Andrea Kimi Antonelli não precisou de percorrer todos os degraus habituais até chegar à Fórmula 1. Também não precisou de vários anos para demonstrar que a aposta da Mercedes na sua contratação era acertada. Aos 20 anos, o italiano acaba de conquistar o campeonato do mundo, apenas na sua segunda temporada na categoria rainha do automobilismo, confirmando uma das apostas mais ambiciosas de Toto Wolff nos últimos anos.
A conquista aconteceu este domingo, no Grande Prémio do México. O terceiro lugar, a 4,006 segundos do vencedor, Max Verstappen, foi suficiente para garantir matematicamente o título, com quatro provas ainda por disputar. Lewis Hamilton terminou em segundo, mas já sem possibilidades de impedir a consagração do piloto que herdou o seu lugar na Mercedes.
Piloto Mercedes aos 12 anos
A história de Antonelli é também a de uma aposta feita muito antes de chegar à Fórmula 1. A Mercedes integrou-o no seu programa de jovens pilotos em 2019, quando tinha apenas 12 anos. O talento demonstrado no karting convenceu a equipa de que estava perante um projeto de futuro, mas a velocidade da sua progressão acabaria por surpreender até os mais atentos ao automobilismo.
Em 2022, conquistou os campeonatos italiano e alemão de Fórmula 4. No ano seguinte, venceu as competições Formula Regional Middle East e European. Em 2024, em vez de seguir o percurso habitual e passar primeiro pela Fórmula 3, a Mercedes decidiu promovê-lo diretamente à Fórmula 2, onde terminou a temporada no sexto lugar, com duas vitórias.

Foi uma decisão pouco convencional, mas que acabaria por ter consequências decisivas. Quando Lewis Hamilton anunciou a saída da Mercedes para a Ferrari, abrindo uma vaga para 2025, a equipa escolheu um jovem (talvez mais adolescente do que jovem!) de 18 anos para ocupar um dos lugares mais pressionados da grelha.
Antonelli estreou-se na Fórmula 1 em 2025, aos 18 anos, seis meses e 19 dias, tornando-se o terceiro piloto mais jovem de sempre a competir na categoria. A primeira temporada terminou com o sétimo lugar no campeonato, 156 pontos e três pódios. Não foi um ano isento de dificuldades, mas foi suficiente para justificar a confiança da equipa. A segunda temporada transformou a promessa em campeão.
Uma temporada que começou por mudar os recordes
Em 2026, a Mercedes revelou-se particularmente competitiva com a introdução dos novos regulamentos técnicos, beneficiando de uma unidade motriz e de um sistema de recuperação de energia que lhe permitiram assumir uma posição de destaque.
Antonelli aproveitou a oportunidade. Depois de começar o campeonato com um segundo lugar na Austrália, conquistou na China a primeira pole position e a primeira vitória da carreira, tornando-se o mais jovem piloto de sempre a partir da primeira posição da grelha.
Seguiram-se triunfos no Japão, em Miami, no Canadá e no Mónaco, numa sequência de cinco vitórias consecutivas que lhe permitiu construir uma vantagem significativa no campeonato. No Mónaco, tornou-se também o mais jovem vencedor da prova e conseguiu o seu primeiro Grand Chelem, uma das distinções mais difíceis da Fórmula 1, que exige conquistar a pole position, vencer a corrida, registar a volta mais rápida e liderar todas as voltas.
A temporada não foi, contudo, uma progressão linear. Problemas mecânicos em Barcelona e no Reino Unido, bem como alguns resultados menos conseguidos, permitiram aos adversários aproximarem-se. Mas Antonelli respondeu com novas vitórias e pódios, incluindo uma recuperação no Grande Prémio de Itália: em Monza, depois de uma penalização relacionada com a substituição da unidade motriz o ter obrigado a partir do 19º lugar, conseguiu recuperar posições e terminou na frente do seu companheiro de equipa, George Russell. Foi o primeiro italiano a vencer o Grande Prémio de Itália em 60 anos.
A vitória nos Estados Unidos, a 25 de outubro, deixou-o praticamente com o título assegurado. Uma semana depois, no México, confirmou a conquista, com o 3º lugar na prova.
O que pode mudar na lista dos pilotos mais bem pagos
A dimensão desportiva da conquista poderá ter também uma consequência financeira importante. Na edição de 2025 do ranking dos pilotos de Fórmula 1 mais bem pagos do mundo, a Forbes colocou Antonelli na décima posição, com rendimentos totais de 12,5 milhões de dólares (10,7 milhões de euros).
Desse valor, cinco milhões de dólares (4,3 milhões de euros) correspondiam ao salário pago pela Mercedes, enquanto os restantes 7,5 milhões de dólares (6,4 milhões de euros) resultavam de bónus.

A composição dos rendimentos é particularmente reveladora. Apesar de em 2025 estar apenas na sua primeira temporada na Fórmula 1, Antonelli já conseguia mais do que duplicar o valor do salário através de prémios associados ao desempenho desportivo. Os três pódios conquistados em 2025 e os resultados obtidos ao longo da temporada ajudaram a explicar essa diferença.
Agora, com um campeonato do mundo no currículo, é expectável que o italiano ganhe peso nas negociações contratuais e na distribuição de prémios da Mercedes, podendo também reforçar o seu potencial comercial junto de marcas e patrocinadores.
O ranking Forbes de 2025 era liderado por Max Verstappen, com 76 milhões de dólares (65,2 milhões de euros), seguido de Lewis Hamilton, com 70,5 milhões de dólares (60,5 milhões de euros), e Lando Norris, com 57,5 milhões de dólares (49,4 milhões de euros).
Antonelli está ainda longe destes valores, mas a conquista do campeonato altera inevitavelmente a sua posição negocial. O jovem italiano deixa de ser apenas uma promessa com potencial para se tornar uma das principais figuras comerciais da Fórmula 1.
O lugar que herdou de Hamilton e o futuro da Mercedes
A decisão de colocar Antonelli no lugar de Hamilton foi uma das mais arriscadas da Mercedes. O britânico deixou a equipa depois de seis títulos mundiais conquistados ao serviço da marca, juntando-se à Ferrari para a temporada de 2025. Substituí-lo por um piloto com apenas uma época de Fórmula 2 representava uma aposta na formação e no futuro, em detrimento da experiência imediata.
O título de 2026 dá agora outra dimensão a essa decisão. A Mercedes volta a conquistar o campeonato de pilotos pela primeira vez desde 2020, quando Hamilton venceu o seu sétimo título mundial.
A Mercedes volta a conquistar o campeonato de pilotos pela primeira vez desde 2020, quando Hamilton venceu o seu sétimo título mundial.
Antonelli, por seu lado, já confirmou que não pretende utilizar o número 1 na próxima temporada, optando por manter o número 12. É um detalhe simbólico, mas que traduz a intenção de preservar a identidade com que chegou à Fórmula 1, apesar de passar a ser o “piloto a bater”.
No final da corrida mexicana, o italiano revelou ainda que mal conseguia ver a pista durante a última volta, devido às lágrimas. Quando cruzou a meta, recordou o percurso iniciado no karting e a família que o acompanhou desde o início: “Já estava a chorar. Não conseguia ver bem à minha frente. Consegui ver dois Ferraris, apesar das lágrimas, por isso foi muito especial. Muitas memórias passaram-me pela cabeça naquele momento, todas as memórias desde o karting até aqui. Foi uma última volta muito especial e, sem dúvida, quando cruzei a linha de chegada, deixei-me levar pelas emoções, porque estava a realizar um dos meus maiores sonhos. Foi muito especial”.

No pódio, partilhou o momento com Hamilton e Verstappen, dois dos maiores nomes da geração anterior. Disse que iria emoldurar a fotografia em que os dois campeões o levantam aos ombros para a colocar numa parede de sua casa: “Vou, sem dúvida, emoldurar a fotografia e colocá-la em minha casa, porque é simplesmente um momento incrível”, afirmou o piloto da Mercedes. “Além disso, ver tanto respeito por parte de dois pilotos incríveis que fizeram história neste desporto é verdadeiramente especial. É um momento que ficará gravado [na minha memória] e que será sempre lembrado. Vou, sem dúvida, emoldurar a fotografia e colocá-la na parede da minha casa, para a poder ver muito bem sempre que entrar.”
A imagem é simbólica: o jovem que recebeu de Hamilton um dos lugares mais importantes da Fórmula 1 acaba de conquistar o título que o britânico já venceu sete vezes. E, com apenas 20 anos, começa agora a construir uma carreira que poderá ter uma dimensão desportiva e financeira muito superior àquela que a Mercedes antecipava quando o recrutou, ainda adolescente.





