É profundamente injusto.
É injusto exigir tanto sem reconhecer o peso. É injusto normalizar a sobrecarga como se fosse capacidade. É injusto romantizar o sacrifício como se fosse virtude. É injusto esperar perfeição constante de seres humanos que, como quaisquer outros, também se cansam, falham, duvidam e precisam de apoio.
As mulheres têm sido empurradas para um molde rígido e sufocante, como se fossem peças decorativas colocadas numa montra. Espera-se que sejam sempre bonitas, cuidadas, impecáveis, como se a sua aparência fosse a sua principal função. Mas não fica por aí. Também lhes é exigido que mantenham viva a chama do amor, como se a responsabilidade emocional das relações recaísse quase exclusivamente sobre elas.
Ao mesmo tempo, espera-se que sejam excelentes profissionais: competentes, produtivas, ambiciosas, sempre disponíveis e resilientes, capazes de dar resposta a tudo no trabalho sem deixar transparecer fragilidade. Muitas vezes têm de provar constantemente o seu valor, trabalhar mais para serem levadas a sério, equilibrar expectativas contraditórias como serem firmes, mas não “demasiado”; confiantes, mas não “arrogantes”.
E, paralelamente, devem ser mães dedicadas, presentes, pacientes; amigas disponíveis, compreensivas, sempre prontas a ouvir e a apoiar; filhas atentas, a cuidar dos pais; parceiras equilibradas e prontas para qualquer tipo de apoio. Devem saber cuidar dos outros, antecipar necessidades, gerir emoções, as suas e as dos que as rodeiam, como se fosse uma obrigação natural e inesgotável.
Mas, ao mesmo tempo, também lhes é exigido que saibam liderar-se sozinhas, tomar decisões certas, construir uma vida sólida, independente e bem-sucedida. Que sejam fortes, autónomas, emocionalmente equilibradas, capazes de “dar conta de tudo” sem depender de ninguém, como se pedir ajuda fosse sinal de fraqueza. É-lhes pedido que sejam tudo isto em simultâneo: disponíveis para os outros, mas completamente auto-suficientes; cuidadoras, mas também líderes de si mesmas e da sua própria vida.
Tudo isto com a expectativa irreal de que o façam com leveza, sem mostrar cansaço, sem “desalinharem”, como se não lhes fosse permitido errar, falhar ou simplesmente parar. Como se não lhes fosse permitido ocupar espaço com as suas próprias necessidades.
Esta injustiça não é apenas individual, é estrutural. Está enraizada nas expectativas sociais que distribuem responsabilidades de forma desigual e silenciosa, fazendo com que muitas mulheres carreguem, todos os dias, um peso invisível. Um peso que não aparece nos currículos, nem nas conversas superficiais, mas que se sente no corpo, no cansaço acumulado, na culpa constante de nunca ser “suficiente” em todas as áreas.
Falar sobre isto não é exagero nem vitimização, é lucidez. É dar nome a uma realidade que durante muito tempo foi aceite sem questionamento, incluindo pelas próprias mulheres. E só quando se reconhece a injustiça é que se abre caminho para a mudança: para relações mais equilibradas, para uma divisão mais justa das responsabilidades, e para que as mulheres possam, finalmente, existir sem a obrigação de serem tudo para todos, o tempo todo.
Porque não é fraqueza recusar este peso. É, na verdade, um ato de coragem.
Maria Duarte Bello,
CEO da MDB-Coaching e Gestão de Imagem, PhD Lecturer, expert na Marca Pessoal, Trainer em Public Speaking e Media Training





