A Atlas, fintech fundada e liderada por Patrick Mrozowski, esteve à beira do colapso há quatro anos. Hoje, atrai clientes de elevado património, incluindo bilionários da tecnologia, dispostos a pagar 1.000 dólares (cerca de 850 euros) anuais pelo acesso ao seu cartão.
Em abril de 2022, a startup de cartões de débito Point, criada por Patrick Mrozowski em São Francisco, parecia condenada ao fracasso. A fintech, com três anos de existência, oferecia recompensas de cashback em compras do dia a dia mediante uma anuidade de 100 dólares (85 euros), mas enfrentava uma base de utilizadores pequena e em queda, ao mesmo tempo que preparava uma reformulação do produto. O cenário competitivo agravava-se com o aumento de concorrentes impulsionados pelo boom de financiamento em fintechs em 2021.
A situação piorou quando a Column, banco com seguro da FDIC (Federal Deposit Insurance Corporation) detido pelo bilionário William Hockey e responsável pela infraestrutura que permitia à Point emitir cartões, decidiu terminar a parceria, no contexto de um maior escrutínio regulatório sobre a relação entre bancos e fintechs. A decisão implicava o encerramento de todas as contas de clientes da Point.
“Perdemos todos os clientes que tínhamos”, recorda hoje o CEO de 30 anos, numa conversa num café em Greenwich Village, perto do escritório da empresa em Nova Iorque. Foi a segunda vez em menos de um ano que Mrozowski perdeu um parceiro bancário, o que obrigou a adiar indefinidamente a reformulação do produto. Em fevereiro de 2023, a Point integrou a lista da Forbes de 25 fintechs em dificuldades, sinalizando dúvidas sobre a sua sobrevivência. Mrozowski admite que evita pensar demasiado nesse período: “É quase como PTSD [Perturbação de Stress Pós-Traumático], em que partes traumáticas da memória são apagadas.”
Ainda assim, recusou desistir. Um cientista de dados da Point concluiu que 90% das transações com o cartão provinham de apenas 15% dos clientes. A análise revelou que a empresa estava a desperdiçar recursos a tentar captar e servir um público massificado com pouco valor para o negócio.
Mrozowski percebeu que poucas startups estavam focadas no segmento mais alto do mercado financeiro e que precisava de uma proposta diferente para atrair clientes ultra-ricos. Esses clientes não valorizam particularmente cashback ou pontos. “O que lhes interessa é acesso aos melhores restaurantes. Interessa-lhes o serviço. Querem tudo sem fricção e sem complicações”, afirma.
Entre o final de 2021 e o final de 2023, avançou com uma reestruturação profunda. Despediu mais de um terço da equipa, rebatizou a empresa como Atlas, garantiu uma parceria com o Lead Bank, sediado em Kansas City e liderado por Jackie Reses, e mudou-se para Nova Iorque. Após ouvir críticas aos serviços de concierge da American Express, nomeadamente dos cartões Platinum e Black (Centurion), criou um concierge baseado em mensagens de texto, permitindo aos clientes reservar viagens e restaurantes.
Em agosto de 2023, relançou a Atlas como um cartão de crédito premium com uma anuidade de 999 dólares (847 euros). O cartão, em aço polido com acabamento espelhado, pesa 21 gramas, cerca de quatro vezes mais do que um cartão de plástico convencional. Foi lançado em regime “apenas por convite” e promovido como “Your key to the world”.

Atualmente, os cerca de 2.000 clientes da Atlas utilizam o serviço de concierge para reservar jatos privados, hotéis nas ilhas Turks e Caicos e refeições em restaurantes de referência em Nova Iorque, como The Corner Store e Torrisi. A empresária bilionária Lucy Guo afirma utilizar mais a Atlas do que qualquer outro cartão de crédito, com gastos mensais que podem atingir 2 milhões de dólares (1,6 milhões de euros). O antigo CEO da Google, Eric Schmidt, também já foi cliente e é investidor da empresa, embora um porta-voz tenha recusado comentar.
Apesar de entrar num segmento altamente competitivo, dominado por gigantes como a American Express e o JPMorgan Chase, a Atlas tem registado crescimento acelerado. A receita bruta anualizada ultrapassa os 20 milhões de dólares (17M€) e a empresa concluiu recentemente uma ronda de financiamento Série C no valor de 40 milhões de dólares (34M€), atingindo uma avaliação de 420 milhões de dólares (356M€). O investimento foi liderado por Elad Gil e pela Verified Capital, com participação da Marathon e da 01 Advisors, de Dick Costolo.
“Ninguém nos diz quanto tempo demora até uma empresa começar realmente a funcionar. É sempre muito mais do que esperamos.”
“[Mrozowski] bateu com a cabeça na parede durante cinco anos na Point”, afirma Michael Gilroy, da Marathon. O investidor admite ter ficado surpreendido com a energia do fundador quando iniciaram conversas em 2024. Mrozowski acrescenta: “Ninguém nos diz quanto tempo demora até uma empresa começar realmente a funcionar. É sempre muito mais do que esperamos.”
Filho de imigrantes polacos, Patrick Mrozowski cresceu em Santa Cruz, na Califórnia, com o irmão gémeo Martin. O pai geriu vários pequenos negócios, incluindo a produção de conteúdos em CD-ROM e DVD e a aquisição de direitos de distribuição de filmes polacos, posteriormente vendidos à Netflix. A mãe era enfermeira.
Patrick descreve o irmão, atualmente a lançar uma startup de viagens com inteligência artificial chamada Miso, como mais alto e popular: “Sentia-me como o underdog.”
Admirador de empreendedores tecnológicos desde jovem, foi aceite na Universidade da Califórnia em Santa Cruz, mas optou por não frequentar o ensino superior. Em 2016, aos 19 anos, lançou a fintech Crumbs, uma aplicação de investimento que convertia trocos em bitcoin. Dois anos depois, foi adquirida pela startup de criptomoedas Metal por menos de 3 milhões de dólares (2,5M€), segundo Mrozowski. Em 2019, fundou a Point com Kenan Pulak e Sid Parihar, captando 47 milhões de dólares (40M€) e atingindo uma avaliação de 275 milhões de dólares (233M€) em setembro de 2021, no auge da bolha fintech. Nos três anos seguintes, a empresa consumiu capital com receitas reduzidas.
A transformação da Point em Atlas tornou-se também um exercício de serviço personalizado. Mrozowski realizou mais de 1.000 chamadas de integração com novos clientes para compreender preferências e explicar o funcionamento da plataforma. A Atlas recorre a modelos de inteligência artificial da OpenAI e da Google para resumir pedidos, redigir respostas, construir perfis de clientes e fazer recomendações personalizadas. A empresa conta com 40 funcionários a tempo inteiro e uma equipa de concierge com 20 colaboradores externos na Europa e nos EUA.
Para garantir reservas em restaurantes concorridos, Mrozowski informa os estabelecimentos de que os utilizadores da Atlas são grandes consumidores. Em alguns casos, a empresa paga para assegurar acesso a mesas. O modelo de negócio inclui também comissões de hotéis e companhias aéreas pelas reservas efetuadas. Mediante uma taxa adicional de 500 dólares (424 euros), os clientes podem obter múltiplos cartões com limites predefinidos para familiares ou colaboradores domésticos.
Segundo a Atlas, 80% dos clientes mantêm-se após um ano e 70% após dois anos. Lucy Guo admite que inicialmente duvidou do valor da proposta, uma vez que a Atlas oferece menos pontos ou recompensas do que outros cartões, como o exclusivo JPMorgan Reserve, que, segundo relatos, exige ativos mínimos de 10 milhões de dólares (8,5M€) no banco privado do JPMorgan. Ainda assim, o serviço de concierge acabou por justificar o custo anual, que substitui a exigência de elevados ativos sob gestão.
Apesar do crescimento, a Atlas continua longe de atingir o ponto de equilíbrio ou de construir um negócio sustentável. Os benefícios disponíveis para milhões de clientes da American Express Platinum e Centurion, incluindo lounges de aeroporto e créditos em retalhistas como a Lululemon ou a Saks, superam largamente a oferta atual da Atlas. Mrozowski não tenta competir diretamente com os programas de recompensas desses operadores, concentrando-se antes no serviço de concierge.
O futuro da Atlas permanece incerto. O fundador aponta como público-alvo clientes dos cartões Centurion da American Express e Reserve do JPMorgan, com gastos anuais superiores a 500.000 dólares (424 mil euros). Ainda assim, se conseguir atrair apenas 10.000 utilizadores com esse nível de despesa, poderá gerar 100 milhões de dólares (85M€ euros) em receitas brutas apenas com comissões de 2%.
Texto original aqui. Artigo traduzido e editado por Paulo Marmé.





