Democratas conquistam Congresso dos EUA numa derrota histórica para Trump

Os democratas conquistaram o controlo das duas câmaras do Congresso norte-americano, numa expressiva vaga eleitoral que lhes permitiu retirar aos republicanos sete lugares no Senado, incluindo alguns que o partido de Donald Trump mantinha há décadas. O resultado representa uma clara rejeição da agenda política do Presidente durante o seu segundo mandato. Os principais resultados…
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Os democratas recuperaram o controlo da Câmara dos Representantes e do Senado, numa vitória expressiva que representa um duro revés para Donald Trump e para a agenda do seu segundo mandato.
Economia

Os democratas conquistaram o controlo das duas câmaras do Congresso norte-americano, numa expressiva vaga eleitoral que lhes permitiu retirar aos republicanos sete lugares no Senado, incluindo alguns que o partido de Donald Trump mantinha há décadas. O resultado representa uma clara rejeição da agenda política do Presidente durante o seu segundo mandato.

Os principais resultados

A Associated Press (AP) atribuiu aos democratas o controlo da Câmara dos Representantes na madrugada de quarta-feira, completando a vitória nas duas câmaras do Congresso, depois de o partido ter também recuperado o Senado.

O líder da minoria democrata na Câmara dos Representantes, Hakeem Jeffries, eleito por Nova Iorque, está agora em posição de se tornar o primeiro presidente negro daquela câmara, sucedendo ao republicano Mike Johnson quando o novo Congresso iniciar funções, em janeiro. Jeffries, que lidera os democratas na Câmara desde 2023, terá ainda de ser eleito pelos membros da nova legislatura.

A AP confirmou a vitória democrata no Senado na noite de terça-feira, depois de o representante estadual Josh Turek ter derrotado a republicana Ashley Hinson no Iowa, garantindo ao partido os lugares necessários para recuperar o controlo da câmara.

No Maine, o democrata Troy Jackson derrotou a senadora republicana Susan Collins, que cumpria o seu quinto mandato. A derrota põe fim a quase 30 anos de Collins no Senado e eleva para sete o número de lugares anteriormente republicanos conquistados pelos democratas.

Na madrugada de quarta-feira, a AP atribuiu também a vitória no Michigan ao democrata Abdul El-Sayed, que derrotou o republicano Mike Rogers. El-Sayed conseguiu vencer apesar de a sua antiga adversária nas primárias democratas, a representante Haley Stevens, ter retirado o apoio à sua candidatura e anunciado o apoio a Rogers apenas dois dias antes das eleições. El-Sayed deverá tornar-se o primeiro senador muçulmano dos Estados Unidos.

Os democratas precisavam de conquistar quatro lugares líquidos para controlar o Senado. Quando foi anunciada a vitória no Michigan, tinham garantido 54 dos lugares em disputa, contra 42 dos republicanos.

O partido manteve também o lugar em aberto no Minnesota, onde a AP declarou vencedora a vice-governadora democrata Peggy Flanagan, que derrotou a republicana Michele Tafoya, antiga comentadora desportiva.

No Texas, James Talarico conseguiu virar o lugar a favor dos democratas, apesar de os republicanos terem gasto muito mais dinheiro na campanha. Foi uma das disputas mais dispendiosas deste ciclo eleitoral de meio de mandato.

No Kansas, o reverendo democrata Adam Hamilton derrotou o senador Roger Marshall, tornando-se o primeiro democrata eleito para representar aquele estado no Senado desde 1932.

No Ohio, o antigo senador democrata Sherrod Brown venceu a disputa contra Jon Husted, numa corrida considerada equilibrada e decisiva para as hipóteses republicanas de manterem o controlo do Senado.

Na Carolina do Sul, a democrata Annie Andrews protagonizou uma das vitórias mais surpreendentes da noite, ao derrotar a senadora Darline Graham, irmã do falecido senador Lindsey Graham. Darline tinha sido nomeada pelo governador republicano do estado para completar o mandato do irmão, após a sua morte, em julho, e contava com o apoio de Trump para conquistar um mandato completo.

Na Carolina do Norte, o antigo governador democrata Roy Cooper derrotou Michael Whatley, antigo presidente do Comité Nacional Republicano e candidato apoiado por Trump. A vitória permitiu aos democratas conquistar o lugar deixado vago pelo republicano Thom Tillis, que não se recandidatou. Cooper torna-se o primeiro democrata a vencer uma eleição para o Senado naquele estado desde 2008.

Na Florida, o republicano Byron Donalds venceu a corrida para governador, sucedendo a Ron DeSantis, ao derrotar o antigo representante democrata David Jolly numa disputa renhida.

No New Hampshire, o democrata Chris Pappas derrotou o republicano John Sununu na corrida para o Senado, tornando-se o primeiro homem assumidamente homossexual eleito para aquela câmara.

A republicana Ashley Moody, senadora nomeada para substituir Marco Rubio quando este passou a integrar a Administração Trump como secretário de Estado, conseguiu resistir ao desafio da democrata Angie Nixon, representante estadual e socialista democrática. Quando a AP declarou a vitória de Moody, com 96% dos votos contados, a republicana liderava por uma margem reduzida: 51% contra 48%.

Na Geórgia, o senador democrata Jon Ossoff foi reeleito com 64% dos votos, contra 36% do republicano Mike Collins. A vitória era esperada, uma vez que a maioria das sondagens apontava para o reforço da vantagem de Ossoff à medida que o dia das eleições se aproximava, embora a candidatura de Collins fosse considerada competitiva.

Os governadores democratas em exercício de Maryland, Wes Moore, da Pensilvânia, Josh Shapiro, e do Illinois, J.B. Pritzker, também venceram as respetivas eleições, como previsto.

Seis corridas para o Senado eram classificadas como muito disputadas pelo Cook Political Report: Alasca, Iowa, Kansas, Maine, Ohio e Texas. Em cinco destes estados — Texas, Iowa, Alasca, Kansas e Ohio — Trump tinha vencido por uma margem de dois dígitos em 2024.

O que revelam as sondagens à saída das urnas?

Uma sondagem à saída das urnas da CNN concluiu que cerca de 60% dos eleitores norte-americanos desaprovam o desempenho de Trump como Presidente. Entre eles estão aproximadamente um quinto dos eleitores que tinham votado no republicano em 2024. O inquérito combinou entrevistas presenciais realizadas no dia das eleições com dezenas de milhares de entrevistas feitas nas semanas anteriores.

O custo de vida foi um fator determinante para a decisão de voto: cerca de 90% dos inquiridos consideraram-no uma questão crucial ou importante. Aproximadamente 75% disseram estar insatisfeitos com a situação do país e dois terços responsabilizaram Trump pelo agravamento das condições económicas.

Uma sondagem da Associated Press confirmou o pessimismo generalizado. Mais de metade dos eleitores espera que a vida seja pior para a próxima geração. Cerca de 80% afirmaram que a inflação provocou dificuldades financeiras moderadas ou graves nos seus agregados familiares, enquanto mais de 80% manifestaram estar muito ou relativamente preocupados com os preços dos combustíveis, dos alimentos, dos serviços públicos e dos cuidados de saúde.

Cerca de dois terços consideram que as políticas de Trump agravaram a situação económica dos Estados Unidos, enquanto apenas 30% entendem que a melhoraram. Aproximadamente 60% dos eleitores acreditam ainda que o Presidente está mais preocupado com os seus próprios interesses do que com os do país.

A guerra com o Irão também pesou na avaliação dos eleitores. Cerca de 60% consideraram que os Estados Unidos tomaram a decisão errada ao atacar o país e um terço afirmou que o conflito foi um fator determinante no seu voto para o Congresso.

Onde poderá haver atrasos na divulgação dos resultados?

Problemas com máquinas de votação no condado de Westchester, em Nova Iorque, deverão atrasar a divulgação dos resultados, incluindo os da disputada corrida do representante republicano Mike Lawler. O próprio candidato disse à CNN que esperava que a contagem se prolongasse até às primeiras horas da manhã seguinte.

A Carolina do Norte também deverá registar um ligeiro atraso na divulgação dos resultados, devido a «pequenas perturbações».

O que aconteceu no dia das eleições?

Donald Trump enviou cartas a pelo menos 20 democratas na terça-feira, sugerindo que eram «alvos» de uma investigação criminal relacionada com uma potencial confusão entre eleitores no Alasca, segundo vários meios de comunicação social. A referência não significa necessariamente que venham a ser acusados.

A Administração Trump está a investigar a candidatura de Daniel J. Sullivan à eleição para o Senado no Alasca e a possibilidade de ter sido deliberadamente organizada pelos democratas para confundir os apoiantes do senador republicano em exercício, Daniel S. Sullivan.

Na terça-feira, Trump criticou também vários órgãos de comunicação social pela cobertura que fizeram do seu último discurso de campanha para as intercalares, proferido na segunda-feira junto à piscina do Lincoln Memorial. O Presidente afirmou que o Daily Mail e outros meios tinham levado a sério a sua declaração de que pretendia mudar o nome do monumento para o seu próprio nome, insistindo que se tratava de uma piada.

Na Florida, o governador republicano Ron DeSantis manifestou preocupação com as hipóteses do seu partido nas disputadas corridas para o Senado e para o governo estadual. Num evento, afirmou que os democratas estavam “mobilizados” e que os republicanos enfrentavam uma conjuntura desfavorável. Admitiu que o partido poderia perder uma ou duas das principais disputas se os seus eleitores não comparecessem em número suficiente às urnas.

O secretário de Estado da Geórgia, Brad Raffensperger, anunciou que o estado esperava receber 1,2 milhões de votos no próprio dia das eleições. O número poderia ser desfavorável aos republicanos, uma vez que os estrategas do partido consideravam necessários pelo menos 1,5 milhões de votos nesse dia para compensar a fraca participação republicana no voto antecipado, segundo o Atlanta Journal-Constitution.

Que outras corridas para o Senado eram equilibradas?

Para além das seis disputas classificadas como muito equilibradas, esperava-se que outras corridas para o Senado fossem renhidas, nomeadamente no Michigan, Florida, Carolina do Sul, Carolina do Norte, New Hampshire, Minnesota e Geórgia.

A última sondagem do New York Times e da Siena, divulgada na segunda-feira, colocava os democratas na liderança em todas as seis disputas mais equilibradas e com uma vantagem de dois dígitos no Michigan.

Democratas eram favoritos para conquistar a Câmara dos Representantes

O Cook Political Report estimava que os democratas poderiam conquistar até 25 lugares na Câmara dos Representantes, o que lhes daria a maior maioria desde 2009.

O organismo classificava 23 lugares como muito disputados, dos quais apenas quatro eram ocupados por democratas. Várias das circunscrições consideradas competitivas situavam-se em distritos tradicionalmente republicanos.

É o caso do lugar ocupado pelo representante republicano Max Miller, do Ohio, que enfrentava o democrata Brian Poindexter. A campanha de Miller foi afetada por uma disputa relacionada com a custódia dos filhos com a filha do senador republicano Bernie Moreno, bem como por acusações de abuso que o candidato nega.

O sexto distrito congressional do Kentucky, que Trump venceu por 15 pontos percentuais em 2024, o primeiro distrito do Montana, onde obteve uma vantagem de 12 pontos, e o segundo distrito do Iowa, com uma margem de 10 pontos, também estavam entre os lugares considerados competitivos.

Baixa popularidade de Trump penaliza os republicanos

Os democratas entraram no dia das eleições com a expectativa generalizada de conquistar vários lugares no Senado. As sondagens mostravam consistentemente os candidatos do partido na liderança em várias das disputas mais importantes.

Os republicanos tinham recuperado o controlo do Senado nas eleições de 2024, depois de quatro anos de maioria democrata. Antes de os democratas voltarem a conquistar a câmara, em 2020, os republicanos tinham mantido a maioria desde as eleições de 2014.

A baixa taxa de aprovação de Trump, em grande medida associada às preocupações com o custo de vida e com o aumento dos preços dos combustíveis provocado pela guerra com o Irão, era apontada como um dos principais fatores que estavam a prejudicar os candidatos republicanos.

O que poderá acontecer se os democratas controlarem uma ou as duas câmaras?

Os democratas preparam-se para avançar com várias investigações relacionadas com Trump e os seus aliados, caso recuperem o controlo de uma ou das duas câmaras do Congresso.

Uma parte significativa dessas investigações deverá centrar-se nos negócios pessoais de Trump e na possibilidade de o Presidente ter utilizado o cargo para aumentar a sua própria riqueza.

Desde que foi eleito para um segundo mandato, Trump tornou-se consideravelmente mais rico. A Forbes estima que o seu património líquido tenha aumentado pelo menos 2,7 mil milhões de dólares (2,3 mil milhões de euros), em grande medida impulsionado pelos seus investimentos e negócios ligados às criptomoedas.

Elon Musk, cujas empresas receberam milhares de milhões de dólares em novos contratos governamentais durante o segundo mandato de Trump, deverá também estar entre os principais alvos de eventuais investigações. Os associados de Jeffrey Epstein, incluindo Trump, poderão igualmente ser alvo de escrutínio.

Na segunda-feira, Trump afirmou que poderia conceder perdões presidenciais preventivos a Musk e a membros da sua Administração, para os proteger caso os democratas conquistassem o Congresso.

Apesar disso, os democratas têm demonstrado pouco interesse em avançar com um terceiro processo de destituição de Trump. Uma iniciativa desse tipo dificilmente conseguiria reunir os dois terços de votos necessários no Senado. Na Câmara dos Representantes, pelo contrário, bastaria uma maioria simples para aprovar o impeachment.

Eleitores da Califórnia decidem imposto sobre os multimilionários

A Proposição 40 prevê a aplicação de um imposto extraordinário, cobrado uma única vez, de 5% sobre os cerca de 260 multimilionários residentes na Califórnia. Alguns dos mais ricos já investiram milhões de dólares para combater a medida.

Sergey Brin, cofundador da Google, contribuiu com mais de 100 milhões de dólares (85 milhões de euros) para apoiar o comité de ação política Building a Better California, que criou duas propostas alternativas, as Proposições 41 e 42, que poderão anular os efeitos da Proposição 40.

A Proposição 41 pretende proibir exceções, como a prevista na Proposição 40, aos limites de despesa do estado relativamente às receitas provenientes de novos impostos. A Proposição 42 pretende proibir impostos sobre a riqueza e impostos retroativos. A proposta que obtiver mais votos será aprovada.

Os dez multimilionários mais ricos da Califórnia poderão pagar, em conjunto, 31,5 mil milhões de dólares (26,8 mil milhões de euros) caso a Proposição 40 seja aprovada, estimou anteriormente a Forbes. O presidente executivo da Meta, Mark Zuckerberg, seria o mais afetado, com uma potencial fatura fiscal de 10,9 mil milhões de dólares (9,3 mil milhões de euros).

Zuckerberg é agora a pessoa mais rica do estado, depois de outros multimilionários, incluindo Brin e o cofundador da Google Larry Page, terem saído da Califórnia. A Forbes estima que Page tenha evitado um pagamento superior a 11,6 mil milhões de dólares (9,9 mil milhões de euros) ao abandonar o estado, enquanto Brin terá evitado uma fatura de aproximadamente 11 mil milhões de dólares (9,35 mil milhões de euros).

Várias comunidades ponderam suspender a construção de centros de dados

Comunidades de estados como Ohio, Illinois, Wisconsin, Califórnia, Florida, Nevada, Nova Jérsia, Dakota do Norte, Kansas e Maine têm propostas relacionadas com centros de dados em votação.

Só no Ohio existem 21 questões eleitorais relacionadas com centros de dados, incluindo propostas de proibição em 13 municípios, o maior número entre todos os estados.

Os centros de dados tornaram-se um tema particularmente sensível neste ciclo eleitoral. Os eleitores têm manifestado crescente oposição a estas infraestruturas associadas à inteligência artificial, invocando preocupações com o aumento das faturas de eletricidade e com o consumo de energia e água.

As sondagens mostram, contudo, que a oposição é mais expressiva entre os eleitores democratas do que entre os republicanos.

O número: 38%

É a taxa de aprovação de Donald Trump no agregador de sondagens Silver Bulletin, de Nate Silver.

Na semana iniciada a 29 de outubro de 2018, Trump tinha uma taxa de aprovação de 40%. O antigo presidente Joe Biden registava igualmente 40% a meio do seu mandato, segundo a Gallup.

O que falta acompanhar?

O desempenho dos candidatos progressistas será considerado um indicador da orientação do Partido Democrata para as eleições presidenciais de 2028, numa altura em que a formação política procura reconstruir a sua identidade depois de um ciclo eleitoral desastroso em 2024.

Vários candidatos progressistas, entre os quais o representante estadual James Talarico, no Texas, Troy Jackson, no Maine, e a vice-governadora Peggy Flanagan, no Minnesota, estiveram envolvidos em disputas importantes para o Senado.

Vitórias recentes de figuras da esquerda, como a eleição do socialista democrático Zohran Mamdani para presidente da Câmara de Nova Iorque e a vitória de Abdul El-Sayed nas primárias democratas do Michigan para o Senado, apontam para uma deslocação do partido para posições mais à esquerda. Ainda assim, não é claro se esses resultados se traduzirão em vitórias a nível nacional numa eleição presidencial.

Um facto surpreendente

O reverendo Adam Hamilton tornou-se o primeiro democrata eleito para representar o Kansas no Senado desde George McGill, em 1932.

Num dos resultados mais inesperados da noite eleitoral, o democrata Adam Hamilton derrotou Roger Marshall na corrida pelo Kansas, depois de quatro derrotas republicanas noutros bastiões do partido do Presidente Donald Trump.

O resultado deixa os democratas com 51 lugares no Senado (100 lugares), considerando já a conquista no estado do Iowa.

Texto original aqui. Artigo traduzido e editado por Paulo Marmé.

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