Filipa Sáragga d’Orey: “A minha maior ambição é transformar a beleza num gesto de esperança”

Aos 40 anos, depois de ter vendido integralmente todas as coleções anteriores, Filipa Sáragga d’Orey abre um novo capítulo artístico, sem perder de vista aquilo que considera essencial. Nesta entrevista à Forbes Portugal, fala da relação entre intimidade e criação, da influência de Paula Rego, da limitação física que a obrigou a reinventar a sua…
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A pintora portuguesa estreia em Madrid, a 7 de outubro, “Três Filhas”, a coleção mais pessoal do seu percurso e a primeira a ser apresentada diretamente fora de Portugal. Inspirada pela enteada, Carmo, e pelas filhas, Assunção e Graça, a nova série marca o início da internacionalização de uma obra construída em torno da família, da memória, da fé e da procura de sentido.
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Aos 40 anos, depois de ter vendido integralmente todas as coleções anteriores, Filipa Sáragga d’Orey abre um novo capítulo artístico, sem perder de vista aquilo que considera essencial. Nesta entrevista à Forbes Portugal, fala da relação entre intimidade e criação, da influência de Paula Rego, da limitação física que a obrigou a reinventar a sua pintura, da espiritualidade que atravessa o seu trabalho e da ambição de chegar a outros países sem sacrificar o tempo vivido com o marido e as três filhas.

A exposição “Três Filhas” estreia em Madrid, sem ter sido apresentada antes em Portugal. O que representa, para si, esta decisão de começar esta nova etapa fora do país?
Nunca foi uma decisão estratégica. Foi a forma como a vida aconteceu. Acredito que cada obra encontra o lugar onde deve começar o seu caminho, e senti que esta coleção precisava de nascer num contexto internacional. Madrid é uma cidade profundamente ligada à história da pintura europeia e ocupa um lugar muito especial no meu imaginário desde sempre. Aliás tenho ascendência espanhola. Internacionalizar o meu trabalho em Espanha tem um enorme significado simbólico. Mais do que internacionalizar a minha carreira, sinto que estou a abrir um novo capítulo, levando comigo aquilo que mais profundamente me identifica: uma pintura feita a partir da família e da procura de sentido.

“Três Filhas” parte da sua enteada Carmo e das suas filhas Assunção e Graça. Como se transforma uma experiência tão íntima numa obra que pode ser vista, sentida e interpretada por desconhecidos?
A pintura começa sempre na minha vida, mas não acaba nela. As minhas filhas foram o ponto de partida, nunca o ponto de chegada. O que procuro pintar não são apenas retratos nem episódios familiares; procuro traduzir aquilo que é universal: o amor, a pertença, a infância, a fragilidade e a alegria. Sobretudo tento perpetuar momentos que todos sonhamos que fiquem para sempre. Quando uma experiência profundamente pessoal consegue tocar alguém que nunca nos conheceu, deixa de ser apenas nossa. É nesse momento que a arte cumpre verdadeiramente a sua função.

Fotos: João Lima; Maquilhagem: Rita Nunes; Cabelos: João Batalha

Esta é descrita como a sua coleção mais pessoal, madura e espiritualmente luminosa. O que mudou em si para que esta obra pudesse existir agora e não antes?
Mudou a minha forma de olhar para a vida. Ser mãe ensinou-me que a verdadeira força pode ser profundamente serena e que a beleza não está na ausência de dificuldades, mas na forma como aprendemos a viver com elas. Também o tempo me trouxe maior liberdade enquanto artista. Hoje sinto menos necessidade de impressionar e mais vontade de ser verdadeira. Crio para elas e a pensar nelas. Penso que esta coleção só podia existir agora porque na minha opinião resulta de um encontro entre uma maior maturidade artística pelo facto de ter tido sempre um apoio curatutial ao longo de toda a coleção, plenitude familiar e uma fé mais profunda naquilo que realmente importa.

A sua pintura é muito marcada pela luz, pela cor, pela serenidade e por uma certa ideia de abrigo. Que Portugal existe dentro da sua obra?
Existe um Portugal profundamente ligado às raízes, à tradição, natureza, à luz e ao silêncio. Embora muitas das minhas paisagens sejam imaginadas, há nelas uma memória muito portuguesa da relação com o mar, com a terra e com uma certa contemplação que faz parte da nossa identidade. Interessa-me também preservar uma ideia de beleza que não depende da grandiosidade, mas da simplicidade. Talvez seja esse o Portugal que levo comigo: um país onde a luz continua a ser uma forma de esperança.

Todas as suas coleções anteriores foram integralmente vendidas. Como olha para essa relação entre criação artística, reconhecimento público e mercado? A procura pela sua obra dá-lhe liberdade, responsabilidade ou pressão?
Acima de tudo, responsabilidade. É naturalmente gratificante sentir que o trabalho encontra quem o queira viver de perto, mas procuro que o mercado nunca determine aquilo que pinto. A criação precisa de permanecer livre. Se começar a pintar para corresponder às expectativas dos outros, deixo de ser fiel àquilo que me trouxe até aqui. Se os outros gostam isso é uma consequência feliz mas a obra tem de continuar a nascer da mesma verdade interior.

Fotos: João Lima; Maquilhagem: Rita Nunes; Cabelos: João Batalha

Paula Rego teve um papel importante no seu percurso e deixou-lhe uma frase muito forte: “Através da pintura, vais conseguir matar os teus pesadelos e prolongar os teus sonhos.” Que significado tem hoje essa frase na sua vida?
Hoje entendo essa frase ainda melhor do que quando a ouvi pela primeira vez. A pintura não elimina o sofrimento, mas transforma-o. Dá-nos um lugar onde a dor, a memória e a esperança podem coexistir. Ao longo da vida fui percebendo que criar é uma forma de reconciliar muitas partes de nós próprios. Continuo a sentir que a pintura prolonga os meus sonhos, mas sobretudo me ajuda a reconhecer beleza mesmo nos momentos mais difíceis. Embora com toda a honestidade neste preciso momento prolongue apenas a alegria.

Um problema de saúde obrigou-a a abandonar a pintura a óleo e a adaptar-se ao acrílico. Muitas vezes, uma limitação altera uma linguagem artística. No seu caso, que artista nasceu dessa rutura?
Nasceu uma artista mais livre. Durante algum tempo vivi essa mudança como uma perda, mas acabou por se revelar uma oportunidade de reinventar completamente a minha linguagem. Passei a explorar novos materiais, novas texturas e uma forma de pintar mais intuitiva. Hoje percebo que essa situação me aproximou da pintura que sempre procurava, mas que talvez ainda não tivesse encontrado. A vida, por vezes, abre-nos portas precisamente através do sofrimento e de momentos que quando enfrentamos com fé e esperança nos tornam mais fortes.

Fotos: João Lima; Maquilhagem: Rita Nunes; Cabelos: João Batalha

Fala da pintura quase como uma forma de oração. Que lugar ocupam a fé, o silêncio e a espiritualidade no seu processo criativo?
O silêncio tornou-se essencial. É nele que encontro disponibilidade para escutar aquilo que verdadeiramente importa. A fé é a base tudo na minha vida, é aquilo que considero mais importante é o que mais tento transmitir as minhas filhas. É a forma como procuro estar diante da vida. Pintar é, para mim, um exercício de atenção, de contemplação e de confiança. Gosto de pensar que cada quadro nasce mais da escuta do que da afirmação. Da oração e das conversas com Deus do que do pensamento em si.

Além da pintura, construiu uma carreira na literatura infantil, com livros sobre inclusão, emoções, bullying e diferença, alguns integrados no Plano Nacional de Leitura. Que responsabilidade sente quando cria para crianças? A escritora e a pintora partem do mesmo lugar ou respondem a necessidades diferentes?
Criar para crianças é uma enorme responsabilidade, porque estamos a participar na construção do olhar com que irão compreender o mundo. Tanto na escrita como na pintura procuro falar de aceitação, de empatia, de esperança e de beleza. A diferença está na linguagem. Os livros permitem-me nomear; a pintura permite-me sugerir. No fundo, ambas nascem do mesmo desejo: ajudar as pessoas, independentemente da idade, a acreditar que existe sempre espaço para a cor.

Fotos: João Lima; Maquilhagem: Rita Nunes; Cabelos: João Batalha

Aos 40 anos, com uma obra consolidada em Portugal e uma primeira afirmação internacional em Madrid, onde quer chegar agora? Que ambição tem para esta nova fase, como artista portuguesa, como mulher, como mãe e como criadora que parece procurar sempre a beleza, mas também o sentido?
Espero chegar a uma pintura cada vez mais verdadeira. Gostaria de continuar a expor internacionalmente e de ver o meu trabalho a dialogar com diferentes culturas, mas nunca perdi de vista aquilo que considero essencial. O sucesso, para mim, não se mede apenas pelos lugares onde exponho, mas pela capacidade de criar obras que permaneçam na vida das pessoas. Como artista, como mãe e como mulher, a minha maior ambição continua a ser a mesma: transformar a beleza num gesto de esperança e deixar um legado que faça bem a quem vier depois de mim. As minhas filhas são ainda muito pequenas e esta coleção exigiu de mim uma entrega absoluta. Na próxima etapa, quero trabalhar com mais equilíbrio, porque percebi que o maior sucesso da minha vida nunca será uma exposição ou uma coleção, mas o tempo vivido com o meu marido e as minhas três filhas.

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