Na mesa-redonda sobre o futuro do trabalho, promovida na cerimónia de apresentação dos resultados do estudo “Happiness Works”, o burnout foi um dos tópicos a estar no centro das atenções. No debate, realizado esta terça-feira, 26 de maio, na 42 Lisboa, as responsáveis de três empresas presentes defenderam que muitas lideranças continuam sem preparação para lidar com o desgaste emocional e psicológico das equipas.
O tema surgiu durante a mesa-redonda “O Futuro do Trabalho”, moderada pela diretora da Forbes Portugal, Nilza Rodrigues, que abriu a conversa com uma citação de Steve Jobs: “Somos felizes a trabalhar se gostarmos do que fazemos”.
A iniciativa “Happiness Works” é promovida pela Forbes Portugal em parceria com a Happiness Works.
Rita Baptista, Chief Human Resources Officer da CIMPOR Portugal & Cabo Verde, afirmou que há “casos de burnout, que resultam pela mistura entre o campo pessoal e o profissional e a falta de equilíbrio entre os dois”. Nesse domínio, a responsável da CIMPOR alertou: “As lideranças nem sempre estão preparadas para o tema do burnout; desvalorizam isso”.
Para responder ao problema, a empresa à qual pertence tem apostado na formação das chefias: “O papel das lideranças é decisivo: fizemos investimento nas lideranças para as dotar de ferramentas que as ajude a liderar com pressão, stress; formação em liderança situacional”. E vincou: “Procuramos que as lideranças estejam mais atentas”.

Ainda assim, Rita Baptista admitiu uma visão crítica sobre a banalização do conceito: “Contudo e correndo o risco de poder ser aqui um pouco polémica, não posso deixar de dizer que se banalizou a facilidade de se chegar a um burnout; há menos resiliência para se chegar a um burnout”.
A responsável considerou igualmente que o equilíbrio entre vida profissional e pessoal continua possível: “No meu entender é possível conciliar a variável trabalho e familiar”.
Rita Baptista considerou que o mundo laboral atravessa uma transformação profunda, incluindo setores tradicionalmente mais conservadores: “A evolução do mundo do trabalho é gigantesca também na indústria onde me encontro que é mais pesada. Antigamente, o trabalho era a vida e hoje, a vida não é trabalho”. Rita Baptista acrescentou: “Costumo dizer que mudamos o paradigma”. E detalhou: “Antigamente, as pessoas estavam numa organização para 40 anos; hoje estão durante 4 ou 5 anos”.
“Antigamente, as pessoas estavam numa organização para 40 anos; hoje estão durante 4 ou 5 anos”, refere Rita Baptista.
Na visão da responsável da CIMPOR, a transformação tecnológica tornou-se essencial para atrair profissionais mais jovens e qualificados: “Esse é um desafio que temos vindo a abraçar, com investimento em automação, digitalização, AI numa fábrica de cimento, é assim que conseguimos atrair jovens qualificados”. A responsável explicou que as mudanças geracionais e tecnológicas obrigam também setores industriais a reinventarem-se para conseguirem captar talento: “Hoje, para recrutarmos jovens para a indústria do cimento, não podemos dizer que o cimento é cinzento. Temos de digitalizar e inovar”.
A executiva descreveu ainda algumas das mudanças implementadas na operação industrial: “Temos drones a controlar processos de fabrico, uma rede fechada partilhada 5G para os drones circularem e controlarem todo o processo de fabrico, dar-nos alertas de segurança através dos drones”. Segundo Rita Baptista, “a forma de trabalhar é diferente hoje devido à maior tecnologia”. E reforçou: “Não vamos ter pessoas na mesma organização 10 ou 15 anos”.

Sobre as diferenças geracionais, observou: “As gerações estão a mudar”. E detalhou: “A geração entre os 28 e os 35 anos quis chegar mais rapidamente aos cargos de chefia e a geração entre os 20 e os 25 anos está a perceber que o caminho não é bem esse”.
A responsável admitiu também que as prioridades dos trabalhadores mudaram nos últimos anos: “Dinheiro não é tudo, mas hoje o dinheiro é mais importante do que há 5 anos, dadas as dificuldades sentidas atualmente. Dinheiro não é tudo, mas ainda é muito importante”. A pressão salarial, acrescentou, já se faz sentir nas organizações: “Temos pessoas que nos dizem que por mais 100 ou 150 euros saem”.
Entre os desafios atuais, Rita Baptista apontou ainda a necessidade de gerir modelos de trabalho híbridos e expectativas de flexibilidade: “Um dos desafios é mostrar o que é flexibilidade e teletrabalho para reter talento”.

Filipa Jardim da Silva, Happy Boss 2023, CEO e diretora clínica da Academia Transformar, destacou que as mudanças no mercado laboral também se refletem nas faixas etárias que decidem mudar de trabalho: “Temos muitas pessoas mais velhas, na casa dos 50 anos, a despedirem-se, o que há uns anos não seria muito provável”.
A especialista defendeu na sua intervenção uma abordagem mais humana nas organizações: “Sinto que as pessoas estão mais pessoas”.
Filipa Jardim da Silva alertou igualmente para o problema da produtividade em Portugal: “Um dos elementos a ter em conta é a questão da produtividade: em Portugal temos 25% a 28% de produtividade a menos por hora do que outros países”.
A responsável apontou vários fatores associados ao problema: “Temos ainda o fenómeno do presentismo, que torna as pessoas muito propensas a cometer erros; há ainda excesso de stress; e burnout. São fatores que roubam 5 mil milhões de euros às empresas em Portugal”.
“As empresas tendem a tratar as pessoas como recurso inesgotável. Elas não são inesgotáveis”, lembra Filipa Jardim da Silva.
Num contexto de crescente digitalização, Filipa Jardim da Silva defendeu a valorização das competências humanas: “Julgo que temos de perceber que, num mundo cheio de tecnologia, vai ser preciso softskills, como a inteligência emocional, a empatia”. E acrescentou: “Temos de olhar para as pessoas de forma colaborativa com as lideranças, conseguindo um equilíbrio”.
A especialista alertou ainda para aquilo que classificou como “cinismo individual e coletivo”. Sobre esse comportamento, explicou: “Por esse cinismo refiro-me aos comentários que as pessoas fazem a respeito da opinião das pessoas quando se queixam do cansaço; esses comentários a desvalorizar o cansaço que outras pessoas manifestam é negativo”. Filipa Jardim da Silva considerou que esse tipo de cultura pode ter consequências sérias: “Quando começamos a anestesiar em relação às necessidades é um caminho para a doença e para a saída da empresa, para um ritmo grande de turnover”. E reforçou: “Com esse tipo de atitude vamos ter um clima tóxico na empresa”, acrescentando ainda que “as empresas tendem a tratar as pessoas como recurso inesgotável. Elas não são inesgotáveis”, defendendo que as pessoas têm de ser bem tratadas.
Ana Luísa Beirão, partner da sociedade de advogados SRS, abordou a evolução do enquadramento jurídico laboral perante as novas exigências do mercado de trabalho, referindo que “o direito laboral vai procurando acompanhar as diferentes tendências no mundo do trabalho”. Entre os exemplos referidos, destacou a Diretiva da transparência salarial, lembrando “que Portugal vai incumprir na transposição desta diretiva salarial”.
“O direito à desconexão é muito importante”, mas a sua aplicação em Portugal é deficitária, aponta Ana Luísa Beirão.

Ana Luísa Beirão alertou também para o atraso português na área da saúde mental: “Em Portugal, estamos muito aquém no que tange à temática da saúde mental”. Outro dos temas levantados foi o direito à desconexão, dos colaboradores separarem as águas entre o que é o tempo do trabalho e o tempo do lazer: “O direito à desconexão é muito importante”. Apesar de previsto na lei portuguesa, a advogada considera que a aplicação prática deste direito à desconexão é insuficiente: “Está plasmado no direito português, mas não é aplicado em Portugal, por diferentes razões, entre as quais falta de inspeção da Autoridade para as Condições do Trabalho, algo que em Espanha não acontece”.
No final da mesa-redonda, Nilza Rodrigues pediu às intervenientes que identificassem o elemento mais importante no trabalho para si. Rita Baptista respondeu: “Fazer o que gosto é o mais importante”. Filipa Jardim da Silva disse: “Conexão e contributo é o que gosto mais”. Já Ana Luísa Beirão concluiu: “As pessoas com quem trabalho é o que mais valorizo”.





