Após a vitória das eleições intercalares nos EUA desta terça-feira, os legisladores do partido Democrata terão agora poder para conduzir investigações e obrigar legalmente as empresas a responder aos seus pedidos de esclareciments. Passam a poder emitir intimações, convocar audições e tomar outras medidas.
Os legisladores já sinalizaram a intenção de colocar algumas das empresas mais valiosas do mundo sob escrutínio. A Bloomberg noticiou que empresas como a Amazon e a Nvidia já tinham recebido cartas de inquérito antes mesmo das eleições. Em fevereiro, o deputado Robert Garcia, democrata da Califórnia e futuro presidente da Comissão de Supervisão da Câmara dos Representantes, disse ao Semafor que o seu gabinete já tinha começado a contactar empresas.
Notícias publicadas antes das eleições intercalares indicam que várias empresas começaram a preparar-se para a possibilidade de serem alvo de escrutínio parlamentar, tomando medidas para conquistar a simpatia de políticos democratas e criando equipas internas de resposta, segundo o Wall Street Journal.
As empresas com ligações ao Presidente Donald Trump e à sua administração deverão estar entre os principais alvos.
As empresas com ligações ao Presidente Donald Trump e à sua administração deverão estar entre os principais alvos. Incluem-se negócios em que Trump e a sua família estão diretamente envolvidos, bem como empresas que manifestaram publicamente o seu apoio ao Presidente, nomeadamente através de donativos para o projeto de construção de um salão de baile na Casa Branca.
Garcia disse ao Semafor, em fevereiro, que também existem “oportunidades” para investigar “empresas que não estão a apoiar as famílias americanas e que não estão verdadeiramente concentradas na acessibilidade dos preços”. Analistas da Morningstar especularam que as investigações poderão abranger também empresas petrolíferas, devido aos elevados preços dos combustíveis, ou farmacêuticas que chegaram a acordos com a administração Trump sobre os preços dos medicamentos.
As grandes empresas de inteligência artificial e tecnologia deverão igualmente estar entre os principais alvos do Congresso. Na terça-feira à noite, o senador Ed Markey, democrata do Massachusetts, respondeu a uma publicação sobre os “executivos das grandes tecnológicas” escrevendo: “Vão precisar de plantar novas florestas para produzir todo o papel necessário às intimações que vamos imprimir”.
“Estou a avisar os grupos de interesses especiais que trabalharam lado a lado com Trump para prejudicar as famílias americanas ao longo do último ano e meio”, afirmou o senador Ron Wyden, democrata do Oregon e futuro presidente da Comissão de Finanças do Senado, numa declaração divulgada na manhã de quarta-feira.
O que esperar?
Continua por esclarecer que medidas concretas irão os Democratas tomar e quanto tempo poderá passar até ao lançamento das primeiras investigações.
Questionado sobre a possibilidade de os Democratas na Câmara dos Representantes investigarem empresas, o deputado Hakeem Jeffries, democrata de Nova Iorque e provável próximo presidente da Câmara, limitou-se a dizer à CNBC, na quarta-feira, que o partido irá “ter essas conversas nas próximas semanas”. Já o senador Chuck Schumer, democrata de Nova Iorque e provável próximo líder da maioria no Senado, disse ao mesmo canal: “É preciso ir atrás da corrupção”.
Garcia deixou uma mensagem igualmente vaga, mas ameaçadora, na noite de terça-feira, dirigida às potenciais empresas visadas: “Contratem advogados”.
Quem poderá ser alvo: empresas com ligações a Trump
As empresas com ligações a Trump são as que mais provavelmente poderão enfrentar um escrutínio imediato. Entre elas estão negócios em que o Presidente e os seus filhos desempenham funções, como a plataforma de mercados de previsão Kalshi, onde Donald Trump Jr. é consultor, e empresas que receberam investimentos da sociedade de capital de risco 1789 Capital, de Trump Jr.
As empresas que ajudaram a concretizar a iniciativa “DOGE” de Elon Musk também poderão ser alvo de escrutínio, noticia o Washington Post.
As grandes empresas que contribuíram financeiramente para o projeto do salão de baile de Trump deverão ser questionadas sobre os seus donativos e a relação com a administração presidencial. Segundo a Bloomberg, Amazon, Apple, Comcast, Meta, Microsoft e Nvidia receberam cartas antes das eleições intercalares com perguntas sobre as contribuições.
O Washington Post noticiou na segunda-feira que as empresas também poderão acabar envolvidas em investigações parlamentares centradas mais diretamente em Trump. Do ponto de vista logístico, poderá ser mais fácil para os legisladores intimar empresas e exigir-lhes comunicações e documentos relacionados com o Governo do que obter esses mesmos elementos junto da Casa Branca.
O advogado Joel Green disse ao Washington Post que um Congresso controlado pelos Democratas irá concentrar-se imediatamente “nas empresas privadas e corporações que tiveram relações com o Presidente Trump e com as agências do poder executivo”. Michael Edney, antigo responsável do Departamento de Justiça, descreveu as empresas como um “flanco mais vulnerável” para obter comunicações governamentais, uma vez que, muitas vezes, “as empresas privadas ou os indivíduos poderão sentir-se mais abalados por inquéritos do Congresso do que o próprio poder executivo”.
Empresas de inteligência artificial e tecnologia visadas
Gigantes da inteligência artificial e da tecnologia, como a OpenAI, a Google, a Meta e a Anthropic, deverão provavelmente enfrentar um maior escrutínio por parte do Congresso. Os Democratas têm demonstrado maior disponibilidade do que os Republicanos para regular a inteligência artificial e as grandes empresas tecnológicas, à medida que cresce o impacto destas indústrias na sociedade.
A crescente oposição da opinião pública à inteligência artificial e aos centros de dados torna também este setor um alvo particularmente apelativo para os Democratas. Cooper Teboe, estratega democrata sediado em Silicon Valley, disse ao Washington Post que, numa altura em que uma parte significativa da população vê muitos dos intervenientes do setor tecnológico como “opressores”, assumir uma posição de “responsabilização das empresas tecnológicas” seria “uma política fantástica, fantástica” para os Democratas.
Silicon Valley já começou, entretanto, a preparar-se. A Meta fez donativos a políticos democratas na fase que antecedeu as eleições intercalares, à medida que aumentavam as possibilidades de a esquerda recuperar o controlo do Congresso, noticia o Wall Street Journal.
A OpenAI também procurou conquistar o apoio dos Democratas, organizando jantares com legisladores do partido. O presidente executivo da empresa, Sam Altman, e responsáveis da Google participaram igualmente em eventos organizados por Jeffries em Washington, D.C.
Setor da saúde não deve escapar
Os Democratas já deram sinais de que poderão apontar especialmente ao setor da saúde, numa altura em que o aumento dos custos dos cuidados médicos continua a ser uma das principais preocupações dos americanos.
A Comissão de Energia e Comércio da Câmara dos Representantes pretende investigar o aumento dos custos dos seguros de saúde ao abrigo do Affordable Care Act, noticiou o jornalista Scott MacFarlane na quarta-feira. Essa investigação poderá incluir as companhias de seguros de saúde.
Os senadores democratas já começaram também a analisar questões como a possibilidade de algumas seguradoras terem colaborado com a administração Trump para retirar pessoas dos seus planos de saúde.
A relação de Trump com as empresas farmacêuticas poderá igualmente ser alvo de escrutínio. Os Democratas já tinham levantado anteriormente dúvidas sobre se os acordos celebrados entre o Governo e as farmacêuticas para definir os preços dos medicamentos eram efetivamente vantajosos para os americanos ou se tinham como objetivo “apenas enriquecer a família Trump”.
Wyden prometeu investigar interesses empresariais, incluindo “companhias de seguros que atrasam e recusam cuidados de saúde para aumentar os lucros” e “os presidentes executivos das farmacêuticas que praticam preços abusivos enquanto beneficiam de vantagens oferecidas diretamente por Trump”.
Quando assumir a presidência da comissão, Wyden afirmou que estas empresas “serão obrigadas a responder perante a Comissão de Finanças do Senado pelo seu papel em prejudicar o povo americano e permitir a corrupção de Trump”.
Quem poderá ser também alvo: empresas do setor da defesa
As empresas que fazem negócios com o Pentágono deverão estar entre os principais alvos dos Democratas, noticia o Washington Post, citando fontes anónimas que afirmam que os legisladores estão a planear investigar empresas de tecnologia de defesa, bem como empresas industriais e mineiras que trabalham com as Forças Armadas.
A Palantir, a empresa de tecnologia militar Anduril e quaisquer empresas com contratos de exclusividade com o Pentágono poderão ser alvo de escrutínio, segundo o jornal. O mesmo poderá acontecer com empresas que receberam contratos do Pentágono depois de terem obtido financiamento da 1789 Capital.
Os Democratas já pediram ao inspetor-geral do Departamento de Defesa que investigue notícias segundo as quais mais de 3 mil milhões de dólares (2,6 mil milhões de euros) em financiamento do Pentágono terão sido atribuídos a empresas com ligações aos filhos do Presidente.
A futura maioria no Congresso dará, contudo, aos Democratas muito mais margem de manobra para conduzirem diretamente uma investigação deste tipo.
Empresas de prisões privadas podem ser investigadas
As empresas que têm contratos com o Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos e que beneficiaram da política de deportações em massa da administração Trump também poderão enfrentar críticas e investigações, segundo as previsões dos analistas da Morningstar.
Entre elas estão as operadoras de prisões privadas GEO Group e CoreCivic.
O GEO Group foi um dos principais financiadores da campanha de Trump e tem sido também um importante doador do comité de ação política (Super PAC) MAGA Inc., associado ao Presidente.
A empresa já foi alvo de escrutínio por ter feito alguns desses donativos diretamente depois de receber contratos governamentais lucrativos — uma relação que os Democratas poderão agora investigar.
Posição mais dura em relação a Wall Street
Os Democratas poderão também adotar uma posição mais dura em relação a Wall Street e aos executivos do setor financeiro — sobretudo no que diz respeito a Jeffrey Epstein.
Os legisladores democratas já apresentaram anteriormente propostas legislativas que obrigariam os reguladores financeiros a investigar bancos e executivos de Wall Street que fizeram negócios com Epstein. Essas investigações poderão levar a processos criminais contra responsáveis que se venha a demonstrar terem ajudado o falecido financeiro e os alegados abusos que cometeu.
A Comissão de Supervisão da Câmara dos Representantes também prometeu colocar as ligações de Epstein a Wall Street no centro da renovada investigação sobre o caso, depois das eleições intercalares. Com a nova maioria, a comissão passará a ter poder para emitir intimações dirigidas a empresas financeiras de Wall Street e obrigar os principais banqueiros a testemunhar sob juramento.
Wyden deverá igualmente dar prioridade às ligações entre Wall Street e Epstein quando assumir a presidência da Comissão de Finanças do Senado. O senador democrata já vinha a investigar há muito tempo as finanças de Epstein e prometeu, na quarta-feira, agir contra “os bancos que ajudaram a encobrir os crimes de Epstein”.
Texto original aqui. Artigo traduzido e editado por Paulo Marmé.





