Opinião

As “Sete Magníficas” da Europa

João Lampreia

Enquanto o mercado norte-americano debate a concentração da capitalização bolsista nas “Sete Magníficas”, a Europa está a formar o seu próprio grupo de empresas comparável em termos de peso de mercado, cobertura setorial e relevância para o investimento. ASML, SAP, LVMH, Novo Nordisk, Siemens, TotalEnergies e UniCredit são sete empresas com uma capitalização bolsista combinada de biliões de euros, líderes globais nos seus setores. Os resultados do primeiro trimestre de 2026 mostram que os campeões europeus não estão apenas a sobreviver – estão a moldar tendências estruturais que vão muito além da Europa.

Perante esta heterogeneidade estrutural – que contrasta de forma clara com a narrativa tecnológica unificadora das “Sete Magníficas” norte-americanas – torna-se essencial perceber de que forma cada uma contribui para o reforço do peso europeu nos mercados globais e para a consolidação deste novo “núcleo duro” do capital europeu.

A ASML é uma peça central na cadeia global de semicondutores, sendo a única empresa capaz de produzir máquinas de litografia EUV usadas nos chips mais avançados para inteligência artificial. Nos três primeiros meses de 2026, registou vendas de cerca de 8,8 mil milhões de euros, com forte rentabilidade e margens elevadas. A empresa reforçou a previsão anual para 2026, esperando receitas entre 36 e 40 mil milhões de euros, e mantém uma perspetiva de longo prazo que aponta para crescimento contínuo até ao final da década, sustentado pela procura estrutural de chips para IA.

A SAP, líder mundial em software empresarial, continua a acelerar a transição para a cloud. No primeiro trimestre deste ano, apresentou receitas totais de cerca de 9,6 mil milhões de euros, com forte crescimento do negócio cloud, que atingiu aproximadamente 6 mil milhões. A perspetiva é de continuidade de crescimento acima do mercado, ainda que com possível desaceleração temporária no curto prazo devido a fatores pontuais e ao contexto geopolítico.

A LVMH, maior grupo de luxo do mundo, teve um início de ano mais fraco, com receitas de cerca de 19,1 mil milhões de euros no período em análise, representando uma ligeira queda face ao ano anterior. O principal impacto veio da divisão de moda e marroquinaria, afetada pela quebra do turismo e pela instabilidade no Médio Oriente. A empresa mantém, ainda assim, uma tese de longo prazo sólida, apoiada pela força das suas marcas, embora dependa da recuperação do consumo global e do turismo.

A Novo Nordisk continua a ser um dos grandes motores de crescimento no setor da saúde, impulsionada pelos medicamentos para diabetes e obesidade como Ozempic e Wegovy. No período inicial de 2026, as vendas atingiram cerca de 96,8 mil milhões de coroas dinamarquesas, com crescimento muito forte em volumes. No entanto, o crescimento das receitas foi pressionado pela descida de preços, refletindo uma fase inicial de maior competição no mercado. A empresa reviu ligeiramente em alta as suas previsões anuais, mas enfrenta o desafio de equilibrar expansão de volumes com erosão de preços.

A Siemens, gigante industrial alemã, apresentou no seu mais recente trimestre fiscal receitas de cerca de 19,1 mil milhões de euros, com crescimento sólido em todas as áreas principais, especialmente na automação e infraestrutura inteligente. A empresa mantém uma perspetiva de crescimento moderado para o ano, apoiada por aquisições estratégicas e pela integração crescente de software no seu portefólio industrial.

A TotalEnergies beneficiou de um ambiente energético favorável, tendo registado nos primeiros três meses deste ano lucros ajustados superiores a 5 mil milhões de dólares e receitas próximas dos 50 mil milhões. O desempenho foi impulsionado por preços elevados do petróleo e do gás, bem como pelo crescimento do negócio de LNG. A empresa continua a investir em energias renováveis, mas no curto prazo o desempenho permanece fortemente influenciado pelo ciclo das commodities e pela volatilidade geopolítica.

A UniCredit voltou a destacar-se como um dos bancos mais rentáveis da Europa, com lucro líquido de cerca de 3,2 mil milhões de euros no período em análise. As receitas totais ultrapassaram os 6,8 mil milhões, superando as expectativas do mercado. A rentabilidade continua muito acima da média do setor, com forte geração de capital e elevada eficiência operacional. A perspetiva anual foi revista em alta, reforçando a ideia de continuidade de resultados recorde.

Mas afinal, o que une estas “sete” europeias e o que as distingue das americanas?

As “Sete Magníficas” dos EUA estão unidas por uma narrativa única: inteligência artificial, plataformas e tecnologia. As europeias, por contraste, apresentam uma estrutura distinta, assente na diversificação setorial dentro de um mesmo grupo.

Existem, ainda assim, características estruturais comuns: todas são líderes globais incontestadas nos seus respetivos setores, geram fluxos de caixa livres sustentáveis e operam numa escala verdadeiramente global, e não apenas regional.

No entanto, os seus perfis de investimento diferem de forma significativa. A TotalEnergies beneficia de dinâmicas que penalizam a LVMH, como a pressão sobre o consumo em mercados-chave. A Novo Nordisk enfrenta pressão sobre preços no seu maior mercado, enquanto a UniCredit beneficia diretamente de um ciclo europeu de taxas de juro elevadas, que por sua vez penaliza outros setores. A ASML e a SAP são as únicas duas diretamente expostas ao ciclo de infraestrutura de inteligência artificial enquanto fornecedoras.

É precisamente esta heterogeneidade que sustenta uma abordagem de carteira para as “Big Seven” europeias: ao contrário da sua congénere norte-americana, onde uma quebra de sentimento em torno da IA afeta simultaneamente todas as empresas, a carteira europeia oferece uma diversificação setorial integrada – e é aí que reside a sua força.

As “Magnificent Seven” europeias não são apenas uma construção de marketing. São sete empresas globalmente competitivas, cada uma com uma posição dominante no seu setor, conforme evidenciado pelos resultados financeiros recentes. A ASML é um monopólio em EUV, a SAP é líder em ERP na cloud, a LVMH é o maior grupo de luxo do mundo, a Novo Nordisk é uma das protagonistas da revolução GLP-1, a Siemens é uma referência em tecnologia industrial, a TotalEnergies está entre as empresas de energia integrada mais rentáveis e a UniCredit destaca-se como um dos bancos de grande dimensão mais eficientes da zona euro em termos de RoTE.

Nenhuma delas substitui os gigantes tecnológicos norte-americanos. Mas, em conjunto, formam um caso de investimento cada vez mais difícil de ignorar: liderança europeia em setores onde os EUA não têm concorrentes equivalentes ou onde enfrentam desvantagens estruturais.

João Lampreia,
especialista de mercado na Freedom24

 

Fontes:

1.     ASML – Official Q1 2026 press release (€8.8 billion revenue, 53% margin, EPS €7.15, forecast €36–40 billion): https://www.asml.com/en/news/press-releases/2026/q1-2026-financial-results
2.     ASML – Form 6-K, SEC Filing Q1 2026 (full financial report, EUV production forecast): https://www.stocktitan.net/sec-filings/ASML/6-k-asml-holding-nv-current-report-foreign-issuer-728274d6f07a.html
SAP – Official Press Centre, Q1 2026 (backlog €21.9 billion +25%, cloud +27%, forecast €25.8–26.2 billion): https://news.sap.com/2026/04/sap-announces-q1-2026-results/
3.     SAP – Quarterly Statement Q1 2026 (SEC Form 6-K) (details of one-off effects, €10 billion buyback programme): https://www.prnewswire.com/news-releases/sap-quarterly-statement-q1-2026-302752280.html
4.     LVMH – Official Q1 2026 press release (revenue €19.1 billion, organic growth +1%, F&L -2%, Iran effect -1 p.p.): https://www.lvmh.com/en/publications/lvmh-continues-to-achieve-organic-growth-in-the-first-quarter-in-a-global-environment-impacted-by-the-conflict-in-the-middle-east
5.     Novo Nordisk – GlobeNewswire, Q1 2026 Results (6 May 2026) (sales DKK 96.8 billion, Wegovy 200k+ prescriptions/week, forecast revised): https://www.globenewswire.com/news-release/2026/05/06/3288491/0/en/novo-nordisk-s-adjusted-operating-profit-reached-dkk-32-858-million-in-q1-2026
6.     Novo Nordisk – Form 6-K, SEC Filing (forecast -4 to -12% CER, MFN programme, oral Wegovy): https://www.sec.gov/Archives/edgar/data/0000353278/000117184326000596/f6k_020326.htm
7.     Siemens – Official Press Centre, Q1 FY2026 (orders €21.4 billion, Smart Infrastructure record €7.2 billion, DI profit +37%): https://press.siemens.com/global/en/pressrelease/strong-start-fiscal-2026-outlook-raised
8.     Siemens – FY2026 Full-Year Forecast (EPS pre-PPA €10.40–11.00, revenue growth 6–8%, ONE Tech Company): https://press.siemens.com/global/en/pressrelease/siemens-enters-next-stage-growth-its-one-tech-company-program
9.     TotalEnergies – Business Wire, Q1 2026 Results (adjusted profit $5.4 billion, CFFO $8.6 billion, Mozambique LNG €20 billion, renewables 35.6 GW): https://www.businesswire.com/news/home/20260428950662/en/TotalEnergies-SE-First-Quarter-2026-Results
10.   UniCredit – Official Q1 2026 press release ‘Unlimited off to a Flying Start’ (profit €3.22 billion, forecast ≥€11 billion, Commerzbank bid): https://www.unicreditgroup.eu/en/press-media/press-releases-price-sensitive/2026/may/unicredit–1q26-group-results—unlimited-off-to-a-flying-start.html
11.   UniCredit – Q1 2026 Investor Slides (RoTE 26%, C/I 33.4%, P/E discount 8.9x vs. 9.9x sector, EPS CAGR +16%): https://uk.investing.com/news/company-news/unicredit-q1-2026-slides-record-profit-caps-21st-consecutive-growth-quarter-93CH-4649407

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