Ruth Manus: “A realidade é que o mundo liderado por homens não deu certo”

Por influência positiva dos pais, como descreve, escolheu a área do Direito, mas sempre com o objetivo de a conciliar com o ensino. A escrita surgiu mais tarde, um pouco por acaso. Ruth Manus começou por escrever para o Estadão e, depois de uma mudança para Portugal, foi também colonista do Observador. Pelo caminho surgiram…
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Mãe, madrasta, advogada, escritora e feminista. Através dos seus quatro livros, fazemos uma viagem com Ruth Manus entre Portugal, a igualdade de género e a maternidade.
Forbes Women

Por influência positiva dos pais, como descreve, escolheu a área do Direito, mas sempre com o objetivo de a conciliar com o ensino. A escrita surgiu mais tarde, um pouco por acaso. Ruth Manus começou por escrever para o Estadão e, depois de uma mudança para Portugal, foi também colonista do Observador. Pelo caminho surgiram os livros, que são já quatro publicados em Portugal.

Hoje, já a dedicar menos tempo ao Direito e mais à escrita e às palestras, é uma das vozes mais sonantes quando os temas são igualdade de género, diversidade ou maternidade. Numa altura em que lança o seu mais recente trabalho – “Ter ou não ter filhos?” – a Forbes Portugal falou com Ruth para fazermos uma viagem pelos livros que já publicou.

Porquê o Direito e não a área da educação?
Inevitavelmente tive uma influência positiva dos meus pais. Não no sentido de alguma forma de pressão, eles nunca fizeram questão disso, mas acho que eu tinha uma sede muito grande por coisas que eu visse como possibilidade de mudança. O Direito tem essa coisa de dar ferramentas para se ter a sensação de ir em busca de um mundo melhor, de um mundo mais justo, aquela coisa bem idealista do jovem. Que acaba por ser frustrante em muitas camadas. Hoje, por exemplo, eu acho que consigo construir um mundo muito melhor com a literatura e com as palestras do que com a minha carteira de advogada, mas foi necessário nesse percurso.

Em que momento decide que quer escrever um livro?
Não decidi, isso foi uma grande questão. Quando estreei no Estadão quebrei todos os números de acesso que existiam na história do jornal e de vários jornais do Brasil, e isso é uma parte muito interessante da história, até pensando na perspetiva de género. Num primeiro momento o jornal tratou isso como um erro de algoritmo, disseram-me: não sabemos o que aconteceu. Mas sabiam que eu estava assustada também, entre haters, fãs e redes sociais, de repente isso foi uma loucura. Eu também não estava à procura de fama, sucesso, isso nunca foi uma intenção. O que aconteceu foi que depois de dois meses eu bati o mesmo número de novo, e aí eles começaram a perceber um padrão. Até hoje eu não sei explicar exatamente porque é que isso acontece, porque eu também tive números muito altos no Observador, acho que é talvez falar de um jeito que as pessoas entendem, de sentir do mesmo jeito que as pessoas sentem, e é muito estranho que isso faça tanto sucesso, porque acho que muitas vezes as pessoas, principalmente cronistas, querem fazer o bonito. Eu nunca tive nenhuma intenção de ser finalista de prémios, sempre escrevi talvez do jeito mais fácil, mais relacionável para as pessoas. Talvez seja isso. Menos de dois meses depois da minha estreia no Estadão, eu ainda morava no Brasil, mas por acaso eu estava em Portugal, na Praça dos Restauradores, recebi uma chamada de uma editora no Brasil a querer um livro. Foi um susto. E aqui aconteceu a mesma coisa: um pouco depois da minha estreia no Observador, recebi uma chamada de uma editora. Eu brinco que foi tudo muito acidental. Hoje tenho muita intenção, muito propósito, mas foi uma carreira de grandes sustos.

Os temas que escrevia para as colunas do Estadão e do Observador estavam planeados desde o início ou iam surgindo semanalmente?
No geral, eram coisas que iam surgindo. Primeiro porque, quando eu começo a escrever, não tinha uma linha. A minha linha era o Direito e não era isso que o jornal queria. Eu começo a perceber que a minha ideia era o quotidiano, as relações, as pessoas. Claro que tendo em conta um pouco as questões jurídicas, pela minha visão do direito internacional, do direito do trabalho. Era um desafio, lembro-me de uma época em que tinha de escrever três colunas por semana: uma para o Estadão Blog, uma para o Estadão impresso e uma para o Observador. Isso quando não tinha mais algum. Tinha alturas em que a cabeça saturava. Tinha um grande amigo que morava perto, eu estava no doutoramento e ele no mestrado, eu ligava-lhe e dizia: Gui, vamos almoçar porque eu preciso de conversar com pessoas inteligentes para pensar em coisas. Almoçávamos ali numa tasquinha perto do Marquês. Acho que mais para frente eu fui entendendo uma linha, fui entendendo melhor a minha relação com as questões de género, mas levou tempo.

Houve algum texto que tenha tido um impacto maior, seja por motivo que for?
Acho que há dois, pensando na minha história no Observador. O primeiro foi aquele sobre as coisas que o mundo inteiro deveria aprender com Portugal. Quase tudo o que eu escrevi foi de forma muito despretensiosa, acho que não nos habituamos ao alcance, então escrevo sempre a achar que meia dúzia de pessoas vão ler. Esse texto teve um impacto muito curioso e foi numa fase em que Portugal ainda não vivia esta exposição, neste grau de intensidade, e foi muito bem recebido. Foi por causa desse texto que a primeira editora me contactou aqui. E depois o “Mulheres Não São Chatas, Mulheres Estão Exaustas”, que hoje é livro, mas começou como um texto que eu escrevi no Observador e que também foi viral.

E as reações foram sempre positivas?
Não, há sempre muita crítica e a crítica é normal, faz parte. Há gente que faz critica com garfo e faca e há gente que é monstrengo, que são os haters. E há pessoas que vão discordar com alguma educação, e ainda com educação, muitas com base e outras sem nenhuma base. E quando falamos especialmente sobre género, acho que temos um ponto muito importante: o número de pessoas que discordam porque discordam, mas que nunca leram um livro para saber o que é feminismo, nunca pesquisaram minimamente para entender do que estão a falar, é muito grande. Então, a crítica que vem com base interessa-me, a crítica que vem de um lugar vazio, essa eu deixo passar.

Em 2018, lançou o “Modéstia à Parte”. Como é que foi o processo de criação desse livro?
Esse livro foi muito gostoso de escrever. Tem algumas crónicas que estavam no Observador, algumas que estavam no Estadão, tem inéditos. Acho que foi um período de encantamento que eu tive com Portugal. Ainda tenho, mas acho que são duas fases. Quando eu chego, tenho um período de grande encantamento. Depois, como todas as relações há um certo desgaste do tempo. Toda a gente diz que é bonito morar fora, mas ser imigrante não tem graça nenhuma. Depois quando eu volto para o Brasil e passo a ter a relação que eu tenho com Portugal hoje, em que eu venho, passo uma temporada, faço alguns trabalhos, volta a ser um pouco essa relação de encantamento. Mas acho que esse olhar que está nesse livro é um olhar de quem chega e é surpreendido com muitas coisas fantásticas que há aqui.

Se tivesse de escolher apenas uma coisa, o que é que o mundo inteiro deveria aprender com Portugal?
Acho que a coisa mais bonita que Portugal tem é a conexão com a terra e com as raízes. Não estou a falar da raiz ancestral, do apelido, da raça, no pior estilo extrema-direita, estou a falar de uma conexão bonita com a memória e que tem muito a ver com a terra. Eu brinco que aqui as comidas têm GPS, é a maçã de Alcobaça, a laranja do Algarve, o porco alentejano. Isso é muito bonito, porque as pessoas têm uma noção muito melhor sobre alimentação, sobre agricultura, sobre as regiões. Mesmo a história, as pessoas sabem o que aconteceu na Quinta das Lágrimas, por exemplo. Eu acho isso muito bonito e acho que isso está intimamente ligado com datas como o 25 de abril, por exemplo. São datas de memória, são datas de história, são datas de não deixar passar. Eu lamento sempre o facto de o Brasil não ter uma data para comemorar o fim da ditadura. E talvez por isso exista um flirt tão intenso com a relativização da democracia. Não que isso não esteja a acontecer aqui. E eu avisei, faz tempo que eu saí do Observador, mas eu escrevi um texto sobre ter cuidado com a figura de André Ventura, que essas criaturas florescem quando achamos que não há espaço para florescerem em países de gentes que esperamos inteligentes e sensíveis.

Por outro lado, o que é que considera que é urgente que Portugal aprenda hoje em dia?
Acho que Portugal precisa entender que não é superior a nenhum imigrante de países pobres. Porque Portugal recebe muito bem o imigrante francês, o imigrante alemão, o imigrante britânico. O Algarve que o diga. Historicamente isso nunca foi um problema. E eu arrisco dizer que se houvesse um aumento dessas imigrações, Portugal não ia ter o medo de perder a sua identidade. Mas quando essa imigração vem de países que são ex-colónias, como o Brasil, Angola, Moçambique, ou de países de situação económica mais frágil, isso parece que se torna uma ameaça. E falo mesmo de pessoas que são pessoas com estudos, pessoas gentis muitas vezes, mas que nunca tiveram medo de perder a sua identidade quando os britânicos estão a encher o Algarve de pubs, ninguém nunca se incomodou com isso. De repente, quando há um samba muito mais simpático aqui, ou quando há chamuças deliciosas, parece que isso é uma ameaça. É necessário refletir um pouco sobre o papel fundamental da imigração, que sabemos que é fundamental, tanto para os índices de natalidade, quanto para a mão de obra, quanto para o serviço, e refletir que relação se tem com esse imigrante que não é europeu.

Depois publica o “Mulheres não são chatas, mulheres estão exaustas”. Como é que explica este título às pessoas que insistem em não entendê-lo?
As pessoas que não entendem fazem isso de forma propositada. Acho que qualquer mulher entende esse título, mesmo que ela não se julgue feminista, mesmo que ela não seja mãe, mesmo que ela não trabalhe fora de casa, todas essas estão exaustas. Algumas exaustas por causa de uma carga de trabalho doméstico, outras por causa de uma carga de trabalho profissional, outras por causa de um cansaço de viver com medo, outras cansadas de procurar parceiros e encontrar capivaras. Todas estamos cansadas por razões diferentes, mas, de um modo geral, pela sobrecarga da dupla jornada. Geralmente, quem diz que não entende esse título são homens, e são homens que fazem questão de não entender. Porque se eles entenderem, são obrigados a fazer uma autocrítica de: porque é que as mulheres que me cercam estão cansadas? Porque é que a minha companheira está cansada? Porque é que a minha mãe está cansada? Aminha colega de trabalho, para quem eu passo tudo aquilo que a gente chama de tarefa doméstica do escritório, do tipo, envia-me o link da reunião, cria uma reunião porque eu não sei criar, faz a ata. Ele começa a ser confrontado com: estas mulheres estão sobrecarregadas por uma razão e essa razão sou eu. Então, acho que quem nega isso é porque está na negação da autocrítica e do seu papel na injustiça.

A Ruth sempre foi feminista?
Eu acho que sempre fui. Como muitas mulheres, demorei um tempo para entender o que era o feminismo e a afirmar-me dessa forma. Acho que já passaram muitos anos desde que isso aconteceu, mas acho que sim, se pensarmos no feminismo como busca de igualdade e busca de liberdade de decisão para as mulheres, acho muito difícil encontrarmos uma mulher que não seja feminista. Mesmo que elas sejam ultraconservadoras, elas gostam de poder dizer as opiniões conservadoras delas em voz alta e elas só podem fazer isso por causa do feminismo, elas gostam de poder votar na extrema-direita e elas só podem fazer isso por causa do feminismo, elas gostam de poder ter uma medida de proteção se o marido delas for violento e só temos isso por causa do feminismo. Então, mesmo as que não gostam, gostam.

Como é que olha para esta tendência antifeminista, que não é nova, mas que pelo menos em Portugal está ganhando muita força nos últimos anos?
A democracia é cíclica e, quando há muita emancipação, quando muitas conquistas sociais vão sendo alcançadas, quando todo esse processo acontece, é natural que surja algum tipo de reação. Historicamente, vemos isso. Acho que o que acontece é que as mulheres tiveram conquistas muito significativas nas últimas décadas, e o sistema precisa, de certa forma, travar isso, porque senão os homens que ocupam posições de privilégio vão ter de relativizar esses privilégios. E eles não querem fazê-lo. E são esses homens que financiam o conteúdo “Red Pill”, que financiam uma série de desinformação que circula nas redes sociais. Podemos ver isso com muita facilidade, por exemplo, nos Estados Unidos: o que é o projeto de desmantelamento das políticas de diversidade do governo de Trump, a relação, por exemplo, da Meta com esse governo, e o que é que chega ao nosso algoritmo. Não se trata de paranoia ou especulação, é algo declarado. Assim, para que homens como esses, que estão no governo norte-americano, consigam proteger aquilo que têm em termos de estrutura financeira e política, precisam de financiar esse tipo de conteúdo antifeminista, para que pessoas menos informadas o consumam sem saberem o que estão, de facto, a financiar.

No terceiro livro, o “Guia Prático Antimachismo”, a Ruth realça que não se trata de um livro contra os homens. O mesmo acontece em relação à palavra feminismo, que não é uma questão de superioridade, é uma questão de igualdade, apesar de muitos quererem ignorá-lo. O que é que acha que assusta tantas pessoas nesta palavra: feminismo?
Lamento um pouco a forma como essa expressão se consolidou na língua portuguesa e em algumas línguas latinas, em que parece que estamos a falar de antónimos, de machismo e feminismo. E não é isso. Dá trabalho ter de explicar. Por isso, em todas as conferências que faço e nas palestras que dou, começo com essa explicação. Nos meus livros, essa explicação também está presente. O machismo é uma corrente filosófica que defende a superioridade dos homens e que, consequentemente, os homens devem ter mais privilégios, salários mais elevados, mais regalias, etc. O feminismo, em momento algum, defende a superioridade das mulheres; o que defende é a luta, como já referimos, pela igualdade e pela liberdade. Portanto, acho que temos realmente um problema de comunicação, mas, como em tudo, a educação resolve, a leitura resolve, a cultura resolve. Ainda assim, creio que isto tem, sem dúvida nenhuma, um papel importante na resistência.

Como é que se luta contra o machismo?
É uma luta coletiva, não é? E acho que o primeiro passo é reconhecer que somos machistas — inclusive eu, que escrevi este livro, inclusive as pessoas que se afirmam feministas, inclusive as próprias mulheres. O machismo é a água do aquário e nós somos o peixe; tal como o racismo é a água do aquário e nós somos o peixe, assim como a homofobia, a gordofobia, a xenofobia. Estamos imersos numa sociedade preconceituosa e o primeiro passo é perceber em que pontos eu própria também sou preconceituosa. Portanto, se não fizermos esse exercício de reflexão sobre em que momentos sou machista, não resolvemos nada. Não se trata apenas de apontar o dedo aos outros, mas de questionar: será que ainda julgo mulheres pelo corpo ou pelo rosto? Será que ainda julgo a maternidade de outras mulheres? Será que ainda condeno uma mulher que é mãe, mas tem uma carreira que ocupa grande parte da sua vida, quando aceito isso tão facilmente nos homens? Então, onde é que o machismo também reside em nós? Acho que o primeiro passo da luta é esse: começarmos por resolver um pouco em nós próprios, para depois tentarmos convencer os outros.

Neste livro a Ruth fala sobre o tópico “o mundo já não é assim tão machista, as coisas estão a melhorar”. As pequenas melhorias podem anular o facto de que as coisas ainda não mudaram efetivamente?
Eu digo sempre: as coisas não estão a melhorar, as mulheres estão a lutar. É uma luta de muitas mulheres, em todas as esferas, na política, no desporto. Essa ideia de que as coisas estão a melhorar por um acaso cósmico é quase sempre a ideia de quem não participou em nenhuma luta. E é muito perigoso, porque essas pessoas estão a defender a inércia, estão a dizer que se continuarmos parados as coisas vão evoluir. E não vão. Essa pessoa esteve sempre parada, sim, mas há pessoas que estão a correr atrás.

Há um outro tema: isso é uma doidice, a empresa onde eu trabalho tem muitas, muitíssimas mulheres.
Isso lembra-me a ministra da Corte Suprema Americana, a Ruth Bader Ginsburg, a quem perguntaram: quando vocês forem metade da Corte Suprema, vão estar satisfeitas?. E ela respondeu: não, vou estar satisfeita quando for 100% feminina, porque até hoje foi 100% masculina e ninguém problematizou isso. Grande parte das empresas que está a trabalhar na ampliação de diversidade nos seus quadros, está a fazê-lo por uma questão de imagem, não por uma questão de perceção disso. O que é muito estúpido, porque o que há de estudos a dizerem que a diversidade, sobretudo na cúpula, torna as empresas mais rentáveis. As empresas utilizam as amostras de diversidade para uma questão de imagem e muitas vezes o que acontece é que essas pessoas vão entrando e mostram que são boas, então elas abrem o espaço para as próximas. Mas na questão das mulheres temos uma camada a mais, porque quando ouvimos as empresas dizerem “já temos mais de 50% de mulheres”, temos de fazer duas perguntas: Em que cargos? Elas estão na direção? E ainda que se diga que sim, a minha pergunta é: elas são mulheres que conseguem exercer uma liderança feminina ou elas têm de reproduzir a liderança masculina que sempre foi feita? Elas têm de apagar a sua condição de mulheres, de mães, de lactantes, de avós, para pertencer? Nós [mulheres] conseguimos fazer lideranças diferentes, porque a realidade é: o mundo liderado por homens não deu certo e temos que o dizer em voz alta. Estamos a ver guerras da Rússia, guerras protagonizadas pelos Estados Unidos, estamos a falar de pessoas na miséria há séculos sem conseguirmos resolver isso, falamos de uma crise política, crise na habitação. Não deu certo, temos de saber liderar de outra forma, e liderar de outra forma é questionar a liderança que os homens fizeram até hoje e aplicar outras formas de liderança que vão surgir com as mulheres, com pessoas negras, com pessoas que pertencem a realidades que nunca chegaram ao board.

Como surge a ideia de escrever este último livro: Ter ou não ter filhos?
Acho que este livro surgiu de uma perceção minha muito forte, desde que me tornei mãe, de que este tema é absolutamente negligenciado. Fala-se muito sobre maternidade, muitas vezes de uma forma bastante tosca, que eu detesto, quanto mais vejo as coisas que dizem sobre maternidade, mais isso me assusta. E tem-se falado mais sobre a ideia de não ter filhos, mas fala-se muito pouco sobre a dúvida, que é uma realidade para muitas mulheres. E, se não tivermos acesso aos bastidores da maternidade, não temos muitos elementos para decidir. Não basta olhar apenas para a carreira, o relacionamento, é preciso entender o impacto que os filhos vão gerar nas finanças e outras coisas. A minha tentativa com este livro é ter muitos dados, claro que com a visão de alguém que é uma mãe feliz, mas que nestes três anos do Joaquim levei muitas rasteiras. E eu conhecia a maternidade por dentro, porque a minha irmã já era mãe de duas meninas, meu irmão já era pai, eu já era madrasta pela segunda vez, então eu não cheguei de paraquedas, mas como costumo dizer: eu já sabia, mas não sabia. Então acho que este livro é uma tentativa de dar elementos às pessoas e também para refletir, quem já é mãe como eu ou quem já decidiu não ter. Acabou por ser um mergulho mais profundo do que eu imaginava, achei que estava a escrever para quem tem dúvidas, mas no fim escrevi para mais gente.

Ainda é um tema tabu?
É um grande tabu, primeiro porque é uma questão geracional, ainda há muita gente que vem de uma geração na qual é óbvio que o nosso destino social é ser esposa e ser mãe, e essas pessoas, muitas delas, passam isso para filhos, então há pessoas que nunca questionaram. Eu digo sempre que as mulheres que têm muita certeza do sim ou do não, são privilegiadas, mas eu olho de forma muito ressabiada para a certeza do sim, porque a certeza do sim poucas vezes derivou de um mergulho profundo que uma mulher fez em si mesma, a certeza do sim vem de uma construção social que convence as mulheres de que é isso que elas querem. E geralmente são muitas dessas mulheres as que acabam muito frustradas com a maternidade. Mas é um tabu e é um tabu muitas vezes mesmo dentro do grupo de Temos poucos espaços para falar sobre isso, falar dentro da família é muito difícil, Então acho que realmente a busca deste livro é poder ter uma conversa franca sobre isso, adiantando já que ele não traz respostas, porque não existe resposta certa. Eu sou muito feliz a ser mãe, mas fui muito feliz nos 34 anos que não fui mãe, então mesmo para mim não há uma resposta certa ou errada, acho que as duas respostas poderiam ter sido certas.

Falámos da pressão social que a mulher sofre para ser mãe, mas depois chega aqui a uma altura do índice do livro e os temas começam a ser: ela mudou completamente depois de ter um filho, ela nunca mais foi a mesma no trabalho. É impossível vencer?
Na sociedade em que vivemos é impossível vencer. Falando de carreira, o facto de as mulheres estarem dentro do mercado de trabalho não quer dizer que elas sejam efetivamente incluídas: a invisibilidade da maternidade, a invisibilidade dos filhos e o facto de considerarmos que a carreira dos homens não é afetada pelos filhos, mostra um grande problema. Eu digo sempre isso aos homens: se você acha que ser pai não vai impactar na sua carreira, já está a começar de forma errada. Estamos em 2026, ele tem uma carreira e a mulher também, ele tem de assumir que vai ter um impacto, a carreira do pai que passa ilesa a um filho atesta claramente que ele não é um bom pai, simples assim. Então, na sociedade que temos, acho que realmente é impossível vencer: conseguir ser a mãe que eu queria e conseguir manter a carreira que eu queria. O mundo não financia isso, em algum lugar vais ter de perceber onde podes perder um pouco menos, quando os homens não estão a perder. Ou estão a perder no convívio com os filhos, mas muitos deles não têm consciência da perda que isso é.

Em relação à nossa mudança existencial, essa eu acho que já é um tema mais interessante, mas mais complexo, porque existe efetivamente uma mudança neuro química. Isso foi para mim uma surpresa, fui uma pessoa que teve uma resistência muito grande a mudar enquanto mãe e eu escrevi no livro: a pessoa que quer ter filhos sem se tornar uma pessoa diferente, já está a travar uma batalha perdida, porque não é uma questão de decisão, é uma questão hormonal, é uma questão química, realmente as mudanças acontecem. O que acontece é que nós vemos a mudança como uma mudança para pior, uma mudança subalterna, porque a sociedade ensina-nos que o lugar de cuidado é um lugar subalterno, então temos medo. Acho que o meu grande medo em relação a isso, era o medo de ter um rebaixamento social, e hoje eu faço uma crítica muito grande. Em São Paulo, antes de viajar para cá, tive uma manhã em que dei uma entrevista para um grande órgão, depois dei uma palestra numa grande empresa. Quando eu publico isso nas minhas redes, ninguém tem dúvidas ao chamar-me uma mulher de sucesso. Mas no dia seguinte eu tinha uma manhã livre, fui com o meu filho à feira, comprar legumes na rua, e fui levar as coisas a casa da minha avó que tem alzheimer, passei a manhã com a minha avó que tem 97 anos e o meu filho a brincar. Quando eu publico essa manhã o mundo tem muita dificuldade de me chamar uma mulher de sucesso, mas eu sou as duas coisas e eu só consigo ser uma mulher realizada com esse equilíbrio. Qualquer pessoa que não consiga ter um equilíbrio entre o tempo de qualidade para a família, para os amigos, para si, para a casa, a pessoa que não tem equilíbrio entre uma carreira e isso, não é uma pessoa de sucesso. A pessoa que trabalha, é CEO e tudo mais, mas vai enfartar com 52 anos, não é uma pessoa que teve um sucesso global. Ela pode ter uma carreira meteórica, mas não é sucesso.

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