Catarina Maia: Voz própria

A avó era modista e Catarina Maia acabou por crescer bastante próxima ao mundo da moda. Desde pequena que se lembra de folhear as revistas da avó, onde surgiam as últimas tendências para cada estação. Com o tempo, tornou-se fã de Sara Sampaio e criou contas nas redes sociais para seguir a carreiro da modelo…
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Começou na moda, mas hoje é presença assídua na rádio, televisão e digital. Olhando para o seu percurso, fica claro que Catarina Maia só poderia ser comunicadora. Pelo caminho, tem conseguido encontrar a sua própria voz, adaptando-a a cada um dos formatos que se vão cruzando com ela.
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A avó era modista e Catarina Maia acabou por crescer bastante próxima ao mundo da moda. Desde pequena que se lembra de folhear as revistas da avó, onde surgiam as últimas tendências para cada estação. Com o tempo, tornou-se fã de Sara Sampaio e criou contas nas redes sociais para seguir a carreiro da modelo portuguesa. “Uma vez que publiquei umas fotos que eu tinha dela no meu quarto, tipo poster, e escrevi do género: I love you Sara Sampaio“. Tinha 12 anos, era muito pequenina, e ela respondeu-me”, conta Catarina à Forbes Portugal.

A resposta acabou por ser muito mais do que isso: tornou-se uma porta de entrada para o mundo da moda. “Tinha publicado umas fotos minhas. Ela respondeu-me a agradecer em primeiro lugar, mas depois também a perguntar se eu não gostava de ser modelo ou se já tinha pensado em seguir essa carreira porque gostou das fotos que viu”, lembra.

Através da modelo acabou por chegar à Central Models, onde ficou e continua a estar até hoje. Pelo caminho passou por diversas mudanças e desafios. Catarina Maia falou com a Forbes Portugal sobre todo o seu percurso.

Tu eras muito nova, mas a moda já era o teu grande objetivo?
Eu achava que ia ser estilista, que ia desenhar. Tenho um caderninho pequenino, antigo, onde tenho sapatos desenhados, adorava sapatos. Eu dizia que queria ser sapateira, porque queria ter uma loja de sapatos e queria desenhar sapatos. Achava que o meu percurso ia um bocadinho pelo design, não tanto pela frente das câmaras, mais pelo backstage. Mas depois comecei a perceber que, efetivamente, gostava também dessa parte das fotos, de vestir os modelos criados por outra pessoa e interpretar isso, porque a parte da moda também nos dá um bocado essa área mais multifacetada de podermos experimentar e de sermos mais ou menos atrizes.

Qual foi o papel do concurso “Cabelo Pantene” na tua carreira?
Foi crucial. Foi o “Cabelo Pantene” que me lançou para uma exposição que me mostrou a mais marcas, que me mostrou a mais pessoas que podiam, eventualmente, querer trabalhar comigo. Acho que foi mesmo o “Cabelo Pantene” que me deu o início da carreira. Eu marco o início da minha carreira com 18 anos, porque acho que foi aí que eu descobri também que a comunicação fazia muito parte daquilo que eu queria fazer ou por onde eu queria passar. Fiquei muito fascinada com o mundo da televisão e como concorrente eu passava horas a olhar para as câmaras, para os apresentadores e a perceber como é que aquela caixinha mágica funcionava. Ou seja, marcou-me muito pessoalmente, porque fez-me entender quem é que eu queria ser, o que é que eu queria fazer, e profissionalmente também, deu-me essa exposição de que já falei.

O que é que te levou a escolher o curso de Ciências da Comunicação?
Eu já estava em Lisboa quando o “Cabelo Pantene” aconteceu. Estava no segundo semestre do primeiro ano. Ciências da Comunicação porque eu era de Humanidades, claramente nasci para Humanidades, e percebi isso desde muito cedo, porque adorava comunicar, adorava falar, contar histórias, perceber a história dos outros. Acho que Ciências da Comunicação é o curso mais abrangente, dava-me todo o tipo de saídas. Na verdade, quando entrei para a faculdade queria ser jornalista, achava que queria ser jornalista de investigação, mas depois, com o “Cabelo Pantene”, percebi que queria era entretenimento.

Vim para Lisboa especificamente porque era o melhor curso, teoricamente, o da Nova, e depois acabei por perceber que nem era pelo curso, era mesmo para trabalhar que eu queria esta cidade.

Não acabaste o curso?
Não, faltam oito cadeiras, está congelado até hoje. Um dia, quem sabe, termino, mas a verdade é que a carreira se pôs à frente e eu priorizei continuar, porque sei que a carreira não esperaria e o curso continua até hoje ali paradinho, num cantinho à minha espera.

Foi difícil fazer a transição do Porto para Lisboa?
Foi muito difícil. Se não tivesse perdido o meu pai no ano passado, diria que essa foi a pior fase da minha vida, porque eu vim sozinha, conheço muita gente que veio com amigos, ou que tem um familiar, eu não tinha ninguém. Foi um bom teste à minha independência, até acho que à minha resiliência, porque foi preciso um ano para eu conseguir perceber que às vezes os esforços têm de ser feitos para um bem maior acontecer. Foi quando eu comecei a ver frutos no “Cabelo Pantene” e noutros trabalhos que percebi que valia a pena, porque até lá foi muito difícil para mim perceber que Lisboa me ia dar algo de bom. Achava só que não me ia conseguir integrar, que não ia conseguir fazer amigos, não estava a adorar o curso, então foi muito complicada a mudança.

Conciliaste o curso com a moda durante quanto tempo?
Fiz isso durante quatro anos, porque a partir do terceiro ano comecei a fazer só duas cadeiras por semestre, estava ao máximo a tentar conciliar tudo. Ia fazer o curso em cinco anos, depois percebi que efetivamente não dava, mas tentei conciliar ao máximo a parte do digital com a rádio, depois com a televisão. Mas foi quando surgiu a televisão que me vi mesmo obrigada a parar.

Como é que surgiu a oportunidade de ires para a Mega Hits?
Fui convidada para falar sobre o meu percurso no programa que faço hoje em dia, que é o “Drive in”, são as tardes da Mega Hits, e na altura tive uma conversa muito tranquila, lembro-me da conversa ser tão natural que de repente parecia que conhecia aquelas pessoas há anos. Diverti-me tanto que pensei: bem, se calhar gostava de fazer rádio. Quando saí da Mega, o meu atual diretor, o Nelson Cunha, mandou-me uma mensagem a dizer que tinha gostado de me ouvir falar, e a perguntar se eu gostava de fazer um estágio na Mega para perceber se a rádio seria um caminho da minha carreira. Não existia um protocolo na minha faculdade, mas na altura consegui falar com professores e com a faculdade, fiz o protocolo e fiz um estágio curricular. Depois tive mais três meses a estagiar como extracurricular e tive a proposta de ficar na rádio. No fundo foi de uma forma muito natural, muito tranquila, foi importante o estágio para perceber também se era aquilo que eu e eles queriam.

Qual é o papel da rádio na tua carreira?
A rádio definiu a minha personalidade enquanto comunicadora, acho que me fez perceber aquilo que eu quero ser on air, seja no digital, na televisão, na rádio, ou qualquer outro meio de comunicação em que possa estar presente. Foi na rádio que descobri como é que quero posicionar a voz, como é que quero posicionar a mensagem que transmito. Acho que também me deu uma grande noção de mensagem, porque estamos constantemente a pensar no ouvinte, na pessoa que está do outro lado, o que é que a pessoa quer ouvir, o que é interessante ou o que não é. Que é tudo muito vago, na verdade, mas sabendo nós o público para que estamos a falar, na Mega Hits em específico para jovens e para estudantes, acho que acaba por nos ajudar a termos um foco e percebermos o que podemos ou não falar. E também o direto, porque dá uma boa estaleca, fazer rádio todos os dias em direto é uma boa escola para qualquer área da comunicação.

Preparou-te para a televisão?
Sem dúvida. Não falo de mim, mas de todas as pessoas com quem já falei que vieram da rádio, consegue-se perceber que existe um pezinho um bocadinho mais à frente, porque a verdade é que quando o conteúdo está garantido, a imagem depois pode existir que não faz grande diferença. O foco sendo o da rádio, sendo só o conteúdo, temos de nos focar exatamente naquilo que está a ser dito, se está a ser bem dito, de forma coerente, se a retórica está lá, e isso depois sendo automatizado, por ser feito tanto tempo e tantas vezes, na televisão acaba por nos descansar um bocado, porque sabemos que o improviso já nos sai de uma forma diferente. Essa questão de ser feito repetidamente acaba por nos criar um cérebro mais ágil.

E como é que surgiu essa oportunidade de fazeres a transição para a televisão?
O “The Voice” abriu castings para apresentador digital e na altura a minha agência disse-me. Fiz o casting no Saldanha, em Vox Pop, às 9h da manhã de uma quinta-feira, lembro-me perfeitamente, e passado uma semana ligaram-me, estava eu em Madrid em trabalho, e disseram-me: és tu. No domingo estava no ar, foi assim uma coisa que aconteceu muito rápido, nem tive tempo para respirar, para pensar, para nada. Aí dei graças a Deus por ter a escola da rádio, porque efetivamente sentia que já tinha ali um suporte de improviso diferente, o direto já me tinha dado algumas coisas. E foi assim que surgiu, fiz eu e mais 20 pessoas o casting, fiquei muito feliz. Fui muito bem acolhida pela equipa da RTP, pela equipa da Shine, que é na verdade a produtora com quem fiz tudo até agora em televisão.

O que é que foi mais desafiante nesse processo de transição para a televisão?
Eu acho que o desafio maior é juntares a imagem, porque na rádio tu não estás preocupada com o que está a acontecer à tua volta, tu estás preocupada com aquilo que estás a dizer e com aquilo que estás a direcionar ao microfone. Na televisão existe a preocupação da postura, se falas com os braços ou não, tens que ter uma noção de ambiente que na rádio não existe, e esse desafio é grande porque tu estás a pensar, a falar e a ouvir ao mesmo tempo. Acho que essa ginástica mental é que é um bocado mais complicada. Na altura foi caótica, eu estava tão nervosa que nem me lembro bem do primeiro momento, nem do segundo, não tenho grandes memórias do primeiro dia em geral. Aconteceu tudo de uma forma tão rápida que fiquei um bocado anestesiada, diria, mas depois comecei a divertir-me e acho que essa é a parte boa do processo, quando te começas a divertir e a curtir aquilo que estás a fazer. Na televisão em específico, quando começas a descontrair e a não pensar tanto no que está à tua volta, no ambiente, na postura, é precisamente quando essa parte natural começa a surgir e começas a curtir aquilo que fazes.

Fala-me um pouco sobre o programa que estás a fazer atualmente, “Missão: 100% Português”.
O “Missão: 100% Português” surge depois do “The Voice”, numa aposta maior, aqui tive muito mais oportunidade de explorar a minha personalidade de televisão, porque foi gravado, tínhamos mais tempo. Foi uma experiência incrível porque conheci partes de Portugal e tradições que desconhecia, falei com pessoas com histórias incríveis que me ensinaram muito. Esta parte mágica da televisão, de manter vivas certas histórias e de eternizar momentos, é uma forma muito bonita de conseguirmos transpor aquilo que às vezes achamos que vai ficar algures. A tradição está a ser mantida e é muito bonito perceber que é até a nossa geração que está a fazer com que isso aconteça, que se preocupa. E a RTP faz um trabalho ótimo nessa área, acho até imprescindível, sendo um serviço público, só tem de o fazer e acho que os formatos dos programas que têm escolhido têm sido de uma boa curadoria.

E como tem sido lidar diretamente com o público?
Eu acho do melhor que há, sinceramente. Adoro falar com pessoas, adoro beber das experiências, acredito que é assim que aprendemos, que percebemos, nunca sabemos como é estar na pele de outra pessoa, mas quanto mais soubermos e quanto mais ouvirmos, melhor estaremos preparados para qualquer que seja a situação que nos aconteça na vida. Conseguimos sempre imaginar ou tentar perceber ou pôr-nos no papel de outra pessoa, sejam boas ou más situações. E é sempre bom conseguir falar com o público e entender o que é que eles têm para nos ajudar, que é tanto. Na verdade, só fazemos isto por causa do público, se não tivéssemos ninguém a ver-nos, de forma nenhuma isto faria sentido. A nossa cabecinha está sempre: ok, o que é que o público vai gostar, o que o público vai querer. É bom conseguirmos falar com eles diretamente e obtermos essas respostas na primeira pessoa.

Podemos falar de projetos futuros?
Não posso ainda, mas está para breve.

Mas entusiasma-te?
Entusiasma-me muito, é uma aposta grande na minha pessoa. Posso dizer que já está a acontecer, que já estou a gravar esse projeto e que me estou a divertir muito e estou ansiosa para poder partilhar, porque é assim um sonho meu cumprido. E o formato que é, é muito bom.

A rádio continua a ser o lugar que te faz mais feliz ou a televisão começa a ganhar terreno?
Acho que a televisão começa a ganhar terreno, mas estão os dois ali equiparados. Não existe a rádio ou a televisão estarem acima, acho que estão os dois no mesmo nível. Com estes projetos que tenho feito na televisão, ganhei ali algum espaço e tem-me feito muito feliz, porque tenho tido também mais liberdade para ser exatamente aquilo que quero ser. E eu gosto muito da rádio precisamente por isso, porque consigo, sem capas, sem nada, ser exatamente aquilo que eu sou e entregar a minha personalidade. E na televisão era um bocado mais difícil, mas agora estou a sentir que estou a ganhar esse espaço e por isso estão os dois ao mesmo nível.

Como é que descreves a tua evolução como criadora de conteúdo?
No início olhava muito para aquilo que fazia no digital como uma coisa separada do resto: o digital era uma coisa, a rádio era outra, a televisão era outra. Neste momento gosto de juntar um bocadinho de cada área na outra e, por isso, o digital é um complemento daquilo que eu faço. Tudo é pensado como um só, ou seja, se vou fazer um programa é obrigatório que esteja presente nas minhas redes, por isso já é pensado nesse sentido. Acho que a minha persona no digital agora mudou um bocado porque não mostro tanto do meu dia-a-dia pessoal, mostro mais do meu dia-a-dia profissional. E é por aí que quero ir também, porque também cresci um bocado e quero começar a ter a minha privacidade. E sinto que o público gosta de perceber como é que é o backstage e tudo e mais. Também uso muito as redes para partilhar opiniões e para partilhar um bocado aquilo que eu sou e dos meus gostos pessoais. Mas é isso, acho que vai um bocado mais para uma vertente profissional, inevitavelmente.

Que mensagens é que para ti são importantes transmitires ao teu público?
São várias, acho eu. Também não gosto de ser muito moralista nem de, de alguma forma, querer educar alguém. Mas o meu ponto de vista é um bocado, isto é um cliché gigante, mas a verdade é essa, de procurarmos em nós aquilo que temos que pode ser bom e que de alguma forma podemos trabalhar para ser benéfico para nós e para os outros que estão à nossa volta. Eu tento praticar uma filosofia de vida tranquila, sou uma pessoa calma, que não gosta de conflito e é por aí também que tudo aquilo que eu partilho vai. Inevitavelmente partilho muita coisa sobre inclusão, porque tenho um irmão com trissomia 21, é um assunto que a mim me toca desde sempre e por isso tento passar a palavra. Não estou aqui para educar ninguém, não sei mais do que ninguém, mas vivendo a experiência que vivo diariamente com o meu irmão acho importante, tendo o público que tenho, partilhar aquilo que a mim me parece importante para que de alguma forma possa ajudar quem vive com a deficiência e quem lida com a deficiência diariamente. Também tento aparecer o mais natural possível a maior parte das vezes, porque existe hoje em dia nas redes sociais uma noção irreal daquilo que é a vida, acho eu. Ultimamente falo também muito sobre o luto, porque acho que é um tabu gigante e é importante falar sobre isso quando se sente que assim é.

Eu tento ser o mais transparente possível e acho que isso me aproxima de quem me segue porque acho que criamos essa relação de: eu vou ser transparente, tu vais ser comigo. E é bonita a comunidade que se foi criando, tenho algumas seguidoras que já me seguem há muitos anos e com quem, na verdade, já criei quase como uma amizade.

É bonita essa comunidade digital que se cria, que a mim me assusta às vezes, mas no geral é boa.

E quando o conteúdo se mistura com o negócio, quais são os teus requisitos, o que não é negociável para ti?
Para mim tem de estar obrigatoriamente alinhado com o facto de eu gostar da marca, tenho que consumir, tenho que usar, não me faz sentido, nem de forma nenhuma a mim me sairia natural, eu estar a falar de uma marca ou a patrociná-la sem a usar. Existe sempre um fio condutor porque nenhuma marca existe do nada no meu perfil. É engraçado porque muitas das parcerias que eu tenho hoje em dia surgiram de forma natural, foram as marcas que viram o que eu usava e de alguma forma aproximaram-se e perceberam: olha, estarias interessada em, fazia-te sentido de alguma forma juntarmo-nos. Isso torna tudo um bocado mais familiar até. Às vezes até me irrita a mim própria, mas tenho muito esta coisa de querer trabalhar sempre num ambiente familiar, gosto de conhecer os clientes, gosto de falar com eles e isso ajuda depois a que a publicidade e o negócio sejam um bocado mais transparentes. Óbvio que é negócio, óbvio que é isto que me faz pagar as contas e por isso também tem de ser visto como tal. E é a minha carreira que está em jogo também, por isso faz-me sentido associar-me a boas marcas, faz-me sentido pensar num caminho a traçar relativamente às marcas a que me associo, mas isso tem acontecido de uma forma muito natural e também muito bem gerida pela Central com quem eu já estou há mais de metade da minha vida, na verdade.

Que projetos fizeste na digital nos últimos tempos é que gostavas de destacar?
Aliei-me à Kérastase que é uma marca com que eu já gostava de trabalhar há alguns anos e por isso estou muito feliz por ter feito isso. Acho que a melhor parte do digital para mim tem sido viajar, porque estas marcas têm sempre eventos internacionais e é sempre giro conhecer os novos produtos e conhecer novas pessoas. Essa experiência que nós passamos no digital também vende a marca, para a marca faz todo sentido e para nós também. Fiz agora uma viagem com a Kérastase a Los Angeles que foi incrível. Com a Armani também, com quem já estou há três anos, tem sido bonito trabalhar porque é uma marca que eu uso diariamente e que me faz sentido. A marca acaba por fazer muito parte do meu dia-a-dia, ou seja, não é só um transmitir nas redes sociais e apresentar-me para fazer um conteúdo, são verdadeiramente marcas que entram na minha vida e que fazem parte da minha vida pessoal e profissional.

E como é que surgiu a parceria com o Turismo de Macau?
O interesse veio por parte deles e foi uma experiência incrível. E foi uma questão de duas semanas, a minha agência explicou-me o conceito, que era para fazer uma publicidade ao Turismo de Macau, mesmo com o próprio do governo e com uma equipa chinesa. O método de trabalho deles é alucinante, eles trabalham das 5h da manhã às 10h da noite sem comer, sem parar, sem beber água, então foi uma experiência engraçada porque trabalhei com uma equipa completamente diferente. Adorei conhecer Macau, adorei perceber a influência portuguesa, perceber que eles nos adoram também, o que teoricamente é um conceito estranho quando falamos de colonização, mas efetivamente eles acolheram-nos muito bem. Foi engraçado perceber a influência portuguesa na arquitetura, na gastronomia, até na língua, há alguns estrangeirismos no mandarim que depois entra um bocado português e é todo um mundo diferente que adorei conhecer. Foi mais uma incrível oportunidade que o digital me deu, sem dúvida.

Tu és a mesma comunicadora em todas as plataformas?
Não, acho que no digital há uma Catarina a 100%, a Catarina que se vê aqui, que se vê em todo lado, porque entra tudo: a rádio, o digital, a televisão, a minha vida pessoal de vez em quando, então há uma mistura de todas as Catarinas possíveis. Na rádio, acho que a minha persona é um bocado mais divertida, estou sempre lá em cima, sempre a rir-me, sempre feliz. Na televisão, se calhar sou um bocadinho mais séria e é engraçado perceber isso. Ou seja, cada um vai buscar um bocadinho de mim real, mas acho que nunca o bolo todo. Esse bolo todo eu guardo para a minha família, para os meus amigos e para as pessoas que me fazem sentido.

Achas que tens uma certa responsabilidade nas redes?
Sim, completamente. Eu tento não falar de assuntos que a mim não me competem, sobre os quais não tenho estudos. Tudo o que partilho, até sobre a deficiência, sei que é falado por médicos, é falado por pessoas que o vivem diariamente, por cuidadores, por quem tem mão sobre a matéria. Não me faz sentido partilhar algo só porque sim, só para querer fazer parte de uma corrente. A maior parte das vezes acho que é preciso que vejamos as fontes e que tenhamos a certeza de que elas estão corretas e sustentadas por veracidade.

No meio de todo o teu percurso há algum momento que destaques como decisivo?
Sim, acho que há um momento. Quando surgiu o casting para o “The Voice”, duas semanas antes tinha reunido na TVI com a Cristina Ferreira. Quando passei no casting, tinha as duas hipóteses na mão, estava entre RTP e “The Voice” ou TVI eventualmente, que não era nada em concreto, não tínhamos falado sobre programa nenhum, mas tínhamos falado de uma possibilidade no ano seguinte. E a minha escolha foi a RTP e o “The Voice” e acho que isso traçou a 100% a minha carreira. Não sei onde estaria hoje na TVI, nem sei o que estaria a fazer, mas identifico-me muito com os valores da RTP, identifico-me muito com a televisão pública e estou muito feliz com a decisão que tomei há quatro anos porque levou a minha carreira para um rumo que estou a gostar. Na TVI não sei, porque não cheguei a ter essa experiência, mas acredito que pudesse ser diferente.

Tu estás em várias áreas, mas trabalhas sempre para o público, alguma vez foi difícil lidar com a exposição que isso te traz?
Em trabalho não, nunca foi difícil. Acho que também tenho tido ótimas experiências, tenho tido muita sorte nos projetos para os quais tenho sido escolhida, o público não é muito exigente comigo e sou muito feliz por isso. Acho que a única vez que posso ter sido infeliz com o público, mas isso tem uma componente muito mais pessoal, foi no digital e às vezes quando partilho coisas do meu irmão. Por incrível que pareça, há pessoas que às vezes ainda comentam e dizem coisas sem sentido nenhum. Essa parte acaba por me afetar, quer eu queira quer não. Mas de resto não me posso mesmo queixar.

Como é que garantes que chegas sempre às pessoas?
Não garanto, não quero chegar sempre às pessoas. Acho que a minha mensagem não tem de chegar a toda a gente, tem de chegar a quem fizer sentido. Eu não trabalho para garantir que chego às pessoas, trabalho para entregar um bom conteúdo e se esse bom conteúdo for bem feito eu quero acreditar que vai chegar a quem tem de chegar.

De tudo o que temos estado a falar, o que é que te deixa mais orgulhosa?
Eu paro pouco para olhar para trás, mas acho que o que mais me orgulha é ter sido sempre fiel ao que eu acredito e que me foi passado. Eu vi o esforço dos meus pais em formar-me, em formar o meu irmão, em quererem ter filhos que sigam os valores em que eles acreditaram a vida toda, e acho que o meu maior orgulho é esse, é ser fiel àquilo que eu acho que é ser uma boa pessoa, ser uma boa profissional. Quando essas duas coisas se juntam fico orgulhosa do meu percurso.

E há alguma coisa que tivesses vontade de mudar?
Acho que não. Independentemente de terem sido coisas boas ou coisas más, de forma nenhuma eu quereria mudar alguma coisa porque consegui sempre retirar algo de bom, seja qual for a situação. Consegui sempre ir buscar um bocadinho para aprender, um bocadinho para crescer, um bocadinho para mudar, e eu adoro mudar, adoro estar em constante mudança, estar sempre a aprender, a perceber de que forma é que posso melhorar, ou piorar para depois melhorar por consequência. Esse processo a mim fascina-me, gosto mais de me divertir pelo caminho.

Há objetivos fora destas áreas? Como a vontade de ser designer que falavas inicialmente.
Continua aqui um bichinho, mas acho que talvez quando tudo isto acalmar, se acalmar. Gosto de acreditar que sou desenrascada e, por isso, se isto não correr bem, acho que por aí irei. Mas para já a comunicação apaixona-me mesmo e gostava muito que por aqui continuasse o meu percurso.

O que é que mais te motiva hoje em dia?
Acho que é deixar os meus orgulhosos. Sempre foi na verdade. Vi o esforço dos meus pais em conseguirem melhorar a vida deles, consequentemente a minha e do meu irmão, foi um projeto de vida deles e a mim só me faz sentido ser uma boa filha e entregar aquilo que recebi.

Que impacto é que gostarias de deixar nas pessoas que te acompanham?
Gostava, obviamente, de ser lembrada como uma pessoa que de alguma forma teve alguma coisa a dar. Que não foi em branco o que quer que seja que eu esteja a fazer em qualquer área. Não quero educar ninguém, não estou aqui para pregar mensagens, nem para ser moralista. Acho que daquilo que a vida me vai dando, eu posso apenas falar das experiências que tenho e da minha forma de ver a vida. Há muita coisa que me aconteceu entretanto que me moldou e me mudou, e eu falo verdadeiramente sobre aquilo que sinto nas minhas plataformas. Se isso puder de alguma forma ajudar alguém a sentir ou a perceber melhor aquilo que sente para mim já é missão comprida.

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