Opinião

A Nova Economia da Dissuasão: porque o poder estratégico já não se mede apenas em armas

António Brás Monteiro

“Power and violence are opposites; where the one rules absolutely, the other is absent.”
— Hannah Arendt

Durante grande parte do século XX, o poder militar podia ser medido através de variáveis relativamente claras: dimensão das forças armadas, capacidade industrial de guerra, superioridade aérea, poder naval, arsenal nuclear e projeção convencional de força. A estabilidade estratégica assentava sobretudo na perceção de equilíbrio militar entre grandes potências e na capacidade de infligir danos inaceitáveis ao adversário. Mesmo nos momentos mais tensos da Guerra Fria, a lógica da dissuasão permanecia essencialmente centrada na ameaça de destruição física e na relação direta entre capacidade militar e poder político.

Essa realidade não desapareceu. A guerra na Ucrânia demonstrou de forma inequívoca que o poder militar convencional continua a ser indispensável e que a NATO permanece o principal garante da segurança euro-atlântica. O regresso da guerra de alta intensidade ao continente europeu encerrou definitivamente décadas de complacência estratégica e obrigou os Estados europeus a reconsiderarem prioridades que durante demasiado tempo foram tratadas como secundárias. O reforço das capacidades militares europeias deixou de ser apenas uma opção política ou orçamental e passou a representar uma necessidade estrutural de sobrevivência estratégica num ambiente internacional cada vez mais competitivo e instável.

Contudo, a transformação mais profunda do atual sistema internacional está a ocorrer num plano menos visível, mas potencialmente mais determinante para o equilíbrio de poder das próximas décadas. O poder contemporâneo já não depende exclusivamente da capacidade de destruir. Depende, cada vez mais, da capacidade de manter sistemas complexos operacionais sob condições permanentes de pressão, disrupção e coerção multidimensional. Essa mudança está a alterar silenciosamente o próprio conceito de dissuasão.

A competição estratégica entre grandes potências expandiu-se para domínios que, durante décadas, foram vistos sobretudo como infraestruturas de suporte à prosperidade económica global e não como componentes centrais da segurança nacional. Redes energéticas, cabos submarinos, semicondutores, inteligência artificial, satélites, sistemas financeiros, centros de dados, corredores marítimos, logística global e cadeias de abastecimento passaram progressivamente a integrar o núcleo do cálculo estratégico contemporâneo. A resiliência sistémica tornou-se um ativo de poder.

As crises dos últimos anos aceleraram essa transformação. A guerra na Ucrânia expôs vulnerabilidades energéticas críticas da Europa e demonstrou como dependências económicas podem rapidamente converter-se em fragilidades geopolíticas. A crescente instabilidade no Médio Oriente e as tensões em corredores marítimos fundamentais para o comércio internacional revelaram até que ponto a segurança europeia depende da estabilidade de infraestruturas externas ao próprio continente. Paralelamente, ataques híbridos, operações cibernéticas, sabotagem de infraestruturas críticas e campanhas de manipulação informacional tornaram-se instrumentos permanentes de competição estratégica abaixo do limiar formal da guerra.

As recentes operações conduzidas pelos Estados Unidos e Israel contra capacidades estratégicas iranianas demonstraram igualmente até que ponto a lógica contemporânea da dissuasão já ultrapassa o domínio estritamente convencional, envolvendo simultaneamente capacidade militar, controlo de escalada regional, proteção de corredores marítimos críticos, resiliência energética e superioridade tecnológica. O objetivo da coerção contemporânea já não é apenas conquistar território ou neutralizar forças militares adversárias. Em muitos casos, consiste em degradar progressivamente a capacidade de decisão das democracias, explorar dependências estruturais e aumentar o custo político da resposta estratégica sem desencadear necessariamente mecanismos clássicos de guerra aberta.

É precisamente neste contexto que a infraestrutura adquiriu um valor estratégico sem precedentes. Um ataque contra cabos submarinos pode comprometer comunicações financeiras internacionais, perturbar mercados e gerar disrupção simultânea em múltiplos sectores económicos. A interrupção prolongada de corredores marítimos críticos pode produzir impactos imediatos sobre energia, cadeias logísticas, inflação e estabilidade política. A dependência tecnológica de componentes essenciais produz vulnerabilidades que transcendem o domínio económico e entram diretamente na esfera da soberania estratégica.

A própria lógica da globalização começa, assim, a ser reinterpretada à luz da competição geopolítica. Durante décadas, as democracias ocidentais organizaram os seus modelos económicos em torno de princípios de eficiência, interdependência global e otimização logística. Esse modelo gerou crescimento económico extraordinário e permitiu uma expansão sem precedentes da integração internacional. Contudo, sistemas concebidos para maximizar eficiência nem sempre são concebidos para absorver coerção prolongada. A crescente instrumentalização geopolítica das dependências económicas revelou os limites estratégicos de uma arquitetura global construída sobretudo para prosperidade e não para resiliência.

A grande competição estratégica do século XXI será, em larga medida, uma competição entre sistemas capazes de resistir à disrupção prolongada e sistemas excessivamente vulneráveis à fragmentação interna. Os Estados mais fortes das próximas décadas não serão apenas aqueles que dispuserem de maiores orçamentos militares, mas aqueles que conseguirem integrar defesa, indústria, energia, tecnologia, inteligência, finanças e coesão social numa arquitetura coerente de segurança nacional.

Neste contexto, a NATO continua absolutamente central para a estabilidade euro-atlântica. A Aliança permanece o núcleo operacional da dissuasão ocidental e o principal garante da segurança europeia perante um ambiente internacional progressivamente mais volátil e competitivo. O papel dos Estados Unidos continua a ser insubstituível em capacidades críticas como inteligência, projeção estratégica, integração operacional e dissuasão alargada. Também o Reino Unido mantém uma relevância estrutural para a arquitetura de segurança europeia, particularmente nos domínios marítimo, tecnológico e de inteligência.

Mas esta realidade exige igualmente uma Europa mais robusta, menos vulnerável e estrategicamente mais consciente das suas dependências críticas. O fortalecimento da defesa europeia não deve ser entendido como alternativa à relação transatlântica, mas como condição essencial para a sua credibilidade futura. Uma Europa mais resiliente reforça inevitavelmente a própria solidez estratégica da NATO.

A questão central deixou, portanto, de ser apenas quanto investir em defesa. A verdadeira questão estratégica passou a ser outra: que sociedades conseguirão preservar capacidade de decisão soberana num ambiente de coerção sistémica permanente, marcado por competição tecnológica, vulnerabilidade infraestrutural e crescente pressão sobre os próprios mecanismos de estabilidade democrática?

Essa será provavelmente uma das grandes linhas de fratura geopolítica das próximas décadas. A próxima grande crise internacional poderá não começar com colunas militares atravessando fronteiras europeias, mas através de sabotagem marítima, disrupção energética, manipulação algorítmica, pressão financeira, ataques persistentes contra infraestruturas críticas ou fragmentação informacional orientada para degradar progressivamente a capacidade de reação das democracias ocidentais.

Quando esse momento chegar, o verdadeiro poder estratégico já não será definido apenas pela força militar de um Estado. Será definido pela sua capacidade de continuar funcional, resiliente e politicamente coeso enquanto tudo à sua volta tenta deixá-lo de o ser.

António Brás Monteiro,
Auditor de Defesa Nacional e Consultor de Defesa na Comissão Europeia

Artigos Relacionados