Aguiar Branco: “Tornámos a vida política um reality show”

Na intervenção esta manhã durante a sessão solene de celebração dos 52 anos do 25 de Abril, o presidente da Assembleia da República, José Aguiar-Branco garantiu que 50 anos depois a esmagadora maioria dos portugueses quer e gosta da democracia e criticou os remédios populistas que fecham a política e tornam-na elitista. O presidente da…
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O presidente da Assembleia da República, José Aguiar-Branco, alertou na sessão solene de celebração dos 52 anos do 25 de Abril que os remédios populistas não abrem a política, fecham-na. E lamentou que a vida política, por vezes, se torne um reality show.
Economia

Na intervenção esta manhã durante a sessão solene de celebração dos 52 anos do 25 de Abril, o presidente da Assembleia da República, José Aguiar-Branco garantiu que 50 anos depois a esmagadora maioria dos portugueses quer e gosta da democracia e criticou os remédios populistas que fecham a política e tornam-na elitista. O presidente da Assembleia da República lamentou ainda que, tantas vezes, a vida política se tenha tornado “num reality show”.

“Os remédios populistas não abrem a política, fecham-na. Os remédios populistas não popularizam a política, fazem-na mais elitista”, alertou José Pedro Aguiar-Branco.

No discurso não se privou de criticar a legislação sobre incompatibilidades e impedimentos aplicadas aos titulares de cargos políticos, sobretudo de deputados. Aguiar-Branco destacou que “há um discurso fácil, contra a política e contra o sistema, que pode pendurar-se na desconfiança e fazê-la crescer”.

Assumindo que iria fazer de advogado do diabo, o presidente do parlamento disse que é altura de admitir a possibilidade de “o problema português não ser a Constituição, o capitalismo, o regime, as instituições ou funcionamento da democracia”. O problema poderá mesmo estar nos próprios políticos. “Na ideia tão propagada e generalizada em discursos mais populistas de que há uma casta, às vezes chamada de elite”.

O presidente da Assembleia da República criticou que, para combater os problemas de reputação da política, se utilize “chavões”. “De repente, discutir o aumento da remuneração dos políticos passou a ser um assunto proibido. Um tema de que não falamos, porque não é popular. Esquecemos um velho princípio democrático, que vem desde os tempos de Péricles, que o serviço público, para atrair os melhores e para ser acessível a todos, ricos e pobres, deve remunerar bem”, sublinhou.

“Quisemos acabar com as portas giratórias, porque, imagine-se, era inadmissível que alguém fosse trabalhar para o setor privado depois de ter estado no serviço público. E, de repente, temos outras portas giratórias entre gabinetes e parlamento, parlamento e governos, governos e administração pública, assessorias e órgãos do estado”, referiu.

E acrescentou que “não bastava declararmos rendimentos. Era preciso declarar publicamente se a mulher ou marido é rico, se o primo é pobre, se o enteado é empresário. Se a casa tem elevador, quantas casas de banho, se tem empréstimo, se o empréstimo é com taxa fixa, se é bonificado”. Por isso, lamentou que, tantas vezes, a vida política se tenha tornado “num reality show”.

Aguiar-Branco realçou ainda que “fomos aceitando a ideia de que os políticos estão sempre a esconder qualquer coisa”. Para depois dizer que “os políticos que defenderam e advogaram a presunção de inocência para os cidadãos do dito país real, são os mesmos que defendem e advogam a presunção de culpabilidade para todos os políticos”. O resultado: “Não é uma política mais aberta à sociedade, é o entrincheiramento da política, a política fechada sobre si mesma, a política, a conversar consigo mesma”, acusou.

O presidente da Assembleia da República concluiu destacando que a vida política necessita de “pessoas de áreas diferentes, com experiências, percursos e origens diferentes”. Isto porque “a nossa democracia é, felizmente, interclassista”.

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