Opinião

Portugal não pode esperar mais: Habitação e Dignidade Sénior devem entrar em Belém

Pedro Almeida Cruz

Com a segunda volta das eleições presidenciais de 2026, o país esteve a discutir estratégias, sondagens, polémicas e frases de campanha. Mas, fora dos holofotes, há duas realidades que não tiram férias, não seguem ciclos eleitorais e não sobrevivem a mais adiamentos: a crise de habitação e a fragilidade crescente da população sénior. Estas duas urgências sociais merecem entrar pela porta principal do Palácio de Belém e serem bandeira de mandato.

Portugal vive hoje uma tensão silenciosa, mas palpável. A habitação tornou‑se um luxo disfarçado de bem essencial. Jovens adultos batalham para sair de casa, famílias inteiras sacrificam tempo e saúde em deslocações intermináveis, e a classe média sente‑se cada vez mais empurrada para fora dos centros urbanos. Se a economia evoluiu, o mercado imobiliário disparou num ritmo que deixou as pessoas para trás. É desconfortável assumi‑lo, mas é impossível negá‑lo: estamos a construir cidades que já não acolhem quem as sustenta.

Num momento em que o debate político se focou essencialmente na disputa eleitoral e nas narrativas de campanha, a habitação continua a ser tratada como um problema técnico, quando, na verdade, é um problema humano. Um Presidente não governa diretamente, mas tem a capacidade, e a responsabilidade, de orientar a atenção do país, de gerar pressão pública, de marcar prioridades morais. Portugal precisa que Belém assuma esta crise com a total frontalidade.

Mas se a habitação é o problema que grita, os seniores são o problema que se cala. Somos um dos países mais envelhecidos da Europa e, no entanto, continuamos a tratar o envelhecimento como um detalhe estatístico, não como uma realidade estrutural. Na Empathia, onde ouvimos histórias reais todos os dias, vemos o melhor e o pior deste percurso: há seniores ativos, resilientes, cheios de vontade de contribuir; mas há também muitíssimos que lutam contra a solidão, a insuficiência de cuidados, a falta de autonomia e a invisibilidade social.

É precisamente essa invisibilidade que o próximo Presidente não pode perpetuar. Um país que debate acesamente quem seria o seu futuro chefe de Estado enquanto deixa os seus mais velhos entregues à precariedade está a falhar na sua própria identidade. A campanha presidencial, com confrontos intensos entre candidatos e atenção mediática constante, tem mostrado pouco espaço para estes temas, não porque não sejam relevantes, mas porque são politicamente incómodos. E, ainda assim, são os que mais definem quem somos enquanto sociedade.

O Presidente que aí vem terá de ser mais do que um árbitro institucional. Portugal precisa de alguém que assuma também um papel emocional: alguém que dê voz às famílias exaustas que tentam cuidar dos seus idosos sem rede; às pessoas mais velhas que se sentem desamparadas; aos jovens que não conseguem viver onde trabalham; às cidades que perdem identidade porque expulsam quem as habita.

Na Empathia acreditamos que as melhores decisões nascem sempre do mesmo lugar: das pessoas. Ouvir antes de decidir não é apenas um método, é uma ética. E é esta ética que Portugal precisa de ver refletida em Belém a partir de 2026. Quem veste a faixa presidencial terá legitimidade moral apenas se colocar as pessoas no centro do seu mandato: as que procuram casa, as que já deram tudo ao país e não podem ser deixadas para trás, as que se sentem empurradas para a margem do debate político.

Este é o momento de exigir mais do que discursos redondos. É o momento de exigir coragem. Habitação e dignidade sénior não são temas sociais, são temas de futuro, de identidade e de decência nacional. E é isso que o próximo Presidente da República tem de reconhecer, sem hesitações, sem cálculo político e sem medo de incomodar.

Pedro Almeida Cruz,
fundador e CEO da Empathia

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