Opinião

O próximo oceano: o despertar espacial de Portugal e a geração pronta para navegar o futuro

Ana Pires

A missão Artemis II representa mais do que um regresso à Lua; marca o início de uma nova era de exploração humana, alicerçada numa visão estratégica global, colaborativa e inclusiva. Este é um esforço coletivo e profundamente inclusivo, em que a diversidade da tripulação simboliza um futuro em que o espaço pertence a todos: pela primeira vez uma mulher, um afro-americano e um canadiano participaram numa missão lunar.

Este entusiasmo transfronteiriço é alimentado pela ciência e pela ambição de construir infraestruturas sustentáveis fora da Terra. A participação da Agência Espacial Europeia (ESA) no desenvolvimento do Módulo de Serviço Europeu da cápsula Orion contou com engenharia de excelência, e a icónica cortiça portuguesa da Amorim Cork Composites protege, mais uma vez, os sistemas térmicos críticos do lançador SLS.

Mas o “silêncio” português deu lugar a uma voz estratégica. O país posiciona-se hoje como um ator emergente na New Space Economy. A atribuição da primeira licença para operar um porto espacial em Portugal, sediado na ilha de Santa Maria (Açores), ao Atlantic Spaceport Consortium (ASC), é o pilar central desta aposta na economia do espaço. Beneficiando de uma localização privilegiada no Atlântico, o ecossistema açoriano continua a somar marcos históricos, tendo já viabilizado a primeira licença comercial para a reentrada de veículos espaciais na Europa. Mais do que um mero avanço tecnológico, a consolidação destas operações representa uma forte afirmação económica e geopolítica de Portugal no panorama global.

Portugal um laboratório vivo para missões a Marte

Portugal também está na vanguarda da preparação para o desconhecido. O lançamento de satélites com chancela nacional, desde o histórico PoSAT-1 até ao recente AEROS MH-1 (que monitoriza os oceanos a partir do espaço), só comprova a crescente autonomia e maturidade tecnológica do país na órbita terrestre. Contudo, a estratégia portuguesa vai além da nossa órbita imediata. Através de missões análogas como a missão CAMões (Caving Analog Mission: Ocean, Exploration and Space), que decorreu na Gruta do Natal, na Ilha Terceira (Açores), e a Monsaraz Mars Analog Mission no Alentejo (representação portuguesa no World’s Biggest Analog), o país testa tecnologias e prepara cientistas para operar em ambientes extremos. Este contributo ganha escala com a missão AMADEE (programa de investigação de referência do Austrian Space Forum), que decorrerá em 2027 no Alentejo, reforçando o papel de Portugal como laboratório vivo para as futuras missões a Marte.

Enquanto cientista, vejo nesta era um poder transformador de paradigmas. No passado, figuras do programa Mercury 13 foram omitidas; hoje, a liderança da astronauta da Artemis II da NASA, Christina Koch, redefine o que é possível. Para as gerações mais jovens, a mensagem é clara: a exploração espacial não se trata apenas da distância que percorremos, mas também de quem incluímos na viagem.

Portugal possui talento, visão e infraestruturas. O próximo passo é converter a participação em liderança ativa. O futuro do espaço está a ser escrito agora. Ele pode e deve ser escrito em português e, cada vez mais, no feminino. O espaço é, de facto, o nosso próximo oceano, e Portugal já tem as velas içadas.

Ana Pires,
Investigadora no Centro de Robótica e Sistemas Autónomos do Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores, Tecnologia e Ciência (INESC TEC)

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