultado é um ciclo vicioso: sem investimento direcionado, os resultados têm um alcance limitado, e sem resultados torna-se difícil justificar mais investimento.

Quebrar este ciclo exige uma abordagem diferente aos projetos de IA. É essencial começar com casos de uso específicos e mensuráveis, que demonstrem valor rapidamente e valor rapidamente. A Credibom é um bom exemplo. Em vez de tentar reinventar toda a operação, identificou cerca de 30 oportunidades para aplicar IA, criou uma plataforma reutilizável em infraestrutura de cloud e começou a colocar as soluções em produção, uma a uma. A lição não está na tecnologia, mas na disciplina: começar em pequena escala, aprender depressa e escalar de forma deliberada.

Este desafio, hoje, é ainda mais relevante do que há um ano. A próxima geração de aplicações de Inteligência Artificial, como os sistemas agênticos capazes de raciocinar e agir de forma autónoma, ou a IA física que interage com o mundo real, não são uma realidade distante. E estão a chegar quando a maioria das empresas portuguesas ainda se encontra nas primeiras etapas de utilização da geração atual – com apenas 14% a se sentirem totalmente preparadas para o que aí vem.

Não é motivo para alarme, mas exige urgência. Os países e as empresas que mais vão beneficiar desta nova vaga são os que fizeram o trabalho menos visível de criar bases sólidas: investir em competências, desenvolver ferramentas internas e promover uma cultura em que a IA deixa de ser uma novidade e passa a integrar a forma como as decisões são tomadas.

Portugal provou que uma economia europeia de média dimensão pode acelerar a adoção tecnológica. É uma conquista, que merece ser reconhecida. Contudo, a rapidez da adoção não equivale à profundidade da transformação. A primeira permitiu-nos chegar à linha de partida. A segunda vai determinar quem ganha a corrida.

O próximo capítulo da história da IA em Portugal não vai ser escrito pelo número de empresas que utilizam Inteligência artificial. Vai ser escrito pelo número de empresas que a utilizam para fazer algo que antes não conseguiam fazer.

André Rodrigues,
Country lead da AWS em Portugal

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