“Ausência de um registo unificado de dados de veículos na UE cria uma zona cinzenta” que prejudica condutores

À medida que os condutores portugueses recorrem cada vez mais a carros usados importados, os especialistas alertam para o aumento do risco associado a estes veículos. Na ausência de partilha de dados entre países e com muitos registos de danos a não serem sequer digitalizados, um carro importado chega praticamente com a "ficha limpa" ao…
ebenhack/AP
Segundo a empresa de dados automóveis carVertical, a ausência de um registo unificado de dados de veículos na UE leva a que os condutores não tenham forma de conhecer alterações na quilometragem, acidentes passados ou mudanças de propriedade dos veículos que desejam comprar. "Estes dados ficam bloqueados em bases de dados nacionais, prejudicando os compradores de carros usados de toda a Europa”, salientam estes analistas.
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À medida que os condutores portugueses recorrem cada vez mais a carros usados importados, os especialistas alertam para o aumento do risco associado a estes veículos. Na ausência de partilha de dados entre países e com muitos registos de danos a não serem sequer digitalizados, um carro importado chega praticamente com a “ficha limpa” ao mercado nacional.

Segundo a empresa de dados automóveis carVertical, nalguns mercados a proporção de carros importados com histórico de danos pode ser até três vezes superior à dos veículos usados locais.

De todos os carros verificados pelos clientes da carVertical em Portugal entre janeiro de 2025 e março de 2026, 55,4% dos veículos importados apresentavam um registo de danos, face a 25,3% dos carros usados no próprio país: “Isto revela que os carros importados têm 2,2 vezes mais probabilidades de ter um registo de danos do que os veículos locais. Estes números reforçam uma tendência já identificada pela carVertical em estudos sobre fraude no conta‑quilómetros: os veículos importados são duas a cinco vezes mais propensos a terem a quilometragem adulterada do que os carros nacionais, o que faz aumentar o risco das transações transfronteiriças”, consideram estes especialistas.

Fonte: carVertical (https://www.carvertical.com/en/blog/hidden-damage-in-imported-cars)

A carVertical também realizou um inquérito a 14 mil condutores em toda a Europa, que revelou que um veículo com histórico limpo é mais importante para os compradores do que um preço baixo: 75,6% dos compradores disseram que prefeririam um carro sem histórico de danos, enquanto apenas 9,6% classificaram o preço como o critério mais importante.

“Os países têm leis de proteção de dados diferentes. Ao não existir um sistema unificado que garanta que o histórico de um carro importado esteja acessível a todos os condutores, a qualidade dos veículos usados sofre. Ao importar um carro para outro país, o histórico do veículo é muitas vezes reiniciado: os defeitos são ocultados e a quilometragem é adulterada”, afirma Matas Buzelis, especialista em mercado automóvel da carVertical, empresa especializada em relatórios históricos de veículos que opera em 37 países da Europa, bem como nos EUA, México e Austrália.

Mais de metade de todos os carros verificados pela carVertical em Portugal (56,5%) provinham do estrangeiro, uma fatia significativa, mas semelhante à de mercados vizinhos como Espanha (56,6%): “A forte dependência dos veículos importados indica que o risco de comprar um carro com danos em Portugal é bastante elevado. Os carros danificados no estrangeiro são frequentemente reparados com peças baratas e não originais. Um veículo que tenha sofrido danos estruturais também poderá não oferecer segurança durante a condução. Seduzidos por um aspeto impecável e um preço baixo, muitos compradores acabam por não fazer uma verificação adequada do veículo, descobrindo mais tarde que foram enganados”, comenta esta empresa.

“Os carros importados são sempre uma compra mais arriscada. Particulares e empresas envolvidos no comércio automóvel compram frequentemente veículos sinistrados e reparam-nos da forma mais barata possível para os voltar a vender. A alta proporção de danos entre veículos importados significa que o risco de adquirir um carro com defeito está longe de ser negligenciável”, afirma Buzelis.

Mais de 60% dos condutores não comprariam um carro que tivesse sofrido um acidente grave

De acordo com estes analistas, “a ausência de um registo unificado de dados de veículos na UE cria uma zona cinzenta. Os condutores não têm forma de conhecer alterações na quilometragem, acidentes passados ou mudanças de propriedade dos veículos que desejam comprar. Estes dados ficam bloqueados em bases de dados nacionais, prejudicando os compradores de carros usados de toda a Europa”.

O estudo da carVertical revela que 60,7% dos condutores não compraria um carro que tivesse sofrido um acidente grave, mesmo que tivesse um aspeto perfeito. Por outro lado, 63,9% disseram estar dispostos a pagar mais por um carro se pudessem ter a certeza de que nunca sofreu um acidente. “Isto revela que, na sua maioria, os condutores compreendem os riscos de comprar um veículo que tenha sofrido danos prévios e não estão inclinados a ignorá-los”, salienta a carVertical..

Embora os condutores tendam a desvalorizar pequenos danos estéticos, 86,7% dos inquiridos afirmaram que a gravidade dos danos anteriores é extremamente importante: “A ironia disso é que, embora os consumidores exijam mais transparência, a atual leitura do RGPD cria obstáculos para as empresas que a tentam disponibilizar. Definições vagas de interesse legítimo obrigam as empresas a passar por um dispendioso labirinto legal, país a país, para provar que o tratamento de dados é legítimo. Um acesso mais aberto a dados técnicos despersonalizados sobre os veículos europeus eliminaria estas barreiras, fomentaria a inovação e daria aos consumidores a proteção que claramente exigem”, explica Buzelis.

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