Tekever e a “nova defesa” portuguesa: a consolidação do ecossistema tech em Portugal

Há um sinal de maturidade que não se mede em rondas de financiamento nem em capas de imprensa. É a capacidade de um ecossistema tecnológico começar a consolidar-se “por dentro”, com empresas nacionais a comprarem-se umas às outras. A Tekever fê-lo este ano, ao adquirir a Cloudsweep, uma startup portuguesa que usa inteligência artificial no…
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A Tekever é um dos rostos da “nova defesa” portuguesa. O crescimento da empresa é também um dos sinais de consolidação de um ecossistema tecnológico nacional que começa a ganhar escala, capital e capacidade para reter talento.
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Há um sinal de maturidade que não se mede em rondas de financiamento nem em capas de imprensa. É a capacidade de um ecossistema tecnológico começar a consolidar-se “por dentro”, com empresas nacionais a comprarem-se umas às outras. A Tekever fê-lo este ano, ao adquirir a Cloudsweep, uma startup portuguesa que usa inteligência artificial no desenvolvimento de software, num negócio cujo valor nunca foi divulgado e que, ainda assim, diz mais do que qualquer número, sobretudo lido ao lado de dois episódios recentes que puseram a tecnológica portuguesa (outra vez) no centro do debate sobre a defesa europeia. Um dos seus drones AR3 caiu em território russo, junto à fronteira ucraniana, depois de ter sido perseguido e neutralizado por uma unidade russa de contra-drones, e a empresa fechou, quase na mesma altura, um contrato de até 467 milhões de euros com o exército britânico pelo sistema de vigilância Corvus, que virá render o sistema Watchkeeper hoje em uso pelas forças armadas do Reino Unido.

Drone Tekever AR3, que ganhou enorme projeção internacional por ser o modelo testado em cenários de combate de alta intensidade na Ucrânia. Imagem: Tekever

A integração da Cloudsweep foi imediata, a empresa deixou de existir como entidade autónoma e a equipa passou a fazer parte da estrutura de engenharia da Tekever, que enquadrou a operação, em comunicado, numa estratégia de reforço do ecossistema nacional de inovação e de retenção de talento qualificado em Portugal. O mesmo talento que, sem este tipo de movimento, tenderia a dispersar-se por multinacionais estrangeiras ou simplesmente a emigrar. E já não é a primeira vez que a Tekever o faz. A Cloudsweep é a terceira aquisição da Tekever desde 2025, depois da Cocoon Experience, especializada em user experience e service design, e da compra de um aeroporto no País de Gales, transformado num centro de operações britânico da empresa.

Drone Tekever AR3. Imagem: Tekever

Durante anos, o percurso mais provável de uma startup portuguesa de sucesso foi o de ser adquirida por uma multinacional estrangeira, ou um fundo internacional, ou simplesmente mudar de sede assim que a escala exigisse capital que o ecossistema nacional não conseguia oferecer sozinho. A Tekever, avaliada em cerca de 1,33 mil milhões de dólares e a caminho de uma nova ronda que a poderá valorizar em 5,5 mil milhões de euros, inverte esse percurso ao comprar, em vez de ser comprada, retendo dentro das fronteiras a propriedade intelectual e o capital humano de outra empresa portuguesa. Por outras palavras, é um unicórnio nacional a puxar pelo ecossistema tech em Portugal, que agora está a consolidar.

Ricardo Mendes, CEO da Tekever. Imagem: Tekever

A empresa liderada por Ricardo Mendes não comprou apenas competências de engenharia, comprou velocidade, num momento de expansão sustentado por contratos de defesa de peso: além do programa Corvus, a parceria com a Força Aérea Portuguesa para missões de vigilância marítima, e o reforço de operações em França, onde duplicou o investimento planeado para 200 milhões de euros. Num setor onde a diferença entre vencer e perder um concurso público se mede em meses de desenvolvimento, absorver uma equipa já madura em engenharia de IA foi uma forma de ganhar tempo sem sair do país.

Drone Tekever AR5, o novo sistema de vigilância autónoma que vai passar a integrar a frota da Força Aérea Portuguesa. Imagem: Tekever

O que torna este movimento mais do que um episódio isolado é o contexto europeu em que se insere. Um estudo da Dealroom em parceria com o NATO Innovation Fund, divulgado em fevereiro, mostra que o ecossistema europeu de startups de defesa, segurança e resiliência está a consolidar-se depressa. Os números falam por si: 20 operações de fusões e aquisições no setor em 2025, um valor que quadruplicou em quatro anos, a par de uma subida de 55% no capital de risco canalizado para a área. É esta a moldura onde a compra da Cloudsweep se encaixa, e Portugal deixou de ser apenas um observador. A Connect Robotics, startup portuguesa de logística por drones, foi selecionada para o acelerador DIANA da NATO. A Oreyeon, incubada em Coimbra, construiu tecnologia que deteta autonomamente detritos e danos em pistas de aeroportos e bases aéreas, e já trabalha com o Departamento de Defesa dos Estados Unidos. E o novo Plano de Avisos do Portugal 2030 passou a incluir, pela primeira vez, financiamento direto a empresas que integrem a cadeia de fornecimento da Defesa ou desenvolvam tecnologias com aplicação civil e militar, com um dos concursos, o SIID-I&D Empresarial, a disponibilizar até 37 milhões de euros.

Drone Tekever AR6, a mais recente adição à gama de produtos da empresa, apresentado a 21 de julho 2026, no Reino Unido. Imagem: Tekever

Nada disto resolve, de um dia para o outro, a relação histórica de Portugal com a indústria de defesa. Grande parte do tecido industrial do setor foi encerrado ou vendido ao longo da década de 1990, no rasto da queda do Muro de Berlim e da convicção, generalizada na Europa, de que a era dos conflitos armados tinha ficado para trás. Como recorda Ricardo Pinheiro Alves, presidente da idD Portugal Defence, o país entrou “numa lógica de paz perpétua kantiana”, e o investimento nunca mais foi retomado com seriedade. Mas há um sintoma difícil de ignorar na imagem da Tekever a comprar talento português em vez de o ver emigrar ou ser comprado por fora. É o de um ecossistema que já não depende de um único caso de sucesso isolado, e que começa a gerar dentro de si os mecanismos, capital, aquisições, talento a circular internamente, capazes de sustentar esse sucesso a prazo.

A dimensão da defesa não é um detalhe lateral nesta história, é o motor. Num momento em que a Europa discute com urgência renovada a sua soberania tecnológica e industrial, sobretudo em tecnologias de dupla utilização, uma empresa portuguesa a consolidar precisamente essas capacidades, IA aplicada a sistemas autónomos com aplicação civil e militar, pesa estrategicamente mais do que o valor (não divulgado) de uma única aquisição.

Fica por saber quanto pagou a Tekever pela Cloudsweep. O preço, neste caso, importa menos do que o precedente. O ecossistema tech português começa a mostrar sinais de maturidade, e de que o nosso valor já não é apenas exportado.

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