Em 2016, o Fórum Económico Mundial lançou uma previsão que nos parecia retirada de um filme de ficção científica: 65% das crianças que estavam na altura, em idade pré-escolar, iriam crescer para trabalhar em profissões que ainda não existiam. Passou-se uma década e percebemos que essa previsão não era um exagero… era até, talvez, conservadora.
Os dados mais recentes da mesma entidade confirmam que estamos perante uma mudança estrutural no mercado de trabalho, estimando que até 2030 sejam criados 170 milhões de novos empregos e extintos 92 milhões, num processo que afetará cerca de 22% das atuais funções*. Ou seja, o progresso vai trazer muito mais empregos do que aqueles que vai eliminar… quase o dobro.
Apesar disso, continuamos focados na pergunta errada: “Como é que vou adaptar o meu emprego à Inteligência Artificial?” É uma preocupação legítima, mas limitada. Ao focarmo-nos apenas na preservação do presente, estamos a ignorar a construção do futuro. Ao invés de tentarmos proteger as nossas funções atuais, devíamos estar a perguntar-nos quais as funções do futuro e em quais encaixamos e que competências vão dominar o mercado de trabalho nos próximos dez ou vinte anos.
A história mostra-nos que a tecnologia não destrói o trabalho, mas sim que o transforma. A Inteligência Artificial, como a eletricidade ou a própria internet antes dela, vem eliminar tarefas, sim, mas não elimina o valor humano. E quanto mais avançamos tecnologicamente, mais valorizamos aquilo que é intrinsecamente humano, como o pensamento crítico, a criatividade, a resiliência e a capacidade de adaptação.
Surgem já sinais de algumas dessas novas profissões, como funções ligadas à cibersegurança, à inteligência artificial, sustentabilidade, análise de dados, etc. Profissões que há dez anos não existiam. E vamos vendo a valorização das profissões “antigas”, aquelas que já ninguém sabe fazer, mas que são essenciais: canalizadores, ladrilhadores, costureiras, sapateiros… Tarefas que as gerações antes de nós dominavam e que agora nos escapam.
Mas segundo o Fórum, prevê-se também um aumento de procura em empregos onde a empatia, por exemplo, é essencial, como cuidadores, professores e profissionais de saúde.
Por isso, talvez a melhor pergunta que devemos fazer enquanto profissionais não é “como mantenho o meu emprego?”, mas sim “como me preparo para continuar a ser relevante no mercado de trabalho?”. Porque quem decide se as funções se tornam obsoletas, não é o trabalhador, mas sim o mercado. A verdadeira ameaça não é o progresso, mas sim a imobilidade. Não será a inteligência artificial ou qualquer outro avanço a definir quem fica para trás, mas sim a nossa incapacidade de evoluir com ela e de pensar os trabalhos e as carreiras do futuro com olhos postos no futuro e não no passado.
Ricardo Teixeira,
CEO da Compuworks





