“As mulheres foram fundamentais nas lutas que se fizeram e nas conquistas de direitos que se seguiram”

Como surgiu a ideia de escrever este livro? Este livro surge do encontro de duas perspetivas de investigação diferentes, mas onde as mulheres e os seus direitos importam. Nas comemorações dos 50 anos do 25 de Abril, havia um grupo social que permanecia invisibilizado e secundarizado, o das mulheres rurais. Elas ou não aparecem na…
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No próximo sábado, Portugal celebra o 25 de Abril. Poucos dias antes, Cecília Honório e Rita Calvário lançaram o livro que lembra o papel das mulheres rurais no dia que mudou a história do país. A Forbes Portugal falou com as autoras de "Mulheres, Terra e Revolução".
Forbes Women

Como surgiu a ideia de escrever este livro?
Este livro surge do encontro de duas perspetivas de investigação diferentes, mas onde as mulheres e os seus direitos importam. Nas comemorações dos 50 anos do 25 de Abril, havia um grupo social que permanecia invisibilizado e secundarizado, o das mulheres rurais. Elas ou não aparecem na historiografia da Revolução ou aparecem num lugar de opressão, para quem a Revolução não trouxe mudanças na sua subalternidade em relação ao trabalho, ao salário, aos cuidados, à representação e à participação. Quando surgem, elas são frequentemente olhadas como vítimas, o seu lugar é visto em relação ao do homem, e, quando lutam, é em defesa da família. Este livro surge da vontade de desocultá-las, revelá-las, nas lutas antes e durante a Revolução de Abril. Surge da urgência de fazer esta disputa da memória: primeiro, da Revolução enquanto mobilização social e poder popular, não como golpe militar ou simples transição para a democracia; e, segundo, do reconhecimento das mulheres rurais como sujeito político e histórico, porque a Revolução, nos campos, não se fez sem elas.

Porque é que consideram importante esta chamada de atenção neste momento?
As mulheres – e, sobretudo, as mulheres rurais – são as grandes esquecidas na conflitualidade social do século XX, designadamente na resistência à ditadura e nas mudanças sociais da Revolução. No 25 de Abril, elas estão nas ruas, nos campos, nas fábricas, nas manifestações, o que se encontra facilmente nas imagens de arquivo. Os anos 1970 foram débeis quanto ao papel das organizações de mulheres e às lutas pelos seus direitos. Por outro lado, a urgência do processo revolucionário, hora a hora, secundarizou o seu papel e os seus direitos nas “grandes palavras” do tempo, como Revolução ou Luta de Classes. As causas das mulheres eram amuletos das lutas políticas, se bem que alguns movimentos e causas tenham tido impacto considerável como a formação do MLM.

Nos campos, onde as organizações de mulheres entraram pouco ou não entraram de todo, havia pouca ligação às lutas das mulheres rurais. Mas as desigualdades existiam e as mulheres rurais sempre lutaram por direitos e uma vida digna. Na ditadura, desafiaram patrões e a polícia, rompendo com a imagem da mulher dócil, submissa e doméstica. Na Revolução, elas foram parte do poder popular que impôs os Contratos Coletivos de Trabalho, construiu as Cooperativas, lutou pela devolução dos baldios, por contratos de arrendamento rurais justos, por uma melhor previdência rural. Elas não foram a maioria das dirigentes sindicais, nem das direções das cooperativas, nem as suas lutas mudaram radicalmente as relações de género, mas a nossa pesquisa não se centrou neste “copo meio vazio”. Não foram maioria, mas há dirigentes sindicais, como há mulheres nas comissões sindicais locais, como tomaram a palavra em vários encontros/iniciativas, tal como se envolveram nas manifestações e noutros protestos ou se auto-organizaram para participarem em “igualdade” nas assembleias da cooperativa. Os testemunhos destas vertentes permitem-nos fazer a inscrição dos seus nomes e dos seus contributos. A informação recolhida aponta para uma inicial resistência dos homens que o tempo superou, sobrepondo-se o respeito pelo que elas eram e faziam.

Conhecer estas lutas, inscrever os seus nomes e contributos, importa na compreensão que a democracia e a liberdade foram conquistas feitas com lutas de milhares de pessoas, onde se incluem as mulheres; que os direitos ao trabalho, ao salário, à creche, ao planeamento familiar, ao corpo, a decidir o que vestir, a entrar no café, a deixar o xaile, a falar, a ter lugares de direção, a ir a manifestações, a decidir sobre as próprias vidas, foram conquistas envolvendo muitas lutas em que as mulheres foram centrais; não só as elites, as dirigentes, ou as militantes, mas sobretudo as mulheres comuns, quer organizadas, quer nos seus quotidianos.

Estas são lutas que precisamos de inscrever na memória coletiva e que nos convocam a todas, sobretudo em tempos em que estes direitos, e sobretudo o direito das mulheres, se veem ameaçados com a viragem autoritária e populista de direita.

E o que acham que levou a este esquecimento desta parte da história?
As sub-representação das mulheres como sujeitos políticos condicionou a sua assunção como protagonistas do processo revolucionário e, por maioria de razão das mulheres rurais. Chegamos aos anos 1970 – quer antes, quer no quadro revolucionário – com representações das mulheres rurais que as vinculam, sobretudo, ao atraso, ao analfabetismo, à proximidade com a “natureza” e à subordinação aos patrões. Estas imagens remeteram para a sombra o papel destas mulheres e condicionaram a análise da sua intervenção.

Quais foram as grandes lutas destas mulheres?
No livro procurámos fazer o registo de todas as lutas em que elas participam na resistência à ditadura e durante a Revolução, procurando-as na imprensa da época e em vários arquivos. A nossa procura não foi exaustiva e está condicionada à informação disponível. Haverá certamente muitas histórias por registar e contar. Mas, da nossa pesquisa, foi muito evidente que “elas estiveram lá” e foram protagonistas nas lutas. Nos campos do Sul, elas fizeram greves, organizaram piquetes, mobilizavam as outras para não aceitar salários de miséria, protestaram, fizeram marchas e homenagens, celebraram o Dia do Trabalhador e o Dia da Mulher. Nas zonas da agricultura familiar, as mulheres apoiam abaixo-assinados ou exposições ao Governo, estão na rua e em conflito aberto com as autoridades, lutam contra a apropriação dos baldios, da água e das terras arrendadas ou em foros, rejeitam as taxas e encargos impostos pelo Governo e opõem-se aos monopólios e ao poder dos Grémios, e, onde são assalariadas, elas fazem greve e lutam por salários. Em todo o lado, a repressão é brutal, com espancamentos, prisões e mesmo a morte. Todo esta trajetória de lutas e conflitualidade social foram relevantes para o que se seguiu ao 25 de Abril, na mobilização social e popular da Revolução. Muitas das lutas das mulheres rurais, ou em que elas participam “lado a lado com os homens”, são uma continuação das lutas que vinham de trás – a luta pelo emprego e melhores salários no caso das assalariadas agrícolas e a defesa da terra e da produção no caso das agricultoras da agricultura familiar, mas o contexto é agora pleno de possibilidades com a retração das polícias, a liberdade do debate político, a legalidade da ação sindical e da luta, transformando as relações de forças também ao nível local.

As mulheres estão em todas as frentes de luta: nas manifestações nas ruas, na toma de terras, nas assembleias das cooperativas, nos comícios, entre outras iniciativas. Elas foram fundamentais nas lutas que se fizeram e nas conquistas de direitos que se seguiram.

De que forma a Revolução no mundo rural foi diferente daquela que conhecemos?
Nos campos do Sul, terra da grande propriedade, a Reforma Agrária foi das mais importantes conquistas de Abril. Perante vidas de miséria, fome, exploração, a maioria da população, de homens e mulheres, trabalhadores eventuais (onde o desemprego era uma constante numa parte do ano), forçaram a negociação de Contratos Coletivos de Trabalho; perante a recusa dos patrões, o abandono das terras, a não resolução dos seus problemas de desemprego, esta população colocou as terras a produzir como nunca antes se produziu, inovou introduzindo novas culturas e diversificando a produção, introduziu o regadio onde só havia o sequeiro, distribuiu talhões para a horta familiar; com isto, uma gestão feita pelos próprios trabalhadores, em que eles tomavam as decisões, asseguraram-se postos de trabalho, salário certo, o direito ao trabalho a pessoas que antes eram excluídas do trabalho (por idade, por exemplo); instituiu-se as 8 horas de trabalho (conquistadas em 1962 mas não cumpridas), o direito a férias, ao descanso, ao desconto para a “Caixa” (segurança social) e o direito à reforma; conquistou-se o direito à alimentação, também com a formação de cooperativas de consumo onde se vendia tudo mais barato; conseguiu-se casa própria, veio a eletricidade, a água potável, muitas vezes com trabalho e materiais fornecidos pela cooperativa; aprendeu-se a ler e a escrever, numa população largamente analfabeta, onde se começava a trabalhar aos 10-11 anos de idade; apreendeu-se o significado da participação democrática, fomentando o debate e a decisão coletiva; e muito mais. Enfim, as mudanças e os ganhos para a maioria da população foram enormes. Também a Norte, fizeram-se muitas lutas, os e as agricultoras fizeram associações, comissões, movimentos de luta por direitos sociais, a terra e a produção. Uma das importantes vitórias destas lutas, que já vinham de trás, foi o conseguir a devolução dos baldios às comunidades rurais e aldeias, que tinham sido “roubados” pelos Serviços Florestais durante a ditadura. Esta é uma luta que ainda hoje se mantém viva.

Como olham para a realidade das mulheres do mundo rural hoje em dia?
O mundo rural mudou muito nas últimas décadas, assim como a agricultura. Mas as mulheres rurais, quer assalariadas agrícolas, quer agricultoras da agricultura familiar e de pequena escala, continuam a enfrentar dificuldades económicas, grande precariedade, falta de direitos sociais, bem como o peso da invisibilidade e discriminação a nível social e das políticas públicas. Há uma grande parte dos campos e das agriculturas que se praticam no país que são ainda hoje menosprezadas, sobretudo pela política agrícola, e em boa parte essas são as agriculturas feitas por mulheres.

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