Maria Luís Gameiro: gerir empresas de dia, enfrentar o Dakar num universo ainda masculino

A empresária e piloto portuguesa Maria Luís Gameiro regressa ao deserto no Carta Rallye 2026 depois de um arranque de época marcado pela conquista da Taça das Senhoras no Dakar 2026. Entre a gestão de empresas na área da construção e a exigência do todo o terreno, a piloto explica à Forbes Portugal como constrói…
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A empresária e piloto portuguesa Maria Luís Gameiro, que conquistou a Taça das Senhoras no Dakar 2026, fala sobre o percurso no todo o terreno, a exigência extrema da prova e o desafio de afirmar-se como mulher num dos ambientes mais competitivos do desporto automóvel.
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A empresária e piloto portuguesa Maria Luís Gameiro regressa ao deserto no Carta Rallye 2026 depois de um arranque de época marcado pela conquista da Taça das Senhoras no Dakar 2026. Entre a gestão de empresas na área da construção e a exigência do todo o terreno, a piloto explica à Forbes Portugal como constrói este equilíbrio, o que significa enfrentar o Dakar e como se posiciona num meio onde, durante anos, quase não havia mulheres.

Como é que começa a sua ligação ao todo o terreno? Em que momento é que percebe que isto era para ser levado mais a sério?
A minha paixão pelo todo o terreno começa em 2005, quando eu integro os quadros da empresa Motivo, que tinha e tem uma equipa, a Team Motivo JCB. Eu diria que ainda hoje é uma das equipas mais ativas no mercado, daquelas que continuam no todo o terreno praticamente desde sempre.

Na altura, eu assistia como espectadora, gostava muito, achava fascinante, mas estava do lado de fora. Em 2009, numa Baja Portalegre, surge a oportunidade de integrar a equipa por dentro. E faço a minha primeira corrida numa categoria menos competitiva, que na altura eram os T2, hoje chamados categoria stock.

E aí percebi uma coisa muito simples: nós todos achamos que sabemos conduzir, porque conduzimos no dia a dia, mas conduzir todo o terreno não tem nada a ver. É completamente diferente, exige outro tipo de leitura, outro tipo de reação.

Depois fiz ainda 2010 e 2011 com algumas corridas, até que tive um acidente e parti a mão. São coisas que acontecem. Isso acabou por interromper o campeonato e, ao mesmo tempo, veio também a crise financeira, o período do subprime, que afetou muito as nossas empresas e patrocinadores, que estão ligados à construção civil.

Tivemos de apertar o cinto, muitos clientes desapareceram e o projeto acabou por ficar parado. Só no pós-COVID é que voltámos a ter alguma capacidade de investimento e aí sim, abraçámos o projeto de forma mais séria, com outro tipo de ambição e já com um carro mais competitivo.

A Maria Luís regressa então em 2022?
Sim, volto em 2022. Faço 2022, 2023, 2024 e 2025, já com uma abordagem completamente diferente, mais estruturada, mais comprometida, já não numa lógica de experiência pontual, mas de continuidade.

Que tipo de veículos foi utilizando ao longo desse percurso?
Na fase inicial, em 2010 e 2011, usei uma Nissan Navara. Foi uma passagem curta, um primeiro contacto, aquilo a que eu chamo um pequeno ‘flavour’ do todo o terreno.

Quando regresso, em 2022 e 2023, já entro numa categoria superior, com um T1, um Mini, na categoria Ultimate, os chamados carros de rodas pequenas. Já com outro nível de exigência.

Em 2024 adquirimos o Mini John Cooper Works T1+, que já é uma categoria acima. E é também a meio desse ano que começa a desenhar-se o projeto do Dakar.

Nessa altura, por conselhos de quem já tinha experiência e também por uma questão de budget, acabo por passar para um side-by-side, os chamados SSV, ou como muitas pessoas dizem, os ‘aranhiços’, na categoria Challenger. E foi com esse carro que fiz o Dakar em 2025.

O Dakar é muitas vezes descrito como a prova máxima. Para si, o que representa?
O Dakar é como os Jogos Olímpicos para quem faz todo o terreno. É a corrida rainha, a mais difícil do desporto motorizado.

Estamos a falar de muitos dias de prova, de um desgaste enorme, não só físico, mas também psicológico. Há muita gente envolvida, muita logística, muita coisa pode correr mal.

E, no meu caso, que não sou piloto profissional, nunca tive a ambição de ganhar o Dakar. Isso é para um grupo muito restrito de pilotos. Para mim, chegar ao fim já é uma grande vitória. E dizer isso não é um cliché. É mesmo uma grande vitória terminar uma prova daquelas.

Quando se fala da dureza do Dakar, de que estamos realmente a falar?
Eu costumo dividir em três áreas. A primeira é a financeira, porque é uma prova muito, muito dispendiosa. Conseguir reunir os meios para lá estar já é, por si só, uma vitória. Depois, tendo essa oportunidade, temos, então, a parte física e a parte psicológica. É uma corrida de cerca de 14 dias, em que estamos muitas vezes oito horas seguidas a conduzir em condições muito adversas. Pode ser calor extremo, pode ser frio, pode ser ficarmos presos numa duna e estarmos uma hora a cavar.

Temos que ter bastantes meses de preparação. Portanto, fisicamente é mesmo muito desgastante. Para nós, senhoras, há ainda uma particularidade que pouca gente fala, mas que é real: as necessidades fisiológicas são mais difíceis de gerir. Temos de nos despir completamente, tirar o fato todo, para conseguir fazê-lo. E isto em contexto de corrida, com tempo contado, com calor, com tudo à volta, não é nada simples.

Depois há o fator psicológico, que eu diria que é tão importante como o físico. Todos os pilotos têm problemas. Ou mecânicos, ou porque se perdem, ou porque se cansam. Toda a gente tem problemas.

E aqui a diferença está na forma como lidamos com isso. Eu conheço pilotos que desistiram porque não estavam preparados para esses momentos. Temos de ir para o Dakar já com essa consciência: os problemas vão acontecer. Ou mecânicos, ou porque nos perdemos, ou porque nos cansamos. E temos de ter força para os ultrapassar e continuar.

Como é que se prepara para esse nível de exigência?
Eu tenho o apoio de uma psicóloga de alta competição e de uma fisiologista. Porque eu sou empresária, tenho o meu trabalho no dia a dia, e isto é um hobby, mas é um hobby muito exigente.

Fisicamente, vou ao ginásio, porque preciso mesmo de ter força. Estamos a falar de levantar uma roda de 50 quilos quando furo (o que acontece com alguma regularidade), de mudar uma correia de motor, de lidar com um carro pesado.

Durante a condução, estamos a controlar um carro com cerca de duas toneladas, em alta velocidade, com muita vibração, muita força no volante. Portanto, tem de haver preparação.

Psicologicamente, tento estar o mais concentrada possível. Eu sei que vou ter dificuldades, sei que vou ter problemas, e preparo-me para isso. E depois tenho também muita força de vontade. Eu sou uma mulher de desafios. E, portanto, tenho sempre muita vontade de ultrapassar as dificuldades. Eu sei que elas vão acontecer.

Sendo mulher, num meio tão masculino, sentiu que tinha de provar mais?
Está a melhorar, claramente. Já existem mais senhoras e nos paddocks somos muito bem recebidas. Não tenho nada a apontar nesse sentido, há respeito, há educação. Tratam-me com muita educação e são muito gentlemen.

Em pista é diferente. Aí já não acham tanta graça. Eu lembro-me de haver pilotos que diziam que existia uma ‘linha cor-de-rosa’ e que ninguém queria ficar abaixo dessa linha. Essa linha era o meu carro. Quando passei a ter um carro cor-de-rosa, isso expôs-me muito mais.

Nos primeiros anos, o meu carro era preto, branco, amarelo. Portanto, tinham as cores dos patrocinadores principais. Entretanto, houve uma decisão da equipa e como um dos patrocinadores, que é a Speed Rent, tem uma cor de magenta, o meu colega ficou com o carro amarelo e eu fiquei com o magenta. Que sendo magenta, as pessoas chamam de cor-de-rosa. Eu confesso que numa fase inicial achei que era demasiado cliché: eu ser uma mulher dentro de um carro cor-de-rosa. Porque todos sabemos que se eu fizer uma curva mal com um carro branco ou amarelo, ninguém sabe quem vai lá dentro. É ‘um piloto’ que falhou. Se for um carro cor-de-rosa, é ‘uma mulher’ que falhou.

Essa diferença existe. Mas eu já ultrapassei isso. Hoje sei o meu valor, sei o que faço, e sinto que os meus pares começam a reconhecer isso. Mesmo que, de vez em quando, ainda exista a ideia de que temos de provar um bocadinho mais, pois há a a ideia de que ‘é porque ela pode ou porque ela tem oportunidades’. Mas a verdade é que eles também. Portanto, eu simplesmente agarro as oportunidades que tenho e luto por elas. E faço o meu melhor.

A Elisabete Jacinto foi uma referência nesse caminho?
Sem dúvida. A Elisabete Jacinto é incontornável. Somos muito poucas mulheres portuguesas a fazer o Dakar. Até hoje fomos cinco senhoras [portuguesas] a fazer o Dakar.

Ela foi a última durante muitos anos, e Portugal já merecia ter novamente uma mulher a representar. Tenho muito orgulho em poder ser, de alguma forma, uma continuidade desse caminho. E acho que é importante que haja mais mulheres.

Sente que o seu percurso pode inspirar outras mulheres?
Eu nunca pensei nisso dessa forma, mas sinto isso pelas mensagens que recebo. Muitas mulheres acompanham-me e dizem que se sentem inspiradas.

Eu trabalho em áreas muito masculinas, na construção, nas máquinas, na gestão, e também no todo o terreno. Não é sempre fácil.

Se puder contribuir para que mais mulheres acreditem que são capazes, fico muito satisfeita. Porque, no fundo, o que deve contar é o mérito, aquilo que somos capazes de fazer, e não o facto de sermos homens ou mulheres. Infelizmente ainda temos que provar um bocadinho mais do que se calhar um homem tem que o fazer.

O mundo está muito estranho, mas quero acreditar e tenho esperança que as diferenças se comecem a diminuir e que as oportunidades sejam cada vez mais meritórias do que necessariamente em função do sexo, da sua cor ou do seu aspeto. Acho que o mérito é o que tem que ser valorizado.

Eu cheguei aqui pelo mérito, não por ser mulher. Espero que nisso sim possa ser um exemplo para quem não acredita que somos capazes.

No Dakar teve também uma vertente solidária. Como surgiu essa ideia?
Surge muito pela cor do carro. O cor-de-rosa levou muitas pessoas, sobretudo mulheres, a associarem ao cancro da mama.

Eu tenho casos próximos na família e pensei: por que não aproveitar isso para fazer algo útil? Decidi então apoiar a Liga Portuguesa Contra o Cancro.

A ideia era simples: por cada quilómetro que eu fizesse em corrida, doava um euro. Isso também criava uma ligação com quem estava a acompanhar, porque quanto mais longe eu chegasse, maior seria o contributo.

Mas mais do que o valor, queria chamar a atenção para uma coisa: os rastreios não têm de ser só em outubro. Se, em janeiro, durante o Dakar, eu conseguisse alertar uma pessoa para fazer um rastreio e isso lhe salvasse a vida, já teria valido a pena.

Numa próxima oportunidade que eu vá ao Dakar, acho que é uma ótima ideia revitalizar esta ação. E, quem sabe, ter alguns apoios de empresas externas que se queiram associar a esta causa. Acho que era muito nobre. E estaríamos todos a torcer para que eu chegasse ao fim, obviamente. Mas, mais do que isso, para, durante esse período, serem feitos os alertas para uma causa  importante para todos.

O que leva da gestão para a competição e vice-versa?
Há uma ligação muito forte. Têm havido competências que eu tenho recebido do todo o terreno para a minha gestão e que tenho recebido da minha gestão para o todo o terreno. O fator da decisão é um desses aspetos. No todo o terreno, nós não sabemos o caminho. Temos um roadbook, sabemos que vamos fazer, por exemplo, 500 quilómetros, mas não sabemos exatamente por onde.

E estamos constantemente a tomar decisões: travar mais cedo, mais tarde, contornar ou não um obstáculo, arriscar ou não. E cada decisão tem uma consequência. Isso é muito semelhante à gestão.

Depois há o trabalho em equipa também no Dakar. Eu tenho a minha vida nas mãos do meu copiloto e ele tem a dele nas minhas. Temos de confiar nos mecânicos, nos engenheiros.

Nas empresas é igual. Eu não trabalho sozinha. Tenho de saber delegar, confiar na equipa, garantir que tudo continua a funcionar mesmo quando eu estou fora, em corrida. É algo que é muito importante para mim e que tenho conseguido: a minha equipa tem-me apoiado por eu poder estar ausente nas corridas.

Há pilotos que a marcam particularmente?
Há várias referências. A Michèle Mouton, a Jutta Kleinschmidt, que foi a única mulher a ganhar o Dakar.

Da atualidade, o Nasser Al-Attiyah, pela capacidade que tem de ser competitivo com qualquer carro.

E o Nani Roma, que, para além do percurso desportivo, tem uma história de superação muito forte. Teve um cancro, continua com sequelas, e mesmo assim conseguiu fazer um segundo lugar no Dakar. Isso diz muito sobre resiliência. É alguém que consegue provar que, apesar das adversidades que se possa ter na vida, ainda assim se consegue ter grandes resultados e lutar contra tudo e contra todos.

O que espera do Carta Rallye 2026?
Esta corrida em Marrocos, vão ser cerca de sete dias de prova. Já é meio Dakar, num ambiente muito semelhante ao Dakar. Portanto, vamos estar no deserto, seja com dunas ou o deserto puro de terra abatida. Em termos de navegação, também será semelhante a uma corrida como o Dakar. Portanto, vamos fazer já um bom treino para que depois eu possa estar melhor preparada caso tenha a possibilidade de integrar as equipas em 2027. Por isso, vai ser muito importante para mim. Vou com um copiloto muito experiente, o Ronnie Graue, e encaro esta prova quase como um estágio.

Eu já sei andar no deserto, já sei ultrapassar dunas, já fiz Dakar. Mas agora quero ser mais rápida, mais eficiente.

Quero aprender com alguém que tem muita experiência, melhorar a minha condução nas dunas, na navegação, e dar um passo em frente. O objetivo é evoluir e preparar-me melhor para o Dakar 2027.

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