A saúde continua, em grande parte, organizada para agir quando o problema já explodiu. O doente sente, piora, procura ajuda, entra no sistema e, só então, começa o movimento. O problema é que a tecnologia já não aceita essa lógica. O que vi no health.tech global summit, na Suíça, foi precisamente isso: a próxima revolução da saúde não será definida por quem lançar o dispositivo mais vistoso, mas por quem conseguir aproximar prevenção, acompanhamento e decisão clínica da vida real das pessoas.
Durante anos, a inovação em saúde foi vendida como uma corrida por mais sensores, mais plataformas, mais dashboards e mais funcionalidades. Em teoria, tudo isso parecia inevitável. Na prática, nem sempre se traduziu em uma mudança real. Porque a saúde não muda quando a tecnologia impressiona. Muda quando ela entra no fluxo, quando é usada, quando reduz a fricção e quando se torna parte da rotina.
É por isso que a palavra mais importante da próxima fase da health.tech não é invenção. É adoção.
Esta foi, para mim, a mensagem mais forte do evento. A inovação que vence não é apenas a mais sofisticada. É a que se integra melhor. Em saúde, ideia sem adesão é ruído. A tecnologia sem tradução clínica continua a ser demonstração. E o mercado começa, finalmente, a perceber isso.
Vi essa tese materializada em diferentes formatos. Alguns apostam na monitorização persistente, com dispositivos dedicados e riqueza longitudinal de dados. Outros caminham noutra direção: menos hardware, menos atrito, mais uso do que o consumidor já tem na mão. Uma das propostas mais simbólicas que encontrei seguia exatamente essa lógica: em vez de exigir um anel, um relógio ou outro sensor adicional, a ambição era transformar o próprio smartphone em porta de entrada para rastreio e acompanhamento. O ponto relevante aqui não é a empresa. É a visão de mercado que ela representa. A próxima fronteira da saúde digital será ocupada por quem reduzir a distância entre a pessoa e o seu próprio acompanhamento.
Essa é, a meu ver, a grande inflexão estratégica do setor. Durante muito tempo, discutimos tecnologia em saúde como se a principal barreira fosse capacidade técnica. Hoje, a barreira passou a ser comportamental, operacional e clínica. O desafio já não é apenas medir. É fazer com que medir tenha frequência, contexto, confiança e consequência útil.
É por isso que a disputa mais interessante do mercado não é entre “anel” e “aplicação”, nem entre “sensor” e “plataforma”. A disputa real é entre profundidade e escala. De um lado, produtos com maior continuidade de sinal e capacidade de construir uma linha de base fisiológica mais robusta. Do outro lado, soluções com menor barreira de entrada, maior acessibilidade e maior potencial de distribuição em massa. A empresa que liderar a próxima fase da health.tech será, muito provavelmente, aquela que conseguir equilibrar estas duas forças: profundidade clínica e simplicidade de adoção.
Os números mostram porque essa mudança deixou de ser nicho. Segundo a Grand View Research, o mercado global de digital health foi estimado em 288,55 mil milhões de dólares (260 mil milhões de euros) em 2024 e pode chegar a 946,04 mil milhões de dólares (821 mil milhões de euros) até 2030, com crescimento anual médio de 22,2% entre 2025 e 2030. Isso não acontece por acaso. A conta do modelo reativo já não fecha. Sistemas de saúde sobrecarregados, falta de profissionais, envelhecimento populacional, doenças crónicas em expansão e pressão económica estão a impulsionar o setor para modelos mais contínuos, mais distribuídos e mais preventivos. A saúde digital deixou de ser um acessório. Está a tornar-se infraestrutura.
Mas há outro motor a acelerar este movimento: a inteligência artificial multimodal. A Organização Mundial da Saúde destacou, em 2024, o potencial de modelos capazes de combinar diferentes tipos de dados e outputs para aplicações em saúde. Quando a IA passa a combinar imagem, voz, contexto, histórico e sinais fisiológicos para gerar triagem, alerta e suporte à decisão, o mercado deixa de falar apenas de recolha de dados e começa a falar de interpretação. E é aí que a conversa fica mais séria. Porque recolher mais dados nunca foi o objetivo final. O objetivo sempre foi decidir melhor, antes.
Nesse contexto, Tom Hale, CEO da ŌURA, representa bem uma visão madura do setor. O ponto mais importante não é a defesa de mais monitorização por si só. É a ideia de que a tecnologia não deve substituir médicos, mas ampliar a sua capacidade de atuação. Essa distinção é decisiva. A tecnologia pode antecipar sinais, organizar padrões, reduzir ruído e apoiar priorização. Mas a interpretação clínica, a decisão e a responsabilidade continuam humanas.
E é precisamente aqui que o debate deixa de ser apenas tecnológico. Passa a ser ético, clínico e político.
Um dos méritos do evento foi não cair no deslumbramento fácil. Ao lado da excitação com IA, biomarcadores e monitorização contínua, houve também um alerta claro: a inovação falha quando tenta entrar como plug-and-play num sistema de cuidado que é, por definição, complexo. Falha quando não conversa com as equipas clínicas. Falha quando não respeita o peso regulatório. Falha quando mede muito, mas explica pouco. Falha, sobretudo, quando confunde eficiência com cuidado.
É por isso que vozes como a de Lara Bloom são tão importantes neste debate. A sua presença recoloca no centro uma verdade que o mercado frequentemente esquece: inovação sem representação pode escalar invisibilidades; inovação sem escuta pode ampliar vieses; e inovação sem responsabilidade pode transformar promessa em dano.
Esta é, para mim, a fronteira mais crítica da próxima fase da health.tech. Não basta prometer mais precisão. Não basta prometer mais rapidez. Não basta prometer mais personalização. A pergunta decisiva será outra: essa inovação consegue operar com confiança? Consegue ser integrada? Consegue respeitar limites clínicos? Consegue funcionar em um sistema regulatório sério? Consegue servir o paciente sem enfraquecer o médico?
Na Europa, sistemas de IA usados em contexto médico tendem a ser enquadrados entre os casos de maior exigência regulatória, com requisitos de qualidade dos dados, mitigação de riscos, transparência e supervisão humana. Em paralelo, os dados de saúde seguem como categoria especialmente sensível no quadro europeu de proteção de dados. Ou seja: a próxima fase da health.tech não será vencida apenas por quem prometer mais precisão. Será vencida por quem souber operar com confiança regulatória e responsabilidade clínica.
A saúde do futuro será, sem dúvida, mais contínua, mais distribuída e mais próxima do cliente final. O telemóvel pode tornar-se porta de entrada. O wearable pode tornar-se rotina. A IA pode tornar-se um motor de suporte. Mas nada disso terá valor duradouro sem integração, clareza, supervisão e um desenho responsável.
No fim, a empresa que vai liderar este mercado não será apenas a que medir mais coisas. Será que consegui construir a ponte mais sólida entre dados, confiança e decisão útil?
Porque a saúde que espera o doente chegar pior já não é apenas menos eficiente.
Já chegou atrasada.
Brunno Falcão,
CEO e Founder da Science Play.
Convidado pela organização do health.tech global summit para representar o Brasil nas principais discussões de inovação do setor de health.tech




