O período da reforma não tem de ser no sofá, sobretudo numa altura em que a longevidade é uma realidade incontornável e que a faixa etária acima dos 65 anos se sente autónoma e com saúde. O envelhecimento da população portuguesa é uma realidade que os números não deixam esquecer: atualmente mais de dois milhões de portugueses têm mais de 65 anos, corresponde a cerca de 24% da população. A estimativa é que este número deverá crescer para 27% em 2030 e 33% em 2050. Com base neste cenário, o grupo ReVentures apresentou o projeto Club65 que se assume como uma solução de senior independent living que propõe um novo estilo de vida para uma geração que está a redefinir o envelhecimento: mais ativa, urbana e exigente. Em entrevista à Forbes Portugal, o CEO do grupo ReVentures, Hugo Gonçalves Pereira, admite que o Club65 traz para o mercado uma nova categoria no segmento do imobiliário nacional que contempla cerca de 900 apartamentos, em que na primeira fase do projeto inclui sete empreendimentos e resulta de um investimento de 225 milhões de euros. Quanto às localizações, o grupo garante que foram selecionadas de forma criteriosa pela sua centralidade e proximidade a comércio, cultura, serviços, transportes e espaços verdes. Na área metropolitana do Porto estão pensadas para a Lapa, Boavista e Matosinhos. Na área metropolitana de Lisboa as localizações são: Benfica, Campo Grande, Portela e Carcavelos.
Os apartamentos, disponíveis em tipologias T0 a T2, foram desenhados para garantir conforto, funcionalidade e autonomia aos residentes. O modelo de comercialização assenta numa mensalidade base de mil euros que inclui serviços essenciais, como concierge 24 horas nos sete dias da semana, manutenção, limpeza, segurança e resposta a emergências.
Apresentaram ao mercado um conceito diferente para o público sénior com o projeto Club65. Em que é que consiste este conceito?
O nosso conceito de Senior Independent Living é direcionado para pessoas seniores com mais de 65 anos independentes e autónomas que querem uma solução de habitação diferente de viverem nas suas casas sozinhos, um conceito de habitação com serviços em que podem desfrutar dos anos da sua vida após os 65 anos com mais qualidade de vida, com mais socialização e um conjunto de serviços que torna a sua vida mais fácil e mais cómoda e isso liberta-lhe tempo para usufruir e desfrutar das vida. Ou seja, é um conceito em que as pessoas pagam uma mensalidade que inclui, além do alojamento um conjunto de serviços base muito alargados, desde logo, todos os custos com eletricidade, água, gás, aquecimento, etc., mas também inclui um serviço de concierge 24 horas por dia para a ajuda desde as tarefas mais mundanas até à ajuda em caso de alguma necessidade, alguma emergência. Mas também inclui, por exemplo, atividades de socialização e atividades lúdicas. Nós vamos ter em cada residência vários animadores especializados que podem promover atividades que podem ser artísticas, podem ser de jardinagem, podem ser desporto, todos os dias vai haver uma agenda bastante abrangente de atividades, de maneira que as pessoas mantenham uma vida ativa na companhia de outras pessoas que partilham dos mesmos interesses, sem se preocupar com a sua habitação, que nós tratamos tudo, manutenção, seguros, etc., está tudo tratado por nós.
Mas o projeto imobiliário arranca com que ativos?
Nesta primeira fase temos sete residências, num total de 900 apartamentos, quatro delas na zona da Grande Lisboa e três na zona do Grande Porto. Portanto, são edifícios que variam entre os 112 e os 147 apartamentos e que estão em bairros muito centrais das cidades de Lisboa e Porto, tipicamente em localizações com uma forte vida de bairro, porque o que nós acreditamos é que as pessoas nesta idade não querem estar isoladas, não querem estar num sítio longe de tudo, querem estar num sítio onde saiam da residência, saiam da sua casa, no fundo, e possam ir ao café, à tabacaria, ao supermercado, ir à farmácia. E, portanto, bairros como este em que nos encontramos agora, ao pé do Campo Grande, temos uma residência também na Portela, temos uma residência em Carcavelos, em Benfica, portanto, bairros consolidados muito atrativos para as pessoas viverem e que as pessoas já estão habituadas a viver lá. Nós não queremos desenraizar as pessoas, queremos que as pessoas continuem a usufruir e a desfrutar da cidade, tal como sempre fizeram, mas agora com mais apoio e serviços de ajuda ao dia-a-dia.
Quando é que as residências estarão operacionais?
Nós vamos abrir a primeira residência em abril de 2027, portanto, sensivelmente daqui a um ano, e depois, durante os seguintes 24 meses vamos abrir as outras seis residências. Portanto, entre abril de 2027 e abril de 2029, vamos ter as sete residências em funcionamento.
E no conceito aplicam a terminologia residentes e não utentes…
No nosso caso vamos ter residentes. Nós vamos trazer apartamentos com diferentes tipologias, onde as pessoas passam, de facto, a viver, a residir. Elas vêm residir nos apartamentos nos nossos condomínios. É diferente a conotação que nós damos a um residente ou a um utente, de alguma forma. É muito importante enfatizar que não temos nada a ver com um lar de terceira idade, não só pelo tipo de habitação. Num lar, tipicamente, estamos a falar de quartos duplos ou triplos ou singles. Nós estamos a falar de apartamentos independentes. Num lar, não temos este conjunto de infraestruturas de apoio. Nós temos cerca de 1300 metros quadrados por residência de espaços comuns, que incluem piscina, ginásio, cabeleireiro, restaurante, cafeteria, sala de jogos, sala de televisão. Portanto, temos salas de apoio para fisioterapia ou para outro tipo de serviço de apoio, ou massagens, ou spa, etc. E também, outra diferença em relação aos lares, é que nós não estamos debaixo da segurança social. Ou seja, um lar é um negócio muito mais regulado e nós somos um tipo de imobiliário diferente, é um imobiliário privado. Nesse aspeto, assemelha-se mais a hotelaria do que a um lar, se quiséssemos fazer um paralelo.
Havia então uma oportunidade no mercado português onde o conceito de lar está mais enraizado e com o Club65 oferecem uma solução que permite envelhecer com qualidade de vida?
Exatamente. Nós detetámos que havia aqui uma oportunidade de mercado, porque com o aumento da longevidade, as pessoas, de repente, começaram a ter aqui muitos anos em que estavam bem, mas já não tinham uma solução de habitação que se adaptava às suas necessidades. Quando eu digo não se adaptava é porque muitas vezes uma pessoa de 75 anos pode já viver numa casa muito grande, se calhar às vezes até já vive sozinha, por ser viúva, ser divorciada, não tem filhos, os filhos já saíram de casa, e, portanto, vive numa casa demasiado grande, com problemas de manutenção, às vezes é uma vivenda que tem degraus, e, portanto, na prática, as pessoas, quando têm essa situação, a única opção que teriam seria vender a casa e comprar uma nova mais pequena, mas isso não responde às suas necessidades. E, portanto, nós vimos ocupar este espaço das pessoas que estão bem, estão autónomas, mas que querem uma solução de habitação diferente daquela que têm hoje, e também não querem ir para um lar porque estão ótimas e fazem toda a sua vida normal. Antes as pessoas reformavam-se e passado poucos anos se
faleciam, e, portanto, esse intervalo era muito pequeno. Hoje em dia as pessoas reformam-se aos 65 ou 67 e depois vivem até aos 85, portanto têm 20 anos de vida depois de se reformar. Por isso é que lá fora, no Reino Unido e também nos Estados Unidos, muitas vezes, chamam a estas residências de retirement communities. Um, porque são para pessoas que já não trabalham, que já estão retiradas, e comunidades, que é também uma palavra muito importante do nosso conceito, que é nós queremos criar um sentido de comunidade de as pessoas pertencerem a uma comunidade de pessoas com as mesmas idades e os mesmos interesses e partilharem um espaço em comum.
Em termos do investimento quanto vai ser canalizado nesta primeira fase?
Nós vamos investir mais de 225 milhões de euros nestes sete empreendimentos, nesta primeira fase, e é um investimento que foi feito com recurso exclusivamente a capitais privados portugueses, ou seja, não temos nenhum apoio do Estado, e de investidores de referência. Temos vários investidores de grande renome, family offices, empresários e profissionais liberais com carreiras de sucesso, além de um ou outro institucional que também investiu e dois fundos, mas tudo capitais nacionais.
E em termos de metas de expansão, há outras cidades que poderão receber o vosso conceito?
Ainda não temos objetivos concretos, ou seja, números, mas o que podemos dizer é que consideramos que ainda existe muito espaço, tanto nas cidades de Lisboa como na cidade do Porto para haver novas residências. Estando estas consolidadas haverá outras oportunidades de investimento. E achamos também que noutras cidades também importantes, portuguesas, Braga, Coimbra, Leiria, Aveiro, etc., também haverá potencial. E, portanto, isso fará parte de uma segunda fase. Ou mesmo expansão internacional, que é algo que iremos considerar, eventualmente, para a Espanha, a partir de 2028/2029.
Mas como é que uma marca portuguesa vai conseguir entrar em Espanha onde o mercado já está mais estruturado?
Neste caso, nós somos pioneiros na introdução deste conceito em Portugal e, em Espanha, existem alguns pequenos operadores, mas, claramente, quando nós tivermos o portfólio a funcionar em 2029, seremos líderes de mercado ibérico. Ou seja, seremos, de longe, o operador com maior número de residências e com um conceito comprovado. Em Espanha, o que predomina são conceitos deste género, mas para estrangeiros e na zona costeira de Espanha, ou seja, nas zonas mais balneares. Este conceito, como nós o temos aqui, de residências urbanas dirigidas ao segmento nacional, esse aí, penso que somos aqui mais inovadores e estamos à frente. França já é o contrário, já está muito desenvolvido. O maior operador francês deste tipo de residências tem 200 residências. O segundo maior também tem cento e qualquer coisa. Em França, penso que haverá cerca de 20 mil apartamentos deste género, já é outra dimensão. E também já existem muitas residências em cidades fora da capital ou fora das principais cidades. Portanto, já há uma distribuição muito alargada do conceito por mais de 20 ou 30 cidades.
Referiu que em 2029 será líder de mercado. Como será concretizada esta meta?
Seremos líderes de mercado a nível de número de apartamentos, ou seja, número de pessoas, de residentes e clientes, e também em termos de número de residências. Porque, pelo que sabemos, este mercado de imobiliário é um mercado que demora bastante tempo a desenvolver e, pelo que sabemos, não existem muitas residências em desenvolvimento e, portanto, claramente estamos à frente da nossa concorrência. E a nossa expectativa é que, durante os próximos anos, estejamos sozinhos no mercado, pelo menos em Portugal.
É um conceito que está apenas pensado para os cidadãos portugueses ou poderão também atrair outras nacionalidades?
Ele foi pensado para a bolsa dos portugueses, para a bolsa da classe média portuguesa, mas pensamos que também tem todas as valências necessárias para ser interessante para um casal ou uma pessoa internacional que ou já vive em Portugal ou que se queira mudar para Portugal e que queira uma solução fácil. Normalmente dou o exemplo dos meus vizinhos da frente, que vivem no Campo Grande: ele tem 78 e ela tem 81 anos, mudaram-se da Califórnia e tiveram dificuldade em instalar-se, em encontrar um apartamento, em tratar da burocracia toda, não falam português e, portanto, seriam o tipo de cliente ideal para uma residência como a nossa, porque são pessoas que têm capacidades financeiras, como é óbvio, pagam de renda muito mais do que aquilo que nós cobraríamos aqui e, com uma solução como a nossa, teriam todos os seus problemas resolvidos. Acho que, não sendo o nosso target, vamos acabar por ter uma percentagem ainda relevante de clientes internacionais.
Em termos de atuação da ReVentures, quais são os outros segmentos do imobiliário onde têm presença?
Nós somos um developer, portanto, um promotor imobiliário já com mais de 12 anos de experiência, em que, começámos pelas residências dos estudantes. O nosso foco é soluções de living, ou seja, quando nós dizemos de living é não somos um promotor que constrói casas para vender, somos um promotor que desenha conceitos inovadores de living para endereçar as
necessidades específicas de um segmento da população. Começámos pelos estudantes que tinham uma necessidade muito premente, vêm estudar, precisam de um quarto durante seis meses, um ano. Depois virámos para o segmento de senior living e estamos a olhar para outros segmentos. A nossa especialidade é estes segmentos em que nós também somos diferentes porque não só compramos os terrenos, desenvolvemos, construímos, mas também operamos. Ou seja, somos o chamado end-to-end developer e, portanto, isso dá-nos uma capacidade única de desenhar empreendimentos que sejam feitos à medida e já pensar na operação. Ou seja, tudo o que nós desenhamos está a pensar nas necessidades da operação porque sabemos que vamos ser nós a operar, sabemos o que é que é preciso.
Em termos das residências de cada segmento, quantas é que têm nesta fase?
Nós temos sete residências de senior living em desenvolvimento e outras sete residências de estudantes em desenvolvimento. Portanto, temos no senior living 900 apartamentos e nos estudantes três mil quartos. No global, hoje, temos um plano de investimentos que supera os 400 milhões de euros, dos quais 225 milhões em residências de senior living e 175 milhões em residências de estudantes.
No futuro, alguma das áreas irá superar a outra em termos de aposta?
O que tem acontecido é que tem sido por escadas. Ou seja, nós começámos com as residências de estudantes, depois vendemos, depois veio o senior living. Portanto, eu acho que eles vão crescendo por degraus, digamos. Portanto, é natural que a próxima expansão de investimento seja do lado dos estudantes, até porque foi o ano passado que subimos o valor de investimento do senior living, passámos das cinco para as sete residências. E, portanto, agora provavelmente o próximo será os estudantes. Mas também já estamos a pensar para 2027 em olhar para outros segmentos que não são nem estudantes, nem seniores, é algo no meio. E, portanto, poderão ser segmentos de co-living ou flexible living. Para dar, lá está, resposta a outro tipo de necessidades que não são estas específicas destes segmentos. Podem ser, por exemplo, os expatriados, ou nómadas digitais, ou jovens profissionais. Nós estamos sempre à procura de qual é a necessidade que existe no mercado e como é que nós, com as nossas competências e o know-how, conseguimos dar resposta a essa necessidade específica.





