O grupo Saint-Gobain tem apostado na construção sustentável, através da qual concebe, fabrica e distribui materiais e serviços adaptados aos mercados residencial, não residencial e de infraestruturas. Recentemente a Saint-Gobain Portugal nomeou a gestora francesa Magali Gagliano para o cargo de diretora de construção industrializada com a missão de acelerar a transformação do setor promovendo soluções que aumentem a produtividade, reduzam o impacto ambiental e melhorem o desempenho dos edifícios. Em entrevista à Forbes Portugal, Magali Gagliano explica que a construção industrializada permite ganhos de eficiência ao nível dos prazos de execução, da previsibilidade dos custos e da qualidade final das soluções. Além de, ao se transferir parte significativa do processo construtivo para ambiente industrial, reduz-se a dependência de mão de obra intensiva em obra e minimizam-se desperdícios.
Com base nesta aposta da casa-mãe, a também diretora de relações e projetos institucionais da Saint-Gobain, sublinha que Portugal afirma-se como um território propício ao desenvolvimento de soluções, com um espírito conquistador e uma capacidade crescente para atrair, estruturar e concretizar projetos inovadores.
Num setor onde ainda predomina o sexo masculino, Magali Gagliano defende que esta realidade permitiu-lhe reforçar a convicção de que a diversidade de género, é um verdadeiro ativo estratégico para as organizações.
Assume a liderança da área de Construção Industrializada em Portugal num momento crítico para o setor. Que prioridades estratégicas definiu para esta nova fase?
A prioridade passa por acelerar a transformação do setor através da construção industrializada, ao promover soluções que aumentem a produtividade, reduzam o impacto ambiental e melhorem o desempenho global dos edifícios. Esta abordagem está alinhada com a estratégia global do grupo Saint-Gobain, que posiciona a sustentabilidade e a inovação no centro da atividade. Em Portugal, o foco está também no reforço da articulação entre indústria, decisores públicos e restantes agentes do setor, de forma a potenciar a adoção de modelos construtivos mais eficientes e escaláveis.
A construção industrializada é frequentemente apontada como resposta à crise da habitação. Até que ponto pode acelerar prazos, reduzir custos e aumentar a escala da oferta?
A construção industrializada permite ganhos claros de eficiência ao nível dos prazos de execução, da previsibilidade dos custos e da qualidade final das soluções. Ao transferir parte significativa do processo construtivo para ambiente industrial, reduz-se a dependência de mão de obra intensiva em obra e minimizam-se desperdícios. Esta abordagem contribui para uma maior capacidade de resposta à procura, sendo particularmente relevante num contexto de pressão sobre a habitação.
Portugal está preparado ao nível de regulamentação, cadeia de valor e mentalidade do mercado para uma transição para modelos mais industrializados?
Portugal apresenta condições favoráveis, mas esta transição exige uma evolução conjunta da regulamentação, da cadeia de valor e da cultura do setor. A crescente pressão para melhorar a eficiência energética, reduzir emissões e aumentar a produtividade está a acelerar essa mudança. Daí a colaboração entre indústria e entidades públicas já é e será cada vez mais determinante para criar um enquadramento que facilite a adoção destes modelos.
Em termos de produção, quais as infraestruturas é que estão sob a alçada da filial portuguesa?
O grupo conta em Portugal com mais de 800 colaboradores, 12 empresas, oito unidades industriais e um centro de I&D em Aveiro, reforçando a sua capacidade produtiva e de inovação. Esta presença permite apoiar o mercado nacional e integrar Portugal na rede industrial e tecnológica do grupo.
A pressão para cumprir metas climáticas europeias está a transformar profundamente o setor. A sustentabilidade é hoje uma obrigação ou já um fator de competitividade?
A sustentabilidade é tanto uma obrigação regulatória, como um fator de competitividade, sendo hoje claro que a capacidade de desenvolver soluções com menor pegada de carbono, maior eficiência energética e melhor desempenho ao longo do ciclo de vida dos edifícios constitui uma vantagem competitiva clara. A Saint-Gobain tem reforçado esta posição através de uma oferta diferenciada de soluções sustentáveis e de baixo carbono, integrada na sua estratégia global.
O seu novo papel inclui também a vertente institucional. Que tipo de articulação é hoje necessária entre indústria, Estado e municípios para desbloquear investimento e acelerar projetos?
É fundamental reforçar a cooperação entre os diferentes agentes para garantir maior previsibilidade, simplificação de processos e alinhamento com objetivos de sustentabilidade. A articulação institucional deve permitir acelerar decisões, promover inovação e viabilizar projetos estruturantes, nomeadamente nas áreas da habitação, infraestruturas e reabilitação urbana.
Num contexto de escassez de mão de obra e necessidade de maior produtividade, que papel terão a inovação e a industrialização na redefinição do setor da construção?
A inovação e a industrialização são fatores críticos para responder aos desafios estruturais do setor. A adoção de soluções industrializadas permite reduzir a dependência de mão de obra intensiva, aumentar a produtividade e melhorar a qualidade e segurança em obra. Este movimento está alinhado com a estratégia do grupo de desenvolver soluções integradas e eficientes.
Tendo desenvolvido grande parte da sua carreira em França, que diferenças e oportunidades identifica no mercado português?
Tendo desenvolvido a maior parte do meu percurso em França, um dos aspetos que mais me marcou ao chegar a Portugal foi a proximidade entre os diferentes intervenientes do setor. Existe uma relação mais direta entre indústria, projetistas, promotores e entidades públicas, que ainda precisamos de consolidar para antecipar, acelerar e facilitar a partilha de conhecimento e permite uma compreensão mais aprofundada dos desafios de cada projeto. Esta proximidade pode constituir um fator diferenciador, na medida em que favorece a construção de soluções mais integradas e ajustadas à realidade do mercado. Por outro lado, encontrei também um elevado nível de exigência, que impulsiona todos os agentes a envolverem-se ativamente e contribui para a qualidade global das soluções desenvolvidas. Trata-se de um mercado dinâmico, com capacidade de adaptação e abertura à inovação, ainda que, por vezes, com processos que podem apresentar alguma complexidade. Ainda assim, essa mesma capacidade de adaptação permite fazer avançar projetos de forma eficaz e consistente.
Portugal pode funcionar como laboratório de soluções inovadoras para a Europa?
Portugal afirma-se como um território propício ao desenvolvimento de soluções, com um espírito conquistador e uma capacidade crescente para atrair, estruturar e concretizar projetos inovadores, assumindo-se como um contexto particularmente favorável à experimentação e implementação de novas abordagens com potencial de escala. Num setor em transformação, esta combinação de colaboração, exigência e pragmatismo representa uma clara vantagem competitiva.
A sua nomeação acontece num setor ainda muito masculino. Como tem sido a sua experiência de liderança e que mudanças considera essenciais para tornar a indústria mais diversa e inclusiva?
Trabalhar num setor tradicionalmente masculino permitiu-me reforçar a convicção de que a diversidade, em particular a diversidade de género, é um verdadeiro ativo estratégico para as organizações. Equipas mais diversas integram diferentes perspetivas, o que enriquece a análise, melhora a complementaridade e potencia a inovação, aspetos fundamentais num setor que enfrenta desafios tão exigentes como a transição sustentável e a industrialização. Na minha experiência, não encontrei obstáculos específicos associados ao género. O desempenho, o rigor e a qualidade da colaboração são determinantes e criam um ambiente onde cada profissional pode contribuir de forma plena. No entanto, é essencial continuar a promover uma cultura que valorize o mérito e a competência, garantindo igualdade de oportunidades e incentivando percursos profissionais diversos. Para tornar a indústria mais inclusiva, é importante atuar em várias dimensões: dar visibilidade a referências femininas, incentivar a entrada de novos perfis no setor e demonstrar que áreas como a engenharia, a indústria ou a construção oferecem oportunidades de desenvolvimento e liderança acessíveis a todos.
Em termos gerais, qual a estratégia que a Saint-Gobain tem implementada em Portugal?
A Saint-Gobain está a implementar em Portugal a estratégia Lead & Grow (2026-2030), que reforça o posicionamento como empresa de soluções integradas para a construção e reabilitação. Esta abordagem permite cobrir de forma articulada áreas como fachadas, isolamento, divisórias, tetos, pavimentos e químicos para construção, respondendo a diferentes segmentos, do residencial às infraestruturas. Existe uma forte aposta na inovação, aliada a um foco claro na viabilidade económica, assegurando o desenvolvimento de soluções que conciliem desempenho técnico e sustentabilidade com uma execução realista, eficiente e ajustada ao mercado. É importante reforçar que a inovação, incluindo a inovação sustentável, deve estar sempre associada à viabilidade económica, ao garantir que as soluções desenvolvidas são não apenas tecnicamente avançadas, mas também aplicáveis, escaláveis e capazes de gerar impacto real no mercado.
Quais os desafios que enfrentam no desenvolvimento do negócio em Portugal?
Os principais desafios estão relacionados com o contexto macroeconómico, a necessidade de aumentar a produtividade do setor, a escassez de mão de obra e a exigência crescente em matéria de sustentabilidade. A adaptação a estas dinâmicas exige inovação contínua, proximidade ao mercado e capacidade de desenvolver soluções que respondam simultaneamente a critérios técnicos, ambientais e económicos.
Como têm evoluído os indicadores financeiros em Portugal?
A Saint-Gobain não faz divulgação pública detalhada de resultados por país. No entanto, a operação em Portugal integra-se no desempenho global do grupo que, em 2025, registou vendas de 46,5 mil milhões de euros, com crescimento de vendas de 2,1% em moeda local e um resultado operacional de 5,3 mil milhões de euros, refletindo a solidez do modelo de negócio e a relevância da estratégia de soluções integradas. Em 2025, a Saint-Gobain demonstrou mais uma vez a força do seu posicionamento estratégico como líder mundial em construção leve e sustentável e voltou a apresentar um sólido desempenho operacional graças ao seu modelo organizacional descentralizado por país, particularmente bem-adaptado ao atual contexto global. Olhando para 2026, abrimos um novo capítulo atrativo de crescimento e desempenho superior impulsionado pelo “Lead & Grow”, o nosso novo plano estratégico para 2026-2030, que aprofunda a nossa oferta de soluções e acelera o nosso crescimento nas áreas de infraestruturas e não residencial. Vamos continuar a otimizar o nosso perfil, com uma rotação de ativos que representará mais de 20% das vendas, investindo em regiões de elevado crescimento e reforçando ainda mais as nossas posições nos químicos para construção.





