Morreu Ted Turner, o homem que mudou para sempre as notícias na televisão

Ted Turner faleceu esta quarta-feira, aos 87 anos de idade. O magnata, cujas iniciativas passaram pela criação de organizações ligadas à redução da ameaça nuclear e pela propriedade de várias equipas desportivas de Atlanta, ficou sobretudo conhecido por ter fundado a CNN em 1980, o primeiro canal de notícias por cabo com emissão contínua 24…
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Ted Turner, magnata dos media e fundador da CNN, morreu esta quarta-feira aos 87 anos. A Forbes estimava que o empresário tinha uma fortuna de 2,8 mil milhões de dólares (cerca de 2,4 mil milhões de euros) no momento da sua morte.
Líderes

Ted Turner faleceu esta quarta-feira, aos 87 anos de idade. O magnata, cujas iniciativas passaram pela criação de organizações ligadas à redução da ameaça nuclear e pela propriedade de várias equipas desportivas de Atlanta, ficou sobretudo conhecido por ter fundado a CNN em 1980, o primeiro canal de notícias por cabo com emissão contínua 24 horas por dia.

A abordagem permanente à informação, que Turner considerava a sua “maior conquista”, transformou profundamente o panorama televisivo. Segundo vários relatos, o empresário declarou no lançamento da CNN que o canal “não iria desligar até o mundo acabar”.

Mark Thompson, presidente e CEO da CNN, homenageou Turner numa declaração divulgada esta quarta-feira, descrevendo-o como o “espírito orientador da CNN” e um líder “intensamente envolvido e comprometido, intrépido, destemido e sempre disposto a seguir a sua intuição e confiar no próprio julgamento”.

Turner morreu como a 1.518.ª pessoa mais rica do mundo, embora durante décadas tenha integrado a lista Forbes 400 das maiores fortunas dos Estados Unidos. A sua riqueza sofreu uma forte queda após a fusão entre a Time Warner e a AOL em 2001, que levou a uma desvalorização significativa das ações da empresa, cinco anos depois de Turner ter vendido a Turner Broadcasting à Time Warner.

Foto: CNN

Conhecido pelo apelido “Mouth of the South” devido à sua personalidade direta e provocadora, Turner disse anteriormente à Forbes, depois de sair da Time Warner, que iria dedicar “a maior parte do meu tempo a tentar salvar o mundo”, envolvendo-se em causas filantrópicas como a proteção de espécies ameaçadas, a oposição à guerra nuclear e uma doação de mil milhões de dólares (cerca de 849 milhões de euros) para criar a United Nations Foundation.

Ted Turner teve cinco filhos e foi casado três vezes, incluindo uma relação de dez anos com a atriz Jane Fonda, que afirmou em 2018 que “nunca voltarei a amar alguém como o amei”.

Donald Trump reagiu à morte de Turner numa publicação na Truth Social, descrevendo-o como “um dos grandes nomes da história da televisão” e “um amigo meu”. O Presidente norte-americano criticou ainda a CNN, classificando-a como “woke” e afirmando que o canal se transformou em “tudo aquilo que [Turner] não representava”.

Fortuna de Turner era de 2,8 mil milhões de dólares (2,4 mil milhões de euros) no momento da sua morte.

A Forbes estimava a fortuna de Turner em 2,8 mil milhões de dólares (2,4 mil milhões de euros) no momento da sua morte. O empresário chegou a possuir uma fortuna bastante superior: na lista de multimilionários da Forbes de 2001 ocupava a 35.ª posição, com um património estimado em 8,8 mil milhões de dólares (7,5 mil milhões de euros). No entanto, após a fusão Time Warner-AOL e os problemas subsequentes, a sua fortuna caiu abruptamente.

Segundo a Forbes, o valor da participação de Turner na Time Warner caiu 80% depois da fusão se revelar desastrosa e de um conflito com Gerald Levin, então CEO da empresa, levar à sua despromoção para responsável pelas redes de televisão por cabo.

À data da sua morte, Turner era também o terceiro maior proprietário privado de terras dos Estados Unidos, com cerca de 800 mil hectares distribuídos pelos estados do Kansas, Montana, Nebraska, Dakota do Sul e Novo México.

Rivalidade com Rupert Murdoch

O magnata da televisão era conhecido pela sua personalidade polémica e pelos apelidos “The Mouth of the South” e “Captain Outrageous”. Manteve durante anos uma rivalidade pública com Rupert Murdoch, fundador da News Corp, cuja Fox News se tornou uma das principais concorrentes da CNN.

Em 1983, durante uma regata, um iate financiado por Murdoch colidiu com o de Turner, fazendo afundar a embarcação do fundador da CNN. Segundo relatos da época, Turner desafiou Murdoch para um combate físico. Mais tarde, prometeu “esmagar” Murdoch com a fusão Time Warner-AOL, operação que acabaria por ter um desfecho desastroso.

Numa entrevista à Forbes em 2011, Turner ironizou com o escândalo de escutas telefónicas que envolveu a News Corp e levou ao encerramento do tabloide News of the World. “A minha carreira na televisão e nos media acabou, mas nós não escutámos telefones nem nada parecido. Limitámo-nos a cumprir as regras”, afirmou.

Rupert Murdoch, com quem Turner afirmou ter feito as pazes numa entrevista em 2019, prestou homenagem ao antigo rival esta quarta-feira, descrevendo-o como “um pioneiro”, “um grande americano” e “um amigo”.

“Ted Turner transformou a indústria dos media com a sua visão para um canal de notícias por cabo disponível 24 horas por dia e deu aos espectadores de todo o mundo um lugar na primeira fila para assistir à História”, afirmou Murdoch.

Filantropia e ativismo

Depois de se afastar da gestão dos media, Turner dedicou-se sobretudo à filantropia e ao ativismo. Em 2001, cofundou a Nuclear Threat Initiative com o antigo senador Sam Nunn, organização focada na redução das ameaças nucleares globais.

Entre outros projetos, criou ainda o Turner Endangered Species Fund, dedicado à preservação de espécies protegidas, e a Turner Enterprises, responsável pela gestão das vastas propriedades do empresário e de mais de 45 mil bisontes que ali vivem.

Declarações polémicas

Turner protagonizou também várias declarações polémicas ao longo da vida, incluindo críticas aos opositores do aborto e defesa da política chinesa do filho único como forma de combater a sobrepopulação.

Depois de perder milhares de milhões de dólares com a fusão Time Warner-AOL, Turner comentou em tom irónico à Forbes, em 2011: “Consegue-se viver com 2 mil milhões de dólares”, acrescentando que pretendia concentrar-se em atividades filantrópicas.

Ao falar sobre a sua dedicação à conservação ambiental, afirmou ainda: “Gosto dos elefantes, dos gorilas e de tudo o resto. Mas tenho de admitir que, se tivesse de escolher uma espécie, escolheria as mulheres.”

David Zaslav, CEO da Warner Bros. Discovery, empresa-mãe da CNN, descreveu Turner numa comunicação interna como “um visionário, um pioneiro e uma força fundamental por detrás de muitas das marcas centrais da Warner Bros. Discovery”.

Wolf Blitzer, apresentador da CNN, anunciou a morte de Turner em direto: “Estamos todos aqui a fazer isto por causa do Ted”, afirmou, chamando-lhe uma “lenda” que “revolucionou o negócio da televisão”.

Ted Turner fundou a CNN porque considerava que os norte-americanos estavam “muito mal informados”, escreveu a jornalista Lisa Napoli num livro sobre a criação do canal. O empresário contou várias vezes que trabalhava até às 19h00 e, quando chegava a casa, os telejornais já tinham terminado, concluindo que “devia haver muitas pessoas como eu” que acabavam por perder completamente as notícias televisivas.

Texto original aqui. Artigo traduzido e editado por Paulo Marmé.

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