Opinião

A IA chegou às empresas portuguesas. A transformação, ainda não

Hugo de Sousa

Durante anos, a transformação digital foi apresentada como uma mudança profunda na forma de trabalhar, decidir e criar valor. Nas empresas portuguesas, essa promessa traduziu-se em investimento, novas ferramentas e sucessivos projetos tecnológicos. Ainda assim, em muitos casos, a mudança ficou à superfície. Alteraram-se os suportes, mas não os processos, a lógica de decisão ou a organização do trabalho.

Na altura, o investimento foi enorme. Houve conferências, novos departamentos, plataformas e migrações para a cloud. Mas, em demasiadas organizações, o que aconteceu não foi transformação, foi digitalização. O papel tornou-se PDF, a assinatura tornou-se eletrónica e o formulário passou para um portal. O processo, porém, manteve-se exatamente o mesmo.

Com a IA, o padrão repete-se. Uma empresa acredita que está a adotar a IA porque os colaboradores fizeram uma formação de prompting, porque existem licenças de ChatGPT ou Copilot, ou porque alguém construiu um chatbot interno. Isto não é transformação. É consumo individual de tecnologia. Continuamos a ensinar pessoas a conversar com modelos de linguagem, quando deveríamos redesenhar a forma como a organização trabalha.

O verdadeiro potencial da IA só aparece quando esta deixa de estar na interface e passa a viver dentro do processo. Não é pedir ao comercial que pergunte a um modelo como responder a um cliente. É fazer com que o próprio CRM prepare essa resposta, identifique oportunidades e sugira a próxima ação. Não é abrir cinco janelas para resumir um contrato, é fazer com que o processo de contratação entregue, sozinho, riscos, exceções e uma proposta de decisão. A diferença não é subtil. Numa situação, a pessoa continua a fazer o trabalho manual com um assistente ao lado. Na outra, o trabalho já chega feito.

Os números confirmam o atraso. Segundo dados do Eurostat divulgados em dezembro de 2025, apenas 11,5% das empresas portuguesas com mais de dez trabalhadores usam tecnologias de IA, contra uma média de quase 20% na União Europeia. A distância mantém-se mesmo depois de um ano de crescimento acelerado na adoção europeia. Portugal não está apenas atrasado, está a acelerar mais devagar do que os outros.

A causa raramente é tecnológica. É de gestão. A adoção de IA continua a ser tratada como um projeto disperso por vários departamentos: o IT compra ferramentas, os recursos humanos fazem formação, o marketing experimenta um assistente. Ninguém é responsável pelo resultado final. Sem alguém claramente responsável, com orçamento e poder para redesenhar processos, a iniciativa nunca escala.

O resultado mais comum é o oposto do desejado. Cada departamento escolhe a sua ferramenta e constrói o seu pequeno assistente isolado, fechado sobre si próprio, sem partilhar dados sem processos com o resto da empresa. E a IA, aplicada sobre uma organização fragmentada, não resolve essa fragmentação. Amplifica-a.

A pergunta que as empresas portuguesas ainda não fizeram a sério não é qual o melhor modelo ou o melhor prompt. É outra: como seria esta empresa se fosse desenhada de raiz para trabalhar com IA, com processos, e não departamentos, como unidade de organização? As empresas que responderem primeiro deixarão de competir apenas com concorrentes portugueses, vão competir numa escala diferente.

A história raramente se repete da mesma forma, mas repete com frequência os mesmos erros. Portugal já sabe como é falhar uma transformação, mas tem agora a oportunidade de fazer diferente, e melhor, redefinindo os limites do possível!

Hugo de Sousa,
Founder CEO da Mars Shot

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