Daniela Ruah: Em constante evolução

“Jardins Proibidos”, “Filha do Mar”, “Dei-te Quase Tudo” ou “Tu e Eu” são alguns dos projetos em que Daniela Ruah já tinha trabalhado antes da sua mudança para os Estados Unidos. Mas mesmo com a carreira já estabelecida em Portugal, nada a demoveu da decisão de procurar mais. O que é, na verdade, constante na…
ebenhack/AP
A Forbes Portugal falou com atriz, produtora e realizadora que muitos conhecem pela personagem Kensi, da série NCIS: Los Angeles, mas que tem muitas outras histórias para contar.
Forbes Life Líderes

“Jardins Proibidos”, “Filha do Mar”, “Dei-te Quase Tudo” ou “Tu e Eu” são alguns dos projetos em que Daniela Ruah já tinha trabalhado antes da sua mudança para os Estados Unidos. Mas mesmo com a carreira já estabelecida em Portugal, nada a demoveu da decisão de procurar mais. O que é, na verdade, constante na sua carreira: Daniela nunca vira a cara à oportunidade de evoluir. Seja no momento em que salta do mercado português para o norte-americano, ou quando se move entre o trabalho como atriz e realizadora.

Em que momento percebeste que querias seguir uma carreira na representação?
Talvez mais na adolescência. Antes disso eu sabia que queria ser artista, mas talvez na altura passasse mais pela parte da dança, porque eu comecei com a dança. Depois comecei a fazer aulas de teatro com a Teresa Côrte-Real, fazíamos as peças de teatro e eu adorava. Fiz as peças da escola desde pequenina, ainda nos Estados Unidos, nunca tive vergonha de estar à frente de um público. Mas eu acho que o querer uma carreira em representação foi cimentado talvez quando comecei a fazer novelas, porque aí fui um bocadinho obrigada a escolher entre uma e outra, porque tanto a representação como a dança, se não queremos fazer teatro e musical, requerem uma dedicação bastante profunda. Eu optei por manter a parte da representação. Adicionando a isso, também foi o facto de que o nosso corpo, eventualmente com a idade, vai dar de si, mesmo que queiramos continuar a dançar o próprio corpo não consegue. E na parte da representação, não, podemos representar com qualquer idade, há vários atores que podem fazer aquilo que adoram até ao último dia de vida. E eu acho que essa parte é que me puxou mais também para focar na representação, porque eu exijo que não me digam quando é que eu tenho que parar.

Que projetos destacas nesses primeiros anos?
Obviamente a primeira novela, talvez a primeira peça de teatro. As primeiras vezes que eu fiz certos projetos. Depois, claro, o primeiro NCIS: Los Angeles, a primeira série americana que me pôs no mapa nos Estados Unidos. Não creio que tenha havido só uma experiência que tenha marcado particularmente, foram todos aqueles momentos muito importantes que abrem uma porta para outra coisa importante.

Como é que preparaste a mudança para os Estados Unidos?
A extensão do meu plano foi ir para os Estados Unidos. Sabia que queria fazer carreira como atriz lá também. A transição não foi difícil. Os meus pais, quando eram mais novos e acabaram a faculdade em Portugal, foram fazer as pós-graduações para os Estados Unidos. Toda a gente da minha família viveu fora de Portugal num ponto da vida. Ir para fora era normal, sempre foi uma coisa quase óbvia. É claro que começando a fazer novelas aqui e as oportunidades começando a surgir, poderia fazer com que eu não quisesse ir embora, mas, por algum motivo, nunca duvidei que eventualmente iria, neste caso, para Nova Iorque.

Como é que foi a transição?
Obviamente foi difícil largar uma carreira que já tinha começado para começar tudo outra vez, sem agente e num ambiente onde ninguém me conhece, e começar a fazer networking e a perceber como é que funciona o mercado. Há muitas coisas que são parecidas, como é óbvio, porque uma produção é uma produção. A diferença de custo é mais do que normal. Fazer uma produção em que se tem milhões para investir num projeto versus em Portugal, que temos uma audiência mais pequena e ninguém vai investir milhões e milhões numa coisa que ter um milhão de visualizações já é uma coisa fantástica. Estar numa produção em que estão 250 membros de uma equipa, por exemplo, a gravar um episódio de cada vez e não de acordo com o platô em que estamos, como é nas novelas ou nas séries, poupa-se imenso dinheiro ao gravar mais cenas possíveis de episódios diferentes no mesmo platô. Eu diria que novela, em qualquer parte do mundo, é a parte mais profunda da piscina. É uma quantidade de páginas ou de cenas por dia enormes, gravamos fora de sequência, por vezes. Comecei na parte mais difícil dentro da indústria porque novela é difícil, é um ritmo alucinante e temos muita responsabilidade como atores para com o projeto. Portanto, eu já tinha essa etiqueta, essa forma de me comportar, de chegar a horas, de pendurar a roupa depois de acabar o dia, de abraçar toda a gente e respeitar o trabalho de todos. Eu já vim para os Estados Unidos com essa experiência. Apesar de ser novata nos Estados Unidos naquela altura, não era inexperiente e isso fez muita diferença mesmo.

Alguma vez sentiste que lá tiveste de provar mais o teu valor, de certa forma, por não seres de lá?
Não sei se isso me passou sequer pela cabeça, confesso. Na altura estava entusiasmadíssima por estar em Nova Iorque, por estar na escola de representação, conhecer pessoas novas, perceber como é que funcionava a indústria e cada passinho que pudesse ser pequeno ou grande era um entusiasmo enorme porque era a próxima coisa que eu ia descobrir. Fui com uma mente muito aberta e a minha meta naquela altura foi perceber quais é que são as agências com valor, com algum tamanho. Uma coisa que me surpreendeu, porque sempre fui fluente a falar inglês, andei no colégio inglês, é que não me tinha apercebido que há um sotaque de escola internacional que é uma mistela daquilo que apanhamos nos filmes com um sotaque britânico. Não me tinha apercebido que tinha um sotaque a falar inglês, não sei qual era, mas tinha. Eu era fluente na escrita, na parte de leitura, em comunicar, no vocabulário, mas isso não quer dizer que não tivesse sotaque que não fosse americano. Não fiz aulas nenhumas porque sinceramente quando toca a sotaques eu acho que consigo habituar-me depressa ao sotaque local, bastou viver nos Estados Unidos uns meses que o sotaque americano começou logo a entrar.

Entre esse momento inicial e o casting para NCIS: Los Angeles passou muito tempo?
Acho que é relativo porque há pessoas que demoram 10 anos a conseguir entrar na indústria a conseguir o primeiro grande trabalho e há pessoas que em meses conseguem entrar porque por acaso o timing deu certo. No meu caso eu diria que foi mais rápido. Atirei várias sementes ao vento, como faço ainda hoje, inscrevi-me em todos os websites que tinha visto e que me tinham dito na escola, e nesses websites podia haver alguém que me chamasse para fazer um casting, mesmo que fossem filmes de estudantes, e eu fiz vários porque não tinha material em inglês e precisava. Também ia encontrando castings, temos de estar abertos a fazer tudo, desde que nunca comprometam com a nossa integridade. Houve uma vez em que um ator que tinha escrito um guião e queria fazer uma leitura de mesa, que é quando os atores se sentam à volta de uma mesa para ler o guião em voz alta para os potenciais financiadores verem se é bom, disse: não te posso pagar, mas vem, faz a leitura, é num teatro e vão lá estar muitas pessoas. Não tinha nada a perder e fui. Estava lá um diretor de casting de uma novela que se chamava Guiding Light, demo-nos lindamente e ele disse: tens agente? E eu disse: não, estou à procura. Passadas umas semanas eu recebo uma chamada de uma agência conceituada e disseram: este diretor de casting recomendou o teu nome e gostávamos de falar contigo. Fui à reunião e assim que entrei conheci a minha agente. 18 anos depois ainda é a minha agente. Isto foi no final de um ano e depois nós temos uma coisa lá que se chama Pilot Season, que é mais ou menos entre janeiro e abril, ela começou a mandar para os castings todos que havia naquela altura e um deles foi o Red Tales e o outro foi o NCIS: Los Angeles. O NCIS mudou-me para Los Angeles e a partir daí lá fiquei, lá enraizei, conheci o marido, tive filhos. Foi relativamente rápido, mas dentro desse espetro de tempo houve muitas negas, muitos agentes que disseram que não, managers que disseram que não.

Como é que descreves a influência desta personagem, a Kensi, na tua carreira?
Eu acho que a experiência de interpretar uma personagem durante tanto tempo significa que temos muito tempo para desenvolver a personagem, para ela amadurecer e crescer ao mesmo tempo que eu. Quando a comecei a fazer ela tinha 25 anos e ao fim de 14 anos obviamente ela foi amadurecendo, tendo experiências de vida, tendo interesses de vida, casar, se calhar quer ter filhos, se calhar não quer, aquelas questões todas que nos passam pela cabeça à medida que vamos amadurecendo na vida. Eu consegui viver isso um bocadinho em paralelo com a minha vida real. A diferença talvez entre as duas é que eu sempre soube que queria ter filhos enquanto a personagem duvidava no princípio se queria ou não e depois acabou por ter problemas de infertilidade, que eu achei espetacular terem escrito isso porque é uma coisa tão comum e tão real para tantas mulheres e acho que se fala pouco nas séries. Depois em 14 anos também conseguimos fazer tudo: comédia, ação, drama sermos nós os principais, sermos nós os que apoiam os outros atores, conseguimos literalmente fazer um bocadinho de tudo, um bocado como na vida. O que foi giro de interpretar a Kensi foi precisamente poder ter todas as experiências como atriz dentro daquela personagem. Uma mulher mais forte, uma mulher que é resiliente, uma mulher que mesmo que esteja magoada consegue continuar a andar em frente, que tem os seus traumas, foi uma experiência maravilhosa por isso. Mas ao mesmo tempo, o outro lado é que esta experiência é o que nós chamamos de gaiola dourada. Realmente é um privilégio, é uma coisa incrível, mas ao mesmo tempo estamos enjaulados naquela personagem e para alguém criativo às vezes destrói um bocadinho a criatividade. Portanto, não trocaria a experiência por absolutamente nada, mas ainda fiquei uns anos quase a questionar: será que eu agora ainda consigo fazer outras coisas? Felizmente aí o Leonel Vieira ligou-me e disse olha tenho aqui uma série, o Grito, a personagem é assim e assim, descreveu-me tudo, e eu: é isto mesmo, completamente diferente da Kensi, vamos embora, vamos fazer.

Há algum episódio ou alguma fase da série que consideras que tenha sido um desafio maior?
O desafio maior que eu tive acho que nem sequer foi uma questão de personagem, acho que foi quando engravidei as duas vezes, ter ficado fora uns meses sabendo que estavam todos a gravar. Eles organizaram-se de forma a eu gravar as minhas cenas todas primeiro, para que depois na edição eu apareça em todos os episódios. Para as pessoas de casa eu não faltei a nada, nem que fosse uma cena dela no Afeganistão ou na Síria ou em Roma. Eu sou muito irrequieta, sempre fui, gosto de trabalhar e adoro ser mãe, tive o privilégio de poder levar as crianças para o trabalho comigo, com uma babysitter claro. Jurei a mim própria que não queria fazer esperar ninguém em platô, porque por mais que me tivessem apoiado não é preciso fazer as pessoas esperar, há pessoas que podem tomar o seu direito de espaço, de tempo e tudo, mas eu não me arrependo nada, fiz mesmo questão de: vocês deram-me espaço e escreveram as coisas fora de ordem por mim, a forma de eu agradecer é conseguir ser o menos difícil possível trabalhar comigo logisticamente naquela altura. Foi um desafio, mas foi incrível.

E talvez o maior desafio, quando eles começaram a ir para a escola, era não ter necessariamente um horário previsível de saber que podia levá-los à escola todos os dias ou ir buscá-los todos os dias, foi uma das vantagens da série acabar, de repente ter esta disponibilidade toda para ser eu a ir buscá-los, leva-los a casa, dar-lhes lanche, fazer os trabalhos de casa com eles.

Porque é que foi importante manteres uma ligação a Portugal?
Na altura eu nem pensei “é importante fazer isto”, foi uma coisa tão natural para mim manter aqui um pé. Para já porque tenho cá a minha família toda, logo eu sei que vou sempre ter uma presença grande em Portugal porque não vou deixar de ver os meus familiares, depois comecei a minha carreira aqui e sei muito bem onde é que é o meu berço criativo. É em Portugal, ponto. Depois, realisticamente eu acho que a minha imagem em Portugal tem uma leitura maior do que tem nos Estados Unidos, porque é maior, há muitas séries lá. Como comecei a minha carreira aqui e sempre recebi um carinho enorme do público, tenho orgulho de ser portuguesa e sinto o orgulho que as pessoas sentem de eu ter conseguido, como eles dizem, vingar lá fora, eu jamais iria deixar o nosso público. Gosto mesmo de trabalhar em português, gosto de apresentar as nossas coisas, gosto do que nós temos para oferecer. Acho que as nossas equipas técnicas fazem de uma migalha um banquete de trabalho, as pessoas aqui trabalham com tanto gosto, trabalham tão bem, nós temos pouco dinheiro para investir nestas coisas e as pessoas mesmo assim fazem coisas inacreditáveis.

Tens uma carreira como atriz e realizadora nos Estados Unidos e quando se olha para isso do lado de cá muitas das vezes é apenas com aquela visão romântica das coisas. Há alguma conceção errada que exista dessa realidade?
O glamour está nas passadeiras vermelhas, nos vestidos e nos prémios. Agora, aquilo que se faz mesmo no dia-a-dia, estar nas trincheiras de produzir, de fazer de horas em platô, então como realizadora nós nunca largamos o osso. Um ator faz o seu trabalho de casa, prepara a personagem, mas no fundo a nossa preocupação é o arco da história daquela personagem e como nós interagimos com as outras personagens à volta dessa personagem. Como realizador nós temos de ter todo o arco da história na cabeça, de ter uma continuidade que faça sentido, de contar uma história visualmente, mas ao mesmo tempo não queremos que se note a parte da realização, porque não é preciso fazer planos interessantes só por fazer, porque aí acho que tira um bocadinho o público do filme ou do episódio. Mas realmente o dia-a-dia não é essa parte do glamour. Aliás, quem vai ao Walk of Fame, é muito giro ver uma vez, mas não está tudo limpinho e brilhante. Só Los Angeles tem a mesma população, ou mais, de Portugal inteiro, portanto estamos a ver o que é a densidade de pessoas, o que é lixo, sujeira, tanto temos uma riqueza enorme como temos muita gente a viver na rua. Isto para dizer que eu acho que a parte glamourosa é o que mais engana porque de resto é só trabalhar o mais possível. Calças rasgadas, t-shirt velha e toca andar.

Como é que descreves a realidade de ser um ator em Hollywood hoje em dia, tendo em conta todos os desafios que existem: a recente greve, a política norte-americana a interferir no meio artístico, inteligência artificial (IA)?
Incerta, talvez. A política é temporária porque daqui a uns anos será outra pessoa a liderar o país, logo teremos políticas diferentes ou parecidas, não sei, mas acho que tudo é cíclico e conseguimos ver isso na história inteira. Pessoalmente não sinto necessidade de ficar deprimida ou chateada, claro que fico aborrecida porque há menos casting do que havia antes, mas ao mesmo tempo isso faz com que eu seja mais proativa a organizar os meus próprios projetos. Como é óbvio, a política envolver-se nos Late Night Shows, o Stephen Colbert agora terminar por causa disso, é o maior disparate do mundo. Tem de haver aqui uma liberdade artística, de alguma forma. É óbvio que descordo profundamente com o que se passa, mas, ao mesmo tempo, eu sei que é cíclico.

Sobre a IA, é tão novo que não temos essa história de saber se há ciclo. E aí é que chega a incerteza. Se eu acho que a IA vai substituir atores? Não, acho que esta indústria é suficientemente grande para que haja público para tudo. Há desenhos animados, que não são pessoas. Acho que mesmo que exista um filme que seja 100% com IA, haverá um público para isso. Eu pessoalmente não sinto muita necessidade de ver, não tenho muito interesse, mas isto não significa que não haja espaço para aqueles que gostam dessas coisas. Eu também não faço jogos de computador e há pessoas que adoram. Eu acho que o maior risco neste momento, pelo que eu consigo entender, é nos empregos de entrada. Por exemplo, com os escritores o que é que tipicamente acontece? Há certos trabalhos que o assistente dos escritores iria fazer e que, neste momento, põe-se aquilo na IA e em dois segundos sai logo o trabalho feito. Portanto, esses lugares de entrada vão, certamente, ser comprometidos e afetados. Só que o que é que acontece? Essas pessoas, depois, passariam a ser os escritores. O escritor, numa série de televisão americana, também fica com o papel de produtor, supervisor de história, depois passa a ser coprodutor executivo, depois produtor executivo, e, eventualmente, passa a ser o que nós chamamos de showrunner, que é a pessoa que gere toda a série. Ora, se nós vamos eliminar esses empregos de entrada, onde esses escritores assistentes crescem dentro de uma série ou dentro da indústria e vão aprendendo todos os papéis até conseguirem ser um showrunner, quem é que vai ser o showrunner no futuro? Não é agora que nos vamos sentir muito afetados, é no futuro, quando não houver ninguém treinado para gerir aquilo que é preciso gerir, da forma que é preciso gerir. Mas em relação aos atores não tenho receio neste momento. Tirando o uso da imagem dos atores, como o Tom Cruise, Brad Pitt, usar as vozes deles, como Morgan Freeman, isso eu acho que é um problema, não se pode usar a imagem e a voz de uma pessoa sem a autorização dessa pessoa.

Como é que foi a experiência de passar depois para a realização?
Durante muito tempo perguntavam-me se eu queria realizar e eu dizia que não. Achava que era um trabalho demasiado avassalador, muita responsabilidade. Não sabia, na altura, se tinha autoestima, o que é ridículo porque eu tenho muita autoestima, mas não sabia se iria conseguir concretizar o trabalho da forma como eu gosto de trabalhar. Ou seja, um bocadinho perfeccionista com algumas coisas. Então dizia que não. Foi uma amiga minha que me deu o empurrão final, disse-me: tu estás a fazer uma série em que estás em família, estás em tua casa, e para teres essa experiência pela primeira vez deveria ser num ambiente confortável, em que as pessoas te querem ver fazer bem as coisas e aquilo que tu não sabes, tens pessoas lá que te vão apoiar e te vão ensinar, não te vão deixar cair nem vão deixar cair a série. Fui falar com o nosso showrunner na altura, ele achou ótima ideia e foi a partir daí. No primeiro dia no platô, como realizadora, estava nervosíssima. Para já fui falar com os atores todos, com os meus colegas todos. O Chris O’Donnell ficou feliz da vida por mim, ele também já tinha realizado dois episódios, o LL Cool J amou a ideia também. Aliás, eles os dois têm sido dois dos meus maiores apoiantes na parte da realização. Estava nervosíssima, mas depois do primeiro dia disse: apaixonei-me por esta profissão. E agora adoro as duas coisas, não consigo escolher entre uma e outra. Mas o facto é que agora tenho duas carreiras, quando uma esta está parada posso tentar puxar pela outra, e vou tentando equilibrar.

De que forma a experiência com atriz foi importante na parte da realização?
Muito. Para já, a técnica de estar à frente da câmara e poder aproveitar-me dessa noção para saber como comunicar com os atores. Há atores que não querem saber onde é que está a câmara, outros que gostam de saber mais a parte técnica, como foi sempre o meu caso. Por exemplo, estamos a filmar a minha cara de frente, eu depois pergunto: vais pôr a câmara atrás de mim também ou fica só de frente? Se o realizador disser que vai estar uma câmara atrás de mim sei que na minha cena posso voltar-me para trás, para dar um olhar para trás. E coisas de continuidade, para ter a certeza de que na edição a mão do ator está aqui e na próxima tem de estar com os braços cruzados, por exemplo. Ou seja, há várias técnicas de trabalhar com a câmara que eu depois posso falar com os atores. Também há um bocadinho de psicologia atrás disto, cada ator gosta da comunicação de uma forma diferente, há atores que gostam de discutir a cena durante 20 minutos, há atores que eu só preciso dizer uma palavra para eles perceberem qual é o apontamento. Eu gosto de descobrir o que é que cada ator precisa nessa situação.

Houve um realizador do NCIS, eu ia realizar um episódio do NCIS e ele estava a gravar e eu decidi sentar-me a pé dele e observá-lo a trabalhar, ele chama-se Michael. E ele disse: “Vou-te ensinar uma coisa. Tu tens, em qualquer produção para onde tu vás, até à hora de almoço do primeiro dia de gravação para conquistares a equipa técnica”. O que é que isso significa? Estar muito bem preparada, saber as cenas, saber o que é que é preciso fazer, ser concreta naquilo que peço, ou mesmo se eu não tiver a certeza daquilo que eu quero, dizer que não tenho a certeza com confiança. Se entrarmos já com essa confiança no trabalho, porque já sabemos o trabalho de trás para a frente, eles sentem que estão em boas mãos e funciona bem. Quando cheguei ao The Equalizer, para realizar um episódio no ano passado, à hora do almoço no primeiro dia, e eu não tinha contado esta história a ninguém, houve uma das raparigas da equipa técnica que me deu dois polegares. Eu disse-lhe: tu nem sabes o que é que isso significa no primeiro dia, à hora do almoço. Ela disse: porque tu chegaste aqui preparada, sabes a história, sabes os nomes de toda a gente, fizeste o teu trabalho de casa, o pessoal pode confiar em ti. E foi ótimo.

 Para esta área da realização, que objetivos profissionais tens neste momento?
Quero fazer longas-metragens. Eu adoro fazer televisão, mas as séries existentes, ou mesmo aquelas novas, acabam por ter o seu formato, o seu ritmo, o que eu chamo de caixa de areia. Temos os nossos parâmetros do que a série é, o ritmo, o estilo, o género, dentro dessa caixinha podemos fazer o castelo com aquela areia, que é a parte criativa que nós podemos trazer como realizadores novos numa série. Em cinema, em princípio, o realizador consegue construir essa caixa, não é só fazer o castelo de areia, mas eu posso construir a própria caixa dentro dos meus parâmetros, daquilo que eu quero de imagem e de tudo, trabalhando com o diretor de fotografia. Há uma certa liberdade criativa que existe em fazer longas-metragens que pode não existir tanto em televisão. Mas adoro as duas, não é uma crítica a nenhuma, é simplesmente o formato. Como já fiz muita televisão, e quero continuar a fazer, gostava muito de realizar longas-metragens.

Em que projetos estás a trabalhar?
Há vários projetos que eu tenho neste momento, e já temos atores agarrados aos projetos. Financiamento é sempre um pesadelo, como é óbvio, mas ter atores agarrados com um certo renome ajuda sempre. Um deles é baseado num livro chamado Nowhere Boy, é a primeira longa-metragem que eu quero realizar, comprei os direitos do livro e passámos uns anos com uma escritora a desenvolver o guião, arranjámos produtor e agora temos dois atores de renome, que eu não vou revelar já. Está a correr muito bem, estou muito feliz. Depois tenho o And Then She Was Gone, em que sou produtora executiva, vou entrar também, mas aí é que tenho praticado mais o trabalho de produtora executiva, juntar a equipa, fazer o networking com os atores, é um trabalho bastante diferente. Depois há um outro projeto aqui em Portugal, para realizar uma série.

Qual foi a lição mais importante que a tua carreira te ensinou até hoje?
O gosto e a importância de colaborar. Eu cresci filha única e nunca tive de colaborar com ninguém, nunca tive de partilhar os meus brinquedos. Eu acho que nunca tive muita atitude de filha única, mas nunca tive de partilhar nada. Não é que tenha sido difícil para mim trabalhar assim antes de empregar por esta carreira, mas talvez tenha cimentado a forma de colaborar com outras pessoas, de saber ouvir, de não interromper, respeitar a opinião do outro, não ter orgulho, valorizar o que o outro tem para oferecer e fazer crescer a ideia para que a ideia seja o melhor possível, independentemente se a ideia foi minha ou não.

Como falámos anteriormente, quando vais para os Estados Unidos já tinhas uma carreira em Portugal. Vais começar de novo. O que é que te motiva a procurar esta evolução?
É a evolução, a própria evolução inspira-me imenso. Eu acho que esta profissão é perfeita para mim porque é muito difícil eu ficar num sítio só durante muito tempo. Acho que o sítio onde fiquei mais tempo foi no meu casamento e como mãe. Ser atriz é giro porque estamos sempre a fazer personagens diferentes, nunca estamos presas a uma coisa só durante muito tempo. Fora a Kensi, claro, todos os dias. Mas lá está, eu quando me comecei a sentir um bocadinho criativamente aborrecida com a Kensi, porque naturalmente passa-se por isso, comecei a realizar e voltei a sentir o entusiasmo de trabalhar, de criar e de fazer outra vez. Um episódio começa e acaba, outro episódio de outra série começa e acaba, fazer cinema como realizadora começa e acaba. Está certo que há a incerteza de quando é que vai ser o próximo trabalho, isso acontece em tudo, mas essa constante reviravolta de criatividade, de reinventar e de conhecer pessoas novas, numa equipa nova, numa série nova, eu adoro.

E para terminarmos, que conselho darias a um ator que esteja hoje a pensar em apostar numa carreira lá fora?
Isso é uma pergunta complicada porque aquilo que se passa hoje é diferente do que se passava antes. Para eu fazer uma carreira internacional tive que me enfiar no avião e ir para fora, hoje em dia todos os diretores de casting aceitam self-tapes e muitas vezes até fazem questão de procurar pessoas mais diversas, com sotaque de culturas diferentes, de raças diferentes. É como se os Estados Unidos é que fossem atrás da internacionalização. Acho que há uma abertura muito maior àqueles que não são de lá que foi crescendo nos últimos 10 anos. Logo, aquilo que eu aconselharia a fazer há 10 anos, todas as coisas que eu fiz, agora as pessoas podem fazer com a tape. O que facilita, claro. As próprias produções internacionais vêm aos agentes em Portugal, Espanha, etc., para ir buscar atores. Nós temos imensos atores em Portugal agora que têm feito uma carreira internacional, pode não ser tanto nos Estados Unidos, pode ser mais pela Europa, não interessa: o Albano Jerónimo, a Daniela Melchior, o Diogo Morgado, que também trabalhou nos Estados Unidos, a Maria João Bastos, a Sara Matos. Há tantas pessoas a conseguir fazer uma carreira internacional, porque os próprios países parece que agora procuram cruzar um bocadinho a artisticidade e a criatividade com as plataformas. Agora nós conseguimos ver séries de todos os países. Houve uma internacionalização que aconteceu naturalmente através das plataformas e através das self-tapes, e por isso aquilo que eu aconselharia já não se aplica.

 

Agradecimento ao Museu Condes de Castro Guimarães e à Câmara Municipal de Cascais
Fotos: Marisa Cardoso

Mais Artigos