Quando a seleção espanhola chegou a Inglaterra para disputar o Euro 2022, o histórico da equipa em competições internacionais não era o mais favorável. O que não impediu ninguém de juntar as palavras “Espanha” e “favoritismo” em várias frases. O futebol feminino espanhol vivia um claro momento de mudança e crescimento. A nível de clubes tinham acabado de terminar a primeira época com uma liga profissional no país (Liga F) e em jogos da seleção vinham de uma série de vitórias que contava já com 23 jogos.
Mas esta equipa tinha mais ainda. O plantel contava com um leque de estrelas que hoje já não são estranhas a nenhum adepto da modalidade, seja ela no feminino ou masculino. Incluindo Alexia Putellas. Ou “La Reina”, como é conhecida no mundo do futebol.
Quando chegou a Inglaterra, em 2022, Alexia levava consigo o título de melhor jogadora do mundo. E é por isso que poucos esquecem o dia 5 de julho do mesmo ano, quando começaram a sair as notícias de que a estrela do Barcelona, na altura, teria sofrido uma lesão na véspera do início do Euro. Entre as primeiras notícias e as imagens de uma Alexia bastante desolada a assistir nas bancadas, com as suas muletas, enquanto a Espanha iniciava o seu verão com uma vitória por 4-1 sobre a Finlândia, confirmou-se o diagnostico mais temido: uma rotura do ligamento cruzado anterior do joelho esquerdo.

Alexia ficou fora do Euro 2022 e iniciou um longo processo de recuperação. Mas porque Alexia é Alexia, um dos grandes nomes responsáveis pelo momento positivo que o futebol feminino vive hoje em dia, este caminho só terminou em Londres, esta semana, com a sua terceira Bola de Ouro nas mãos.
“Sou consciente de que se hoje e durante a temporada passada voltei a disfrutar [do futebol] como o fiz, foi graças a vocês. Recordo-me dos momentos em que a perna me falhava, em que tinha dores depois da operação ao joelho, quando aprendi a andar novamente, a rematar, a correr. Quando mais dúvidas tinha, vocês estavam lá. A recuperar-me fisicamente e, sobretudo, mentalmente”, mencionou no seu discurso de agradecimento à família, amigas e equipa fora dos relvados, referindo-se ao processo de recuperação que viveu nos últimos anos.
Primeira paragem: Bilbao
A lesão antes do Euro 2022 não foi o único momento de dificuldade. Depois dessa, e falamos de uma altura em que a jogadora vivia um momento tão positivo que lhe garantiria a sua segunda Bola de Ouro, seguiram-se dois anos complicados.
Alexia começou por estar afastada dos relvados durante 10 meses. E ninguém regressa de um processo destes pronto para voltar a dar 100%, como foi possível ver nos seus primeiros jogos após a lesão. Logo em seguida, vieram mais lesões. A determinado momento foi submetida a uma operação ao menisco. Aqui já falamos da época 2023/24, marcada por mais uma ausência de quatro meses.
Esta foi a realidade da “reina” até que um momento em Bilbao mudou tudo.
A final da Liga dos Campeões feminina em 2024, colocou frente a frente o Barcelona e o Lyon. A equipa catalã venceu por 2-0. Alexia saiu do banco para marcar o segundo golo. Um resultado histórico para o clube espanhol, mas também um lembrete para quem até ali se tinha esquecido daquilo que Putellas é capaz.

“Fisicamente, podes estar em boa forma, mas se mentalmente não estiveres presente, se estiveres tensa, não consegues controlar-te como antes”, explicou numa entrevista ao The Guardian. “Não foi tanto que eu tenha saído do campo naquele dia a pensar: ‘Eu consigo fazer isto’, mas sim: ‘Chegou a hora’. O ligamento cruzado, o menisco, toda a lesão… fechaste esse ciclo. Acabou. Senti-me livre. E, a partir daí, tenho-me sentido super bem”.
Sucesso comprovado
Olhando para os números que a levaram à conquista da terceira Bola de Ouro, não há como negar que este ano o troféu só poderia ser dela.
A espanhola marcou 21 golos e fez 13 assistências em todas as competições, ficando em terceiro e segundo lugar, respetivamente, entre as jogadoras das cinco principais ligas europeias. Sete desses golos foram marcados na Liga dos Campeões Feminina, que terminou com a conquista do quarto título da história do Barcelona na competição.
Em todas as competições, criou mais oportunidades (89) e completou mais passes que terminaram no último terço do campo (965) do que qualquer outra jogadora da Liga F, da Liga dos Campeões, da Taça da Rainha e da Supertaça de Espanha.
Pelo caminho, ainda teve que se mostrar presente na hora de preencher a lacuna deixada pela ausências de grandes nomes do Barcelona. Aitana Bonmati, vencedora das últimas três Bolas de Ouro, esteve cinco meses afastada devido a uma fratura na perna, enquanto Patri Guijarro esteve três meses de fora.
Le Reina
Muitos dirão que o regresso de Alexia Putellas começou em Bilbao, mas a verdade é que essa foi apenas uma das partes do processo. O caminho para o regresso começou logo após a lesão, em 2022, muitas vezes longe do olhar de qualquer adepto. Em todas as horas de trabalho que colocou para regressar ao maior palco do desporto mundial.

Na passada segunda-feira, em Londres, Alexia subiu ao palco para receber a sua terceira Bola de Ouro – um recorde que partilha com Aitana Bonmati – e mais uma vez deixou à vista de todos o motivo pela qual a chamam a rainha do futebol feminino.
“A todos os rapazes e raparigas do mundo: se gostam de futebol e se querem jogar futebol, joguem futebol. Não importa se são rapazes ou raparigas. Não importa de onde vêm. Não ouçam quem vos disser que não são capazes. Acreditem em vocês próprios”, disse, para todo o mundo ouvir.





