Opinião

O dinheiro anda de banco em banco

João Guerra

Os portugueses já não concentram o dinheiro numa única instituição bancária. Nos últimos anos, multiplicaram-se as contas bancárias e diversificaram-se as estratégias de gestão financeira.

A edição de 2026 do estudo da Nickel, em parceria com a DATA E, indica que a maior parte dos portugueses possui duas ou mais contas em diferentes bancos. O crescimento desta tendência pode refletir, principalmente, uma quebra de confiança, assim como uma insatisfação com os valores praticados.

A crise financeira alterou profundamente a relação dos portugueses com o sistema bancário. E a simples ideia de concentrar todas as poupanças em apenas uma instituição pode parecer ingénua, enquanto distribuir o dinheiro por diversas entidades surge, para muitos, como uma forma de proteção financeira.

Ao mesmo tempo, a ascensão da banca digital veio desmontar o conformismo de manter somente uma conta. Atualmente, a comparação entre instituições distintas tornou-se mais simples e imediata. Há apps que permitem abrir contas em minutos, transferir dinheiro sem custos e acompanhar despesas em tempo real. Quando um banco cobra valores excessivos por operações básicas, o cliente já não hesita em procurar alternativas. Aliás, segundo dados do Banco de Portugal de março de 2026, a adesão a contas bancárias de serviços mínimos aumentou 8% no ano passado, o que evidencia precisamente uma população mais atenta às despesas financeiras.

No entanto, este fenómeno está também associado a uma transformação dos hábitos culturais. Um banco pode servir para receber o salário, outro para investir, outro para viagens e outro ainda para gerir as despesas do casal. A relação com o dinheiro tornou-se mais fragmentada e funcional. Em vez de recorrer a um único banco, as diferentes entidades ocupam agora um papel específico na vida financeira de cada indivíduo. Esta transição aproxima o sistema bancário da lógica das plataformas digitais, onde o consumidor escolhe diferentes serviços consoante a necessidade do momento.

No fundo, esta fragmentação financeira pode representar um sinal positivo de maior literacia económica. Os portugueses continuam longe de apresentar níveis ideais de educação financeira, mas começam gradualmente a comparar produtos, a procurar melhores condições e a otimizar a gestão do seu dinheiro. Há uma consciência crescente de que pequenas diferenças em comissões ou serviços digitais podem traduzir-se em centenas de euros ao fim do ano.

Não obstante, possuir várias contas bancárias não significa necessariamente estabilidade financeira. Em muitos casos pode também revelar alguma ansiedade. Há quem distribua dinheiro por diferentes instituições por receio de falhas técnicas ou de novas crises financeiras. Depois de anos marcados por inflação elevada, aumento das taxas de juro e perda de poder de compra, os portugueses habituaram-se a viver num estado de cautela permanente. O dinheiro já não permanece estático; circula constantemente à procura de segurança.

Além disso, a digitalização acelerou uma mudança de mentalidade praticamente irreversível. Abrir ou fechar uma conta deixou de ser um processo burocrático para passar a ser uma operação realizada em minutos através de um telemóvel. Tal reduz significativamente a fidelização. Os bancos deixaram de competir apenas entre si e começaram a disputar clientes com fintechs e aplicações que oferecem experiências mais rápidas e intuitivas. Neste contexto, manter mais do que uma conta tornou-se uma consequência natural de um mercado cada vez mais competitivo.

Em síntese, esta tendência espelha o país em que Portugal se transformou após as últimas crises. Ter contas em entidades financeiras várias é uma estratégia que indica uma maior consciência financeira. O dinheiro anda de banco em banco e, talvez, seja precisamente essa combinação entre prudência e adaptação que esteja a influenciar a forma como os portugueses lidam com o seu património no século XXI.

João Guerra,
CEO Nickel Portugal

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