O Forward College foi fundado em 2021 por três gestores com experiências diversas: Boris Walbaum, Céline Boisson e Jeffrey Sampson. Recentemente a instituição esteve sob os holofotes quando se soube que a Infanta Sofia, a segunda filha do Rei de Espanha, iria fazer o curso superior de Ciência Política e Relações Internacionais com passagem pelo campus de Lisboa, seguindo depois para Paris e Berlim. O Forward College, cujos cursos têm a duração de três anos decorrendo em Lisboa, Paris e Berlim, combina diplomas da University of London com desenvolvimento pessoal e competências práticas. Em entrevista à Forbes Portugal, o fundador e presidente, Boris Walbaum, explica porque escolheram a capital lisboeta para instalar um dos polos do Forward College salientando a sua atratividade europeia real e crescente, posicionando-se na interseção entre a Europa, o mundo lusófono e o Atlântico de uma forma que poucas cidades conseguem igualar.
Lisboa integra um dos três polos do Forward College e foi escolhida pela Infanta Sofia de Espanha para estudar. O fundador e presidente da instituição de ensino, Boris Walbaum, destaca que num mundo em transformação, hoje é preciso o diploma e a experiência que desenvolve a capacidade de o utilizar. No futuro imagina o Fowrad College com uma rede global de campus interligados que representa uma nova abordagem ao ensino superior
Porque escolheu Lisboa como um dos polos do Forward College e que fatores académicos, culturais ou sociais foram decisivos nessa escolha?
Lisboa é uma cidade onde várias eras colidem em tempo real. Bairros antigos, uma cidade cheia de tradição, um ecossistema tecnológico em expansão, vagas de talento internacional a chegar ao lado de comunidades enraizadas aqui há gerações. Essa fricção é visível, por vezes desconfortável, e esse é precisamente o objetivo. Queríamos que os nossos estudantes aprendessem numa cidade que encarna aquilo que ensinamos: a mudança não é um acontecimento excecional, é uma condição permanente.
Portugal é apenas um ponto de entrada ou poderá tornar-se um hub estratégico mais alargado para o Forward College, incluindo uma possível expansão futura?
Lisboa é o nosso primeiro campus e continuará a ser o mais importante. A sua atratividade europeia é real e crescente, posicionando-se na interseção entre a Europa, o mundo lusófono e o Atlântico de uma forma que poucas cidades conseguem igualar. Mas o mais importante é isto: os nossos estudantes não são turistas aqui. Desde o primeiro dia, desenvolvem projetos com associações locais e startups que enfrentam problemas reais nas áreas da habitação, mobilidade e inclusão. Não se trata de uma simulação em sala de aula. É uma verdadeira integração na comunidade local. E isso não acontece apenas enquanto estão em Lisboa: a ligação dos nossos estudantes à cidade é evidente. No final dos seus três anos, já em Berlim, querem regressar a Lisboa para a cerimónia de graduação.
O Forward College combina diplomas da University of London com desenvolvimento pessoal e competências práticas. Que lacunas do ensino superior tradicional este modelo procura colmatar?
O problema não é não sabermos qual cenário irá prevalecer. É que a própria incerteza se tornou permanente. A volatilidade deixou de ser exceção, é o novo normal. IA, realinhamentos geopolíticos, pressão climática: estas forças não estão a convergir para um novo equilíbrio estável que possamos prever. Estão a acumular-se e a gerar instabilidade estrutural. A educação tradicional foi construída para um mundo previsível: identificar as competências de amanhã e ensiná-las hoje. Esse modelo está ultrapassado. Não porque sejamos maus a prever, mas porque a previsão deixou de ser a estratégia certa. Em estratégia, chamamos “decisões sem arrependimento” (“no-regret moves”) às escolhas que mantêm valor independentemente do cenário. Na educação, isso significa investir no que eu chamo de competências profundas: capacidades que permanecem relevantes precisamente porque não estão ligadas a uma tecnologia específica ou a uma condição de mercado. Competências cognitivas profundas: pensamento crítico, definição de problemas, criatividade. Competências sociais profundas: colaboração, comunicação intercultural, influência. Competências emocionais profundas: resiliência, autoconsciência, capacidade de agir sob pressão. Competências práticas profundas: adaptabilidade, tomada de decisão, autoeficácia, interação com máquinas. Estas competências foram úteis ao longo da história e continuarão a ser centrais para o talento humano. São o investimento mais seguro hoje na educação.
A possibilidade de estudar em Lisboa, Paris e Berlim durante o programa é única. Que impacto tem essa mobilidade no desenvolvimento académico e pessoal dos estudantes?
Mudar de Lisboa para Paris e depois para Berlim não é apenas entusiasmante para estimular a curiosidade e abertura ao mundo. É um treino deliberado de adaptação e interculturalidade. Cada cidade implica recomeçar, reconstruir rotinas, lidar com novas normas culturais, três vezes em três anos. Isto é a aplicação direta do que descrevemos anteriormente. Adaptabilidade e comunicação intercultural não são traços de personalidade são competências profundas desenvolvidas através da exposição repetida ao desconhecido. A mobilidade é o nosso principal instrumento pedagógico para isso.
A residência de estudantes parece ser um pilar central do projeto. Que papel desempenha a vida em comunidade no modelo educativo do Forward College?
A residência é essencial para fomentar o forte sentido de pertença que se desenvolve rapidamente entre os estudantes do Forward College. Ninguém fica de fora. Participei recentemente num seminário em Cambridge sobre IA e ensino superior com líderes de Harvard, MIT, Cambridge, OpenAI e Google DeepMind. A conclusão comum foi surpreendentemente simples: num mundo em rápida mudança, onde a tecnologia assume um papel cada vez mais central, as relações humanas tornam-se o contrapeso de que precisamos para manter o equilíbrio e prosperar. Para além de serem o principal fator de felicidade, esquecemos frequentemente que as relações são também o combustível do aprendizado. Além disso, é um contexto privilegiado para desenvolver inteligência emocional – em conversas noturnas na cozinha partilhada – e inteligência social. Trata-se tanto de bem-estar humano quanto do desenvolvimento destas competências sociais e emocionais profundas.
Que tipo de estudante procura o Forward College e como responde às expectativas de uma geração cada vez mais exigente e orientada para o futuro?
Atraímos estudantes e famílias que compreenderam algo essencial: num mundo em rápida transformação, um diploma prestigiante é necessário, mas não suficiente. É preciso o diploma e a experiência que desenvolve a capacidade de o utilizar. Temos credibilidade académica graças à nossa parceria com a University of London (London School of Economics e King’s College London), o que garante um diploma prestigiado. Mas os nossos estudantes escolhem o Forward porque querem mais do que um certificado. Querem três anos que transformem verdadeiramente a forma como pensam, colaboram e agem. Isso é uma ambição diferente e atrai um tipo diferente de estudante. O “medo de perder algo” (FOMO) existe nos dois sentidos. Pode passar três anos numa instituição tradicional e ter um nome reconhecido no currículo, ou pode ter isso e também a experiência, as competências profundas, a rede internacional e a adaptabilidade que um modelo de campus único não proporciona.
O facto de a Infanta Sofia de Espanha ter escolhido o Forward College trouxe visibilidade internacional. Como gerem essa exposição mantendo o foco académico no centro?
É verdade que o Forward College atrai estudantes e famílias mediaticamente visíveis. Nunca foi parte do nosso plano e não nos distrai da nossa missão, pelo contrário. Quando estudantes que poderiam escolher qualquer instituição escolhem o Forward, isso valida a nossa visão: o modelo tradicional já não é suficiente por si só. Mas a verdadeira validação vem do que fazem depois. Dos nossos diplomados que prosseguem estudos, 76% entram em instituições como LSE, Columbia, Oxford, HEC, Sciences Po ou UCL. Os restantes trabalham em organizações como OCDE, ONU, EY ou L’Oréal antes de fazerem mestrado.
Mas como avalia o facto de o Forward College ter sido escolhido pela Infanta Sofia de Espanha para a sua educação?
Casos como o da Infanta mostram que a nossa proposta ressoa com a nova geração. Muitos pais ainda preferem instituições tradicionais por parecerem mais seguras, o que compreendo, mas considero paradoxal. Ao mesmo tempo, fazemos questão de manter diversidade social e cultural. Cerca de 40% dos nossos estudantes recebem apoio financeiro. A diversidade não é apenas justa, enriquece a experiência de todos.
O empreendedorismo e as competências práticas estão integrados no currículo. Como prepara o Forward College os estudantes para um mercado de trabalho em constante evolução?
A única certeza é que a incerteza veio para ficar. Por isso, a educação não deve tentar adivinhar empregos daqui a três ou cinco anos. É preciso focar no longo prazo, nos fundamentos. O rigor académico continua importante, mas perde valor quando máquinas inteligentes o tornam uma commodity. Devemos expandir a aprendizagem para competências sociais, emocionais e práticas profundas. E funciona: os nossos estagiários recebem, em média, 9,8/10 dos seus supervisores. Independentemente do futuro, as empresas precisarão sempre de pessoas adaptáveis, capazes de gerar confiança, gerir conflitos, liderar equipas diversas e imaginar o que ainda não existe. Também é essencial que sejam fluentes em tecnologia. Não para se tornarem técnicos ou programadores – isso já é em grande parte feito por máquinas – mas para compreenderem o seu impacto e como utilizá-la. Por isso incentivamos fortemente o uso de IA.
No seu novo livro, “AI – Reinventing Education in the Age of Artificial Intelligence”, defende uma transformação profunda da educação. O que considera que é preciso mudar com maior urgência?
A mudança mais urgente é esta: os alunos não podem continuar a ser recetores passivos. Têm de se tornar aprendizes autónomos, isso é uma condição de sobrevivência. A sala de aula invertida é a nossa resposta: os alunos estudam o conteúdo antes da aula (onde a IA pode ajudar). O tempo em aula é dedicado ao que os humanos fazem melhor: debater, desafiar, colaborar. Outro ponto crítico é a avaliação com IA: precisamos de momentos com e sem IA, mas com total clareza. Os alunos devem saber quando podem utilizá-la e como. Quando usada, devem demonstrar como a utilizaram, incluindo documentação da estratégia e avaliação oral.
A Inteligência Artificial é frequentemente vista como uma ameaça ao pensamento crítico. Como pode, pelo contrário, tornar-se uma aliada do ensino superior?
Sem um enquadramento pedagógico claro, a IA pode prejudicar a aprendizagem. Os alunos passam a pensar menos. Por isso criámos o “AI Mirror”: uma ferramenta que fornece feedback detalhado sobre como os estudantes usam IA: frequência, finalidade e qualidade dos prompts. Somos rigorosos nas avaliações sem IA (tecnologia bloqueada), mas não queremos restringi-la. Queremos equilibrar espaços de desempenho humano puro e colaboração com IA. No futuro, teremos também um certificado de IA.
Acredita que modelos híbridos e internacionais como o do Forward College representam o futuro do ensino superior na Europa?
Há espaço para vários modelos. O essencial é desenvolver competências profundas e equilibrar IA com interação humana. Preocupa-me, porém, a lentidão da adaptação. Muitas universidades continuam a fazer pequenos ajustes a sistemas desenhados para outro mundo. Muitos estudantes ainda escolhem com base no prestígio e rankings antigos. Precisamos de redesenhar o ensino com base em novos pressupostos: que a incerteza é permanente, que a adaptabilidade se aprende e que o valor de uma universidade está em formar pessoas capazes de prosperar em ambientes complexos.
Onde gostaria que o Forward College estivesse daqui a dez anos, em termos de impacto educativo, presença geográfica e desenvolvimento humano?
Imagino uma rede global de campus interligados que representa uma nova abordagem ao ensino superior. Queremos ser reconhecidos pela qualidade dos nossos diplomados: pessoas com rigor intelectual, capacidade prática, fluência cultural e sentido ético.





