(Artigo escrito por Luís Nuno Rodrigues)
O livro Brevíssima História da Revolução dos Cravos apresenta uma síntese não apenas dos eventos do dia 25 de abril de 1974, mas também do período que o antecedeu e, depois, dos dois anos que se seguiram ao golpe militar que pôs fim à mais longa ditadura da Europa ocidental. De acordo com o cientista político norte-americano, Samuel Huntington, a revolução portuguesa teve a singularidade de marcar o início da chamada terceira vaga de democratização, que se prolongaria nos anos seguintes para a Europa do Sul, ou seja, Espanha e Grécia, mas igualmente, numa perspetiva mais alargada, na década e meia que se seguiu para a América Latina e para a Europa de Leste. Neste livro considera-se justamente que o contexto internacional do 25 de abril foi decisivo para entender o desfecho da transição em Portugal. Porque, na verdade, não era linear que o golpe militar que pôs fim à ditadura de Salazar e de Caetano conduzisse à instauração de um regime de democracia representativa, como de facto veio a acontecer.
Durante os dois anos que se seguiram ao 25 de abril, os portugueses viram-se imersos numa disputa pelo futuro do regime político e do tipo de organização social que deveria suceder à ditadura. Nessa escolha crucial, a dimensão internacional seria decisiva. Por um lado, estávamos em plena Guerra Fria e mais concretamente, num período de desanuviamento e de procura de equilíbrios internacionais entre os dois lados da cortina de ferro; por outro lado, em termos europeus, o processo de integração e de alargamento era uma realidade fortíssima e a CEE olhava para os países da Europa do Sul eventualmente democratizados como um próximo passo nesse mesmo alargamento. Por estas razões, a capacidade de intervenção dos Estados Unidos e da União Soviética encontrava-se limitada e os principais líderes europeus fizeram saber às duas superpotências que não estavam dispostos a aceitar a sua ingerência no processo em curso Portugal. Nem o Chile de Pinochet, nem a Cuba de Fidel Castro seriam modelos aceitáveis aos olhos dos europeus, que favoreciam naturalmente a transição de Portugal na direção de um regime de democracia pluralista, representativa, semelhante aos que vigoravam nos seus próprios países.
Tudo isto não significa, obviamente, que o desfecho da revolução portuguesa se ficasse a dever apenas ao contexto internacional. Pelo contrário, os atores internos tiveram igualmente uma intervenção decisiva. Deste modo, os restantes eixos de análise deste livro correspondem às motivações e às decisões desses outros protagonistas: os militares, os partidos políticos e os movimentos sociais e a ação popular. São os militares que iniciam a conspiração contra o regime ditatorial e são eles os atores principais no dia 25 de abril e nos meses seguintes. É um período de relativa dissolução e de reformulação das instituições do Estado e foram naturalmente os militares e mesmo as suas instituições a preencher esse vazio, através do conceito da legitimidade revolucionária que até meados de 1975 se sobrepôs ao conceito da legitimidade eleitoral. Cedo se percebeu, porém, que os militares não estavam sozinhos no centro da ação. O 25 de abril foi um golpe militar, é certo, mas os partidos políticos, depois de tantos anos proibidos e ilegalizados, estavam prontos a entrar em ação, contando ter um papel de relevo na construção da nova ordem democrática. Por conseguinte, o livro coloca também no centro da narrativa os partidos políticos e os seus líderes, salientando o papel que desempenham desde os primeiros dias, captando militantes, criando as suas estruturas, organizando congressos, mobilizando apoios internacionais. Tudo isto numa trajetória ascendente de protagonismo que viria a culminar nas eleições para a Assembleia Constituinte de 25 de abril de 1975, as primeiras eleições livres em Portugal.
Por fim, o livro avalia também a importância da participação popular e a manifestação por parte dos portugueses de uma vontade se de tornarem donos do seu próprio destino e do destino do seu país após cinco décadas de imobilismo e de repressão. A participação popular foi decisiva logo no dia 25 de abril de 1974, com a multidão a enquadrar o percurso dos tanques comandados por Salgueiro Maia entre o Terreiro do Paço e o Largo do Carmo, locais onde ocorreram os acontecimentos mais decisivos desse dia. Foi também o povo que saiu à rua no dia 1º de Maio, fazendo desse dia um momento memorável da consolidação, nas ruas, da viragem que os militares tinham levado a cabo dias antes. Nas semanas e meses seguintes, uma impressionante onda de mobilização e de ativismo iria estender-se às fábricas, às escolas, aos sindicatos, aos campos, numa evidente ânsia de liberdade e de participação cívica, negada nas décadas anteriores pelo regime ditatorial. E foi também esse elemento popular que se revelaria decisivo, a 25 de abril de 1975, quando se realizaram as eleições para a Assembleia Constituinte. Mais de 90% dos cidadãos eleitores acorreram às urnas, numas eleições que deram um sinal inequívoco do regime de democracia representativa que a maioria dos portugueses gostaria de ver surgir no país e que viria a ser consagrado, um ano depois, na Constituição de 1976.





