Opinião

O próximo capítulo do e-learning

JPS Kohli

Ao longo da última década, o e-learning afirmou-se como um dos principais motores de democratização do acesso à formação. A flexibilidade que introduziu no mercado abriu portas para que a aprendizagem se tornasse numa prática cada vez mais frequente e acessível, algo que se reflete no facto de cerca de um terço dos utilizadores de internet da União Europeia recorrer a cursos online para desenvolver competências, segundo dados recentes do Eurostat. À medida que o acesso se generalizou, emergiu uma nova exigência: garantir que a formação se traduz em aprendizagem efetiva, capaz de gerar impacto real nas competências dos profissionais.

A resposta a este desafio deve, primeiro, começar pelo reconhecimento de que nem toda a aprendizagem é, por si só, capaz de gerar transformação. Durante muito tempo, o e-learning desenvolveu-se sob a lógica de que a disponibilização de conteúdos online seria suficiente para conduzir a mudanças nos conhecimentos e competências dos indivíduos. Na prática, esta lógica traduziu-se na criação de percursos formativos genéricos, desenhados sem ter em consideração o contexto, capacidades e objetivos de cada formando. A minha experiência mostra-me que esta abordagem produz resultados limitados: muitos processos de formação são iniciados, mas poucos são concluídos; e menos ainda são aqueles que se traduzem em aplicações diretas no quotidiano e na vida profissional dos indivíduos.

É precisamente por isto que temos de mudar de paradigma. Numa época em que as competências tendem a tornar-se obsoletas a uma velocidade nunca antes vista, torna-se urgente abandonar modelos de formação lineares e desenhar experiências de aprendizagem personalizadas e ajustadas às necessidades específicas de cada pessoa. Opções formativas que os ajudem verdadeiramente a adquirir as competências necessárias para se manterem relevantes no mercado.

A meu ver, a solução passa, em parte, pela incorporação de inteligência artificial e análise de dados nos modelos de formação. O valor destas ferramentas reside na sua capacidade de identificar lacunas de aprendizagem, antecipar dificuldades e ajustar percursos formativos em tempo real, em vez de guiá-los por programas genéricos. Ao analisar a forma como cada pessoa progride e interage com os conteúdos formativos, a automação permite ajustar a aprendizagem ao seu ritmo e nível de proficiência. O resultado é uma experiência mais direcionada, onde os utilizadores deixam de ser meros consumidores de informação e passam a beneficiar de uma formação alinhada com as suas necessidades.

Mas a tecnologia, por si só, não é a resposta. A aprendizagem continua a depender de um fator essencial: o acompanhamento humano. Muitos dos cursos e formações online falham precisamente porque carecem de mentores e comunidades que contribuam positivamente para a criação de compromisso e motivação, bem como para a aplicação prática das aprendizagens adquiridas. Uma abordagem que toma estes dois fatores como pilares influencia positivamente o percurso de quem decide investir na sua formação. Mais personalização e acompanhamento garantem mais envolvimento, melhores taxas de conclusão e, sobretudo, uma maior ligação às necessidades reais dos profissionais.

É desta convergência entre sistemas que adaptam a aprendizagem ao indivíduo e pessoas que acompanham e guiam o seu desenvolvimento que podemos garantir que aprender deixa de se reduzir a consumir conteúdos e passa a ser um percurso orientado para a evolução. Um processo cujo valor já não está naquilo que é disponibilizado, mas naquilo que se consegue efetivamente transformar.

O e-learning está a entrar numa nova fase de maturidade, na qual a tónica é, cada vez mais, colocada na sua capacidade de gerar impacto real nas competências dos profissionais. Num mercado de trabalho em que as exigências mudam a ritmo acelerado e onde a relevância dos trabalhadores depende cada vez mais da sua capacidade de adaptação, a eficácia e relevância da formação tornaram-se necessidades críticas. E só se torna possível assegurá-las quando tecnologia e dimensão humana operam em equilíbrio.

JPS Kohli,
Group CEO da SkillUp

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