Sam Neill: as lições da última entrevista à Forbes de um ator que nunca deixou de aprender

A morte de Sam Neill, anunciada esta segunda-feira pela família, encerra uma carreira de mais de cinco décadas que transformou o ator numa das figuras mais respeitadas do cinema internacional. O ator, que ficou para sempre associado ao paleontólogo Alan Grant em Jurassic Park (de 1993), morreu aos 78 anos, em Sydney, rodeado pela família,…
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Morreu aos 78 anos Sam Neill, um dos atores mais marcantes da sua geração. Numa das últimas entrevistas concedidas à Forbes, em 2024, refletiu sobre a carreira, o futuro de Jurassic World, a paixão pela vida no campo e a convicção de que, mesmo após cinco décadas de cinema, continuava a aprender.
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A morte de Sam Neill, anunciada esta segunda-feira pela família, encerra uma carreira de mais de cinco décadas que transformou o ator numa das figuras mais respeitadas do cinema internacional. O ator, que ficou para sempre associado ao paleontólogo Alan Grant em Jurassic Park (de 1993), morreu aos 78 anos, em Sydney, rodeado pela família, numa morte descrita como “repentina e inesperada”.

Diagnosticado em 2022 com um raro tipo de linfoma, Neill encontrava-se, segundo a família, livre do cancro. A notícia provocou uma onda de homenagens em todo o mundo, recordando uma carreira que ultrapassou os 70 filmes, com participações em obras como “The Piano” (“O Piano”, de 1993), “The Hunt for Red October” (“Caça ao Outubro Vermelho”, de 1990), “Event Horizon (“O Enigma do Horizonte”, de 1997) ou, mais recentemente, na série televisiva da Netflix “Peaky Blinders” (de 2013).

Nascido na Irlanda do Norte em 1947, mudou-se para a Nova Zelândia ainda criança. Depois de abandonar o curso de Direito, iniciou o percurso como ator no Downstage Theatre, construindo uma carreira que rapidamente ultrapassou as fronteiras do país. Em 1977 protagonizou “Sleeping Dogs”, considerado o primeiro filme neozelandês a estrear comercialmente nos Estados Unidos, e consolidou definitivamente o estatuto internacional com Jurassic Park, de Steven Spielberg, em 1993.

“Nunca tive formação como ator”

Numa entrevista concedida à Forbes em março de 2024, por ocasião da estreia da série “Apples Never Fall” (de 2024), Neill mostrava-se exatamente como o público se habituou a conhecê-lo: humilde, bem-disposto e surpreendentemente autocrítico. Ao recordar o percurso profissional, confessava nunca ter frequentado uma escola de representação: “Nunca tive formação como ator, por isso tive de aprender enquanto trabalhava. Gosto de pensar que hoje sou um ator melhor do que era há 40 anos. É um processo de aprendizagem. Acho que é isso que a vida é: continuamos a aprender durante toda a vida.”

Mesmo depois de interpretar algumas das personagens mais icónicas do cinema, Neill dizia continuar a aprender sempre que partilhava o ecrã com outros grandes nomes da representação: “Ainda estou a aprender quando atuo ao lado de alguém como Annette Bening. Aprendo com ela todos os dias. Espero que o próximo trabalho me torne ainda melhor.”

O homem por detrás de Alan Grant

Na altura da entrevista dada à Forbes, Neill promovia “Apples Never Fall”, adaptação do romance de Liane Moriarty, onde interpretava Stan Delaney, um antigo treinador de ténis cuja personalidade dominante marca profundamente a dinâmica familiar. O papel representava um desafio diferente daqueles a que estava habituado: “Nunca tinha interpretado um homem alfa, dominante, o ‘grande chefe’ da família. Mas Stan é muito mais do que isso. Também é ridículo, divertido e vulnerável. É uma personagem muito complexa.”

Os colegas de elenco recordavam-no como uma presença agregadora nas filmagens. Alison Brie descreveu-o como “gentil, generoso e extremamente acessível”, enquanto Jake Lacy destacou a forma como fazia questão de criar um ambiente de colaboração entre toda a equipa.

Jurassic Park ficou no passado

Na mesma conversa com a Forbes, inevitavelmente surgiu a possibilidade de regressar ao universo Jurassic World, numa altura em que já se preparava um novo filme da saga. Neill respondeu com o humor que sempre o caracterizou: “Consigo claramente jogar ténis — isso vê-se na série — mas, quanto a voltar a correr à frente de dinossauros, talvez isso já tenha acabado.” Apesar da resposta bem-humorada, nunca fechou totalmente a porta ao personagem que marcou a sua carreira, embora admitisse desconhecer os planos dos produtores.

Um refúgio longe das redes sociais

Fora dos estúdios, Sam Neill encontrava na quinta Two Paddocks, na Nova Zelândia, um equilíbrio que fazia questão de preservar. Produtor de vinho, agricultor e apaixonado por animais, abandonou a rede social X (antigo Twitter) depois de considerar que se tinha tornado um espaço demasiado tóxico: “Gostava do Twitter, mas tornou-se tão tóxico e desagradável que senti que já não podia estar ali.”

Preferia usar o Instagram para mostrar o quotidiano na quinta, onde partilhava vídeos dos animais, das vinhas e até das compotas que fazia em casa: “Vejo o Instagram como um lugar de refúgio, longe de todo o veneno que parece correr pelas redes sociais.”

Na entrevista contou, com humor, que tinha passado a noite anterior a fazer compota de ameixa: “Não ficou muito bem. Mas tenho tanta fruta nesta altura do ano que continuo a tentar.”

Entre o cinema e a terra

A ligação à agricultura nunca representou uma alternativa à representação. Para Neill, eram duas paixões complementares. Confessava sentir saudades da quinta quando estava a filmar, mas também da adrenalina dos estúdios quando passava demasiado tempo em casa: “Quando estou de férias e longe da quinta, começo a sentir saudades dela. Mas quando estou na quinta, há sempre uma parte de mim que quer voltar a apanhar um avião para trabalhar.” Essa curiosidade permanente acabou por definir toda a sua carreira. Nunca procurou ser visto como uma estrela de Hollywood. Preferia apresentar-se como alguém que continuava a aprender, independentemente da idade ou do sucesso alcançado. Talvez por isso a frase que deixou na entrevista à Forbes acabe hoje por resumir melhor do que qualquer homenagem o legado que deixa no cinema: “Continuamos a aprender durante toda a vida.”

com Forbes Internacional

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