Há mais de quinhentos anos, Portugal compreendeu uma verdade estratégica que continua a moldar o século XXI: o poder global não depende apenas da extensão do território, mas também do controlo das ligações que unem economias, sociedades e civilizações. Quando Afonso de Albuquerque definiu a estratégia portuguesa no Oceano Índico no início do século XVI, estava a aplicar uma visão que ultrapassava claramente o seu tempo. Enquanto muitas potências europeias ainda pensavam sobretudo em termos de conquista territorial e domínio terrestre, os portugueses perceberam que controlar os fluxos que ligavam o mundo poderia ser mais determinante do que ocupar vastas extensões de terra.
Ao focar-se em pontos estratégicos como o Estreito de Ormuz e o Estreito de Malaca, Albuquerque demonstrou uma compreensão notável da geopolítica. Estes locais não eram apenas posições militares. Eram centros de circulação de riqueza, informação e influência. Controlá-los significava influenciar redes comerciais inteiras, desde a Ásia até à Europa.
Um exemplo notável ao observarmos o caso de Ormuz. Os portugueses construíram o Forte de Nossa Senhora da Conceição, uma fortificação imponente que simbolizava o domínio sobre uma das rotas mais importantes do mundo. A partir deste ponto, passaram a controlar a entrada e saída de mercadorias no Golfo Pérsico através da cobrança de taxas e da imposição de regras à navegação. Era o exemplo de como um único ponto estratégico podia substituir a necessidade de vastos territórios. Na linguagem geopolítica contemporânea, isto corresponde ao controlo de choke points, também conhecidos como pontos de estrangulamento, cuja importância económica, militar e política ultrapassa largamente a sua dimensão geográfica.
No entanto, este domínio não perdurou. Em 1622, Portugal perdeu Ormuz para uma aliança entre as forças persas, sob o poder do xá Abbas I e a Companhia Inglesa das Índias Orientais. A própria lógica que tinha dado vantagem a Portugal expôs também as suas fragilidades. Controlar pontos-chave exigia presença contínua e capacidade de resposta rápida. Quando essa presença enfraqueceu, os mesmos pontos tornaram-se vulneráveis.
Mas estas ligações não se restringiram apenas ao transporte de riquezas. As rotas comerciais possibilitaram também a circulação de pessoas, animais, plantas e até doenças. A mesma infraestrutura que acelerava o comércio podia igualmente acelerar a propagação de riscos sanitários. Estes pontos estratégicos tornaram-se, assim, espaços de contacto intenso entre populações, funcionando simultaneamente como centros de comércio, de intercâmbio cultural, de transmissão de doenças, mas também de circulação de conhecimentos médicos, substâncias terapêuticas e práticas de saúde entre diferentes culturas.
É precisamente neste contexto que uma leitura contemporânea à luz da abordagem One Health ganha particular relevância, ao evidenciar a interdependência entre saúde humana, animal e ambiental. Ainda que não formulada nesses termos à época, esta interligação estava já presente nas dinâmicas comerciais, onde a mobilidade e a saúde se cruzavam de forma estrutural.
Hoje, o mundo continua estruturado em torno de pontos críticos de ligação global. Estes espaços concentram fluxos económicos, logísticos e humanos, sendo simultaneamente fontes de prosperidade e de vulnerabilidade. A instabilidade em corredores como o Mar Vermelho, o Canal do Suez e o Estreito de Ormuz mostra como a interrupção ou ameaça sobre um número reduzido de pontos críticos pode repercutir-se nas cadeias de abastecimento, nos mercados energéticos, nos custos de transporte e na segurança internacional.
Também no campo da saúde esta interdependência é evidente. A pandemia de COVID-19 demonstrou como a mobilidade global e os grandes centros de circulação podem acelerar a disseminação de riscos sanitários. Mostrou igualmente a vulnerabilidade das cadeias de abastecimento de medicamentos, equipamentos de proteção e outros bens essenciais, tornando evidente que saúde, economia, logística e segurança são dimensões inseparáveis. Esta realidade reforça a importância de abordagens integradas, como One Health, na prevenção e gestão de fenómenos complexos que atravessam fronteiras e setores.
A ação de Afonso de Albuquerque ilustra uma notável capacidade de antecipação num mundo em constante transformação, mas deve ser interpretada à luz do contexto histórico em que ocorreu. O seu interesse para o presente não reside em reproduzir as soluções do passado, mas em reconhecer a lógica estrutural que lhes estava subjacente.
Cinco séculos depois, mudaram as tecnologias, os protagonistas e as ameaças, mas a centralidade das ligações permanece. As redes globais transportam riqueza, energia, alimentos, conhecimento, informação e também riscos sanitários. Quem controla os seus principais centros adquire influência; quem deles depende sem capacidade de resposta torna-se vulnerável. Estudar estas ligações deixou, por isso, de ser apenas um exercício de interpretação histórica. É uma condição para governar com maior inteligência, proteger a saúde e construir sociedades mais resilientes num mundo profundamente interdependente.
José João Mendes (Prof. Dr.),
presidente da Direção da Egas Moniz School of Health & Science, instituição de ensino superior com sede e campus na Caparica (Almada) e unidade especializada em Sesimbra.





