Opinião

A falta de poupança empobrece o futuro

Carlos Brito

Portugal enfrenta um duplo problema: muitas famílias não conseguem poupar e uma parte das que conseguem nem sempre rentabiliza adequadamente o seu dinheiro. No primeiro caso, os baixos rendimentos e o peso das despesas essenciais deixam pouca margem para o aforro. No segundo, a preferência por aplicações pouco remuneradas compromete a valorização do património. Entre a dificuldade de reservar dinheiro e a inaptidão para o investir, perde-se segurança financeira e desperdiçam-se oportunidades de gerar riqueza.

Os números revelam a dimensão do desafio. A taxa de poupança das famílias portuguesas ronda os 12% do rendimento disponível, um valor bem abaixo do registado em países como a Irlanda ou a Alemanha com índices de aforro de cerca de 20%. Apesar da recuperação registada nos últimos anos, Portugal continua a ser um dos países da União Europeia com menor taxa de poupança.

As consequências deste facto ultrapassam as contas das famílias. A questão é que a insuficiência de poupança interna limita a capacidade de financiar o desenvolvimento económico, tornando o país mais dependente de recursos externos. O problema deixa, assim, de ser apenas quanto dinheiro cada português consegue guardar, passando a ser como financiamos a economia que queremos ter.

Qualquer investimento exige financiamento. Modernizar uma fábrica, desenvolver tecnologias, melhorar a eficiência energética ou conquistar mercados internacionais implica mobilizar hoje recursos para obter resultados amanhã. A poupança das famílias, das empresas e do Estado constitui uma fonte desse financiamento. Quando é insuficiente, o investimento fica mais condicionado, passando a depender em maior escala do capital estrangeiro.

O financiamento externo pode até ser útil, aportando conhecimento, tecnologia e acesso a mercados. Contudo, depender excessivamente dele aumenta a exposição às decisões de investidores internacionais e às alterações das condições de mercado. Acresce que parte dos rendimentos gerados pelo investimento terá sempre de remunerar quem o financiou no exterior. O que significa que uma economia com maior capacidade de financiamento interno consegue reter uma parcela maior dos frutos do seu crescimento.

Para Portugal, esta questão é especialmente relevante uma vez que é crucial que aumente a produtividade. Sem investimento em equipamentos, organização e qualificação, as empresas terão dificuldade em produzir mais valor por trabalhador. E sem maior produtividade, torna-se mais difícil aumentar os salários de forma sustentada. Desta forma, o país tende a ficar preso num círculo vicioso: os rendimentos baixos dificultam a poupança, a escassez de financiamento condiciona o investimento e o investimento insuficiente perpetua rendimentos baixos.

Contudo, será errado concluir que basta convencer as famílias a consumir menos, até porque muitas não o conseguem fazer dado o seu baixo nível de rendimento. Se, por hipótese, todas as famílias reduzissem abruptamente as despesas, as empresas venderiam menos, o que as levaria a ter de adiar investimentos. Isto significa que a solução passa muito por assegurar que os recursos disponíveis encontram projetos produtivos geradores de riqueza futura. E, como é óbvio, exige também um Estado que avalie a qualidade da sua despesa porque a solução não está apenas do lado das famílias e das empresas.

Importa igualmente evitar outro equívoco: dinheiro depositado num banco não está necessariamente parado na economia, uma vez que pode financiar crédito. A questão é saber se o sistema financeiro transforma essa poupança em investimento produtivo e se existem alternativas acessíveis para reforçar o capital das empresas. Uma economia não se moderniza apenas com mais dívida – precisa também de capital disposto a assumir riscos e esperar por resultados.

Por tudo isto, Portugal necessita de ligar a política de rendimentos à política de investimento, melhorar a literacia financeira, gerir melhor os dinheiros públicos e oferecer estabilidade e confiança a quem investe. Poupar mais é importante, mas transformar melhor a poupança é decisivo. Quando essa ligação falha, não se perde apenas rendimento no presente – compromete-se a competitividade da economia, a criação de riqueza, o nível dos salários e a prosperidade das próximas gerações.

Carlos Brito,
Presidente da Ordem dos Economistas – Norte

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