Opinião

Portugal precisa de mais cidades fortes para além de Lisboa

Georges Bou Jaoude

Nos últimos anos, o debate sobre habitação e qualidade de vida em Portugal ganhou uma nova dimensão. A crescente pressão sobre Lisboa, visível no aumento dos preços da habitação, nas exigências da mobilidade diária e na densidade urbana, tornou evidente que o modelo centrado quase exclusivamente na capital começa a revelar sinais de esgotamento.

Este contexto está a abrir espaço para uma transformação silenciosa. O reforço das cidades situadas na órbita de Lisboa começa a tornar-se cada vez mais evidente. Municípios localizados a 30 ou 60 minutos da capital afirmam-se como territórios capazes de oferecer uma combinação cada vez mais valorizada por famílias e empresas, com maior acessibilidade à habitação, mais espaço e um equilíbrio mais saudável entre vida urbana e qualidade de vida.

Mais do que alternativas periféricas, estas cidades começam a afirmar-se como extensões naturais de uma área metropolitana que precisa de se reorganizar. Torres Vedras, Santarém, Setúbal ou Alcobaça são exemplos de municípios que começam a assumir um papel complementar no desenvolvimento do território. Não competem com Lisboa. Contribuem antes para um sistema urbano mais equilibrado e funcional.

A evolução dos modelos de trabalho também tem acelerado esta mudança. O crescimento do trabalho híbrido permitiu que muitas pessoas reconsiderassem onde vivem. A proximidade ao local de trabalho deixou de ser o único critério determinante, abrindo espaço para decisões mais ponderadas sobre espaço, ambiente e bem-estar. Para muitas famílias, viver a alguma distância do centro deixou de ser uma concessão e passou a representar uma melhoria concreta na qualidade de vida.

Neste novo cenário, ganha particular importância a forma como os projetos residenciais são pensados. Cada vez mais, os compradores procuram mais do que habitação. Procuram contextos de vida completos. Empreendimentos que integrem áreas verdes, espaços de convivência, serviços de proximidade e soluções arquitetónicas pensadas para diferentes fases da vida respondem melhor às expectativas de quem procura estabilidade e um quotidiano mais equilibrado.

Este tipo de desenvolvimento não representa apenas expansão urbana. Representa sobretudo uma oportunidade para pensar o território de forma mais equilibrada. Ao reforçar cidades próximas da capital, é possível reduzir a pressão sobre Lisboa, estimular novas dinâmicas económicas e criar polos urbanos capazes de atrair investimento e talento.

Portugal tem aqui uma oportunidade clara. Um país que distribui melhor os seus centros de vida e de trabalho torna-se mais resiliente, mais competitivo e mais preparado para responder aos desafios sociais e económicos que enfrenta.

Num momento em que a habitação, a mobilidade e o ordenamento do território estão no centro do debate público, olhar para o papel destas cidades torna-se essencial. É nestes territórios que começa a desenhar-se um novo equilíbrio entre crescimento económico, qualidade de vida e desenvolvimento urbano sustentável.

Enquanto profissional do setor imobiliário, acredito que o desafio passa por planear melhor estas novas centralidades, criando comunidades completas e pensadas para o futuro. Porque quando desenhamos cidades com mais visão, criamos também melhores condições para viver.

 

Georges Bou Jaoude,
Managing Director da LeapAssets

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