Empresas sediadas nos Estados Unidos anunciaram 83.387 cortes de postos de trabalho (layoffs) em abril, um aumento de 38% face aos despedimentos registados em março, segundo novos dados da empresa de serviços de carreira Challenger, Gray & Christmas.
Desses cortes, 26%, o equivalente a 21.490 postos de trabalho, foram atribuídos à inteligência artificial (IA), tornando a IA o principal motivo apontado para despedimentos pelo segundo mês consecutivo e a terceira principal causa de planos de redução de pessoal no acumulado do ano.
E, numa altura em que empresas como a Coinbase, Meta e Oracle eliminam milhares de empregos em nome da IA, alguns CEO e especialistas do setor tecnológico afirmam acreditar que as empresas estão a usar essa justificação para esconder outros problemas internos.
Jason Droege, CEO da empresa de infraestruturas de IA Scale AI, afirmou no mês passado que alguns CEO estão a esconder-se atrás da “desculpa” da IA para reduzir quadros de pessoal e fazer cortes que, de outra forma, seriam vistos apenas como um ajuste normal de dimensão das equipas.
Sam Altman acusou, no início deste ano, várias empresas de estarem a fazer “AI washing” dos despedimentos, culpando a IA por cortes que “fariam de qualquer maneira”.
Numa entrevista à Business Insider, Torsten Slok, economista-chefe da Apollo, admitiu que “é perfeitamente possível que empresas com fraco desempenho estejam a atirar a IA para debaixo do autocarro… procurando escapar à responsabilização”.
Especialistas do mercado de trabalho alertam há vários anos para o impacto da IA no emprego e para a possibilidade de redução das equipas. O multimilionário Dario Amodei, fundador e CEO da Anthropic, acusou empresas de IA e responsáveis governamentais de “adoçarem” a realidade de que despedimentos em massa poderão estar a caminho.
Também o multimilionário Jack Dorsey afirmou que os cortes na sua empresa, a Block, tiveram como objetivo integrar IA em equipas mais pequenas e rápidas. Já Brian Armstrong, CEO da plataforma de criptomoedas Coinbase, explicou que a empresa reduziu equipas para, em alguns casos, apenas uma pessoa, que passará a desempenhar o trabalho anteriormente realizado por vários colaboradores com a ajuda de agentes de IA.
Nos últimos meses, vários CEO tecnológicos têm alertado que cargos de gestão intermédia e funções de escritório poderão ser os mais vulneráveis nesta nova vaga de adoção da IA. Uma sondagem recente mostrou ainda que um terço da população teme despedimentos significativos devido à substituição de funções por inteligência artificial.
Outros defendem, contudo, que os trabalhadores que adotarem ferramentas de IA não terão razões para preocupação. Morgan Frank, professor da Universidade de Stanford, publicou este ano um estudo que concluiu que muitos dos empregos atualmente apontados para substituição por IA já estavam em risco antes da explosão desta tecnologia.
Marc Benioff, CEO da Salesforce, afirmou que a empresa está a contratar 1.000 recém-licenciados e estagiários para “surfar a exponencial da IA”.
O Gabinete do Censo dos Estados Unidos estima que empresas localizadas em zonas fortemente ligadas ao setor tecnológico, como São Francisco, Boston e Seattle, estão a utilizar IA a um ritmo muito superior ao do resto do país.
Segundo a Challenger, o setor tecnológico anunciou 33.361 despedimentos em abril, totalizando 85.411 cortes desde o início do ano, um aumento de 33% face ao mesmo período do ano passado. Trata-se do número mais elevado de despedimentos tecnológicos acumulados no ano dos últimos anos.
No total do ano, as condições económicas e de mercado continuam a ser a razão mais apontada para os despedimentos, seguidas pelo encerramento de operações, pela inteligência artificial e por processos de reestruturação.
Texto original aqui. Artigo traduzido e editado por Paulo Marmé.





