SOLFARCOS dez anos a redefinir os limites entre cosmética e farma

Há produtos que rapidamente entram nas rotinas globais. O K18 é um desses casos, presente em salões e no segmento premium em todo o mundo, começou com uma pequena sequência de 13 aminoácidos desenvolvida em Portugal. É nesse contraste entre escala global e origem científica num laboratório português que começa esta história. A origem: ciência…
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De uma sequência molecular em laboratório a um produto sustentável de beleza, o percurso começou em Portugal e ganhou escala internacional em poucos anos. Hoje, a mesma base científica está a ser aplicada ao desenvolvimento de um medicamento para a artrite reumatoide
Forbes LAB

Há produtos que rapidamente entram nas rotinas globais. O K18 é um desses casos, presente em salões e no segmento premium em todo o mundo, começou com uma pequena sequência de 13 aminoácidos desenvolvida em Portugal. É nesse contraste entre escala global e origem científica num laboratório português que começa esta história.

A origem: ciência aplicada

A tecnologia nasce no trabalho desenvolvido no Centro de Engenharia Biológica da Universidade do Minho, com foco na aplicação prática do conhecimento. A investigação procurava perceber como pequenas sequências proteicas poderiam interagir com estruturas biológicas complexas, como a fibra capilar. Nesse contexto foi identificado um péptido único que atua na estrutura da queratina e que viria a estar na base do K18, capaz de atuar no interior da fibra capilar e reconstituir ligações estruturais, revertendo rapidamente danos químicos em diferentes tipos de cabelo.

O momento de descoberta foi também um ponto de viragem, não apenas um resultado científico, mas o início de uma visão: transformar ciência em produto.

Essa ambição materializa-se em 2016, com a criação da Solfarcos, uma spin-off orientada para desbloquear o potencial dos péptidos na criação de produtos sustentáveis que contribuam para a saúde, o bem-estar e a beleza das pessoas. Desde o início, uma equipa altamente qualificada foi assumida como ativo estratégico, reunindo competências que vão da biologia molecular e bioinformática à engenharia de proteínas, formulação cosmética e ciência do cabelo, garantindo não só rigor científico, mas também capacidade de execução. O crescimento da marca, que registou um sucesso viral nas redes sociais, levou à integração na divisão Prestige da Unilever em 2024, reforçando a presença global.

Segundo ato: da cosmética à farma

O K18 é a primeira expressão visível de uma lógica mais ampla. A narrativa não se esgota na cosmética. A mesma base científica está a ser aplicada à área farmacêutica. A empresa encontra-se a realizar testes clínicos, com 28 doentes voluntários e equipas clínicas de sete hospitais portugueses, de um medicamento para a artrite reumatoide, explorando o potencial destas biomoléculas como direcionadores ao alvo de transportadores de fármacos para doenças inflamatórias. Este passo marca uma viragem: a passagem de um caso de sucesso na beleza para um posicionamento na intersecção entre cosmética e farma.

Esta abordagem permite aplicar o mesmo ADN científico a diferentes indústrias, da beleza à saúde, mantendo consistência metodológica e adaptando-se às exigências de cada contexto, nomeadamente regulatórias.

O futuro

A empresa entra na próxima década com a ambição de consolidar os sucessos obtidos. O foco mantém-se na transformação de conhecimento científico em soluções concretas, com a sustentabilidade como princípio estruturante. Com a biotecnologia a ganhar peso, o desafio passa por equilibrar inovação, validação e escala, afirmando Portugal no ecossistema global.

Artur Cavaco-Paulo, CEO, Solfarcos

A Solfarcos nasce a partir de uma descoberta científica muito específica. Em que momento perceberam que esta inovação tinha potencial para sair do laboratório e chegar ao mercado global?

A Solfarcos nasceu de uma plataforma de I&D da Universidade do Minho focada em péptidos de direcionamento específico. O potencial global confirmou-se com o sucesso da tecnologia na Khairpep (atual K18) e a validação de profissionais que atestaram a eficácia das formulações. Este interesse de mercado, aliado ao apoio de investidores na Califórnia e à robustez da propriedade intelectual, impulsionou a criação da empresa como um player B2B inovador para as indústrias farmacêutica e cosmética.

 

O desenvolvimento do péptido que está na base do K18 implicou transformar conhecimento científico em aplicação concreta. Quais foram os principais desafios nesse processo de transferência de tecnologia?

O principal desafio foi transformar a base científica numa solução escalável. Isto exigiu validar a eficácia em condições reais, adaptar processos à produção industrial e gerir estrategicamente a propriedade intelectual. A articulação entre ciência, mercado e investimento internacional foi determinante para o sucesso desta transição do laboratório para o mercado global.

A empresa está agora a expandir-se para a área farmacêutica, com um medicamento em testes clínicos. O que distingue esta nova fase do ponto de vista da inovação e até que ponto resulta da mesma base científica?

A expansão para a área farmacêutica decorreu em paralelo e resulta da maturidade do resultados obtidos, sendo uma evolução natural da nossa base científica. As aplicações cosméticas e farmacêuticas têm a mesma base molecular – péptidos e proteínas. O que distingue esta nova fase é a incorporação de sistemas avançados de entrega, nomeadamente lipossomas com mecanismos de direcionamento ao alvo, que permitem levar o medicamento de forma mais precisa ao local de ação. Esta abordagem aumenta a eficácia e o impacto do tratamento. Os ciclos de testes e de validação da formulação proposta são substancialmente mais longos, exigentes e dispendiosos até à aprovação para a sua comercialização.

Este artigo foi produzido em parceria com a Solfarcos.

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