Juan Olivera, CEO da Ericsson Portugal, sublinha que as infraestruturas de telecomunicações são “um ativo estratégico a nível nacional e europeu”, sendo “fundamentais, tanto para a competitividade, como para fatores decorrentes da segurança, serviços essenciais e transição ecológica”. Porém, para a Europa “recuperar a liderança económica global”, Juan Olivera acentua que é imprescindível “desbloquear o investimento necessário para construir infraestruturas de conectividade avançadas e fiáveis”.
O setor das telecomunicações em Portugal atravessou nos últimos anos um período de forte investimento e transformação. Como caracteriza o momento atual do mercado, até por comparação à realidade europeia, e que aspetos considera mais relevantes para o futuro próximo?
Portugal combina uma cobertura de fibra ótica e 4G muito sólida, com uma rede 5G em rápida expansão. Dessa forma, o país posiciona-se entre os mercados de conectividade mais avançados da Europa em termos de experiência do utilizador. Isto apesar de o investimento global em infraestruturas digitais na Europa ainda ficar aquém do registado nos EUA e em algumas regiões da Ásia.
Perante esta realidade, a próxima fase consiste na transição da cobertura 5G da população para uma cobertura 5G de alta qualidade a nível nacional, o que significa uma implantação generalizada do 5G Standalone. Tal permitirá concretizar todo o potencial de transformação da economia nacional, com redes privadas e dedicadas para a indústria e infraestruturas críticas, bem como APIs de rede que permitam, seja às empresas portuguesas, como à administração pública e a toda a sociedade, aceder diretamente às capacidades da rede.
Importa termos igualmente em consideração que, para se manter competitivo e explorar todo o potencial da próxima vaga de conectividade, Portugal necessita de um clima regulatório e de investimento que permita a monetização diferenciada da conectividade, recompense o investimento em infraestruturas a longo prazo, e aumento do espectro e escala, tudo em consonância com os objetivos da UE.
“A próxima fase consiste na transição da cobertura 5G da população para uma cobertura 5G de alta qualidade a nível nacional, o que significa uma implantação generalizada do 5G Standalone”.
O SIRESP tem sido recorrentemente apontado como um ponto muito frágil em Portugal na resposta a emergências. Que mudanças considera prioritárias?
É essencial estabelecer uma estratégia nacional clara para a evolução da atual rede SIRESP. Os recentes anúncios do governo confirmam que esta evolução é uma prioridade, o que representa um passo positivo. Esperamos que este plano se torne numa realidade a breve trecho, o que permitirá aos utilizadores da SIRESP aceder aos mais recentes avanços tecnológicos e beneficiar da banda larga 5G em cenários de resposta a emergências.
Em vários países europeus, como Espanha, França, Reino Unido, Suécia e Finlândia, a evolução das redes de resposta a emergências já está em curso. Isto realça a necessidade de um calendário claro, com marcos específicos para iniciar o processo de migração o mais rapidamente possível. É também fundamental que este processo seja apoiado por dotações financeiras adequadas para garantir o seu sucesso. Enquanto líder tecnológico de confiança, a Ericsson Portugal está totalmente empenhada em apoiar esta jornada de transformação, independentemente do ponto de partida. E este apoio pode fazer-se por via do fornecimento de infraestruturas preparadas para o futuro que capacitem operações de missão crítica e respondam aos desafios de hoje e de amanhã.
“É fundamental que este processo [da melhoria do SIRESP] seja apoiado por dotações financeiras adequadas para garantir o seu sucesso”.
O Governo no recente plano apresentado PTRR, na sequência da tempestade Kristin, refere ter intenção de distribuir telefones-satélite e ligações à rede Starlink pelas juntas de freguesia. O que lhe parece a medida?
Todas as soluções que criam canais de comunicação alternativos e redundantes são bem-vindas em contextos de emergência. O Governo português encara esta abordagem como uma forma rápida e económica de estabelecer uma alternativa ao SIRESP ou às redes públicas de comunicações, especialmente em cenários em que as infraestruturas terrestres se encontram danificadas ou destruídas, algo que se verificou durante a tempestade Kristín. No entanto, o Starlink não é uma rede de emergência e deve, por isso, ser considerado uma solução complementar, adequada para casos de utilização específicos e limitados.
Dito isto, a Ericsson acredita firmemente que a Conectividade Não Terrestre desempenhará um papel fundamental no âmbito de uma estratégia mais ampla de comunicações de emergência, razão pela qual já está a ser considerada como parte das arquiteturas de redes de emergência 4G e 5G. De facto, muitos dispositivos móveis comerciais já utilizam a conectividade por satélite para garantir a disponibilidade básica, como serviços de mensagens e de dados ligeiros, mesmo em áreas sem cobertura de população permanente.
Este processo representa mais um passo na direção certa para uma estrutura tecnológica consolidada, padronizada e moderna, capaz de fornecer comunicações resilientes, eficientes e evoluídas, tanto para os cidadãos, como para os serviços de emergência.
“O Starlink não é uma rede de emergência e deve, por isso, ser considerado uma solução complementar, adequada para casos de utilização específicos e limitados”.
A atribuição de espectro continua a ser um tema central para o setor. Como avalia o ritmo e o enquadramento regulatório em Portugal e que impacto pode ter na competitividade do mercado?
A regulamentação do espectro desempenha um papel fundamental na criação das condições necessárias para mobilizar os investimentos exigidos para a evolução contínua das redes móveis, para a expansão do 5G e introdução de normas futuras. Uma política de espectro favorável ao investimento, previsível e harmonizada, será essencial para que a Europa recupere a sua liderança global nas telecomunicações e tire pleno partido dos benefícios da conectividade de próxima geração. Isto está também em consonância com as recomendações do relatório Draghi e da recente Lei das Redes Digitais (DNA).
O espectro é um facilitador crítico quanto à qualidade de serviço do 5G, ao proporcionar a cobertura, capacidade e fiabilidade necessárias para suportar casos de utilização avançados. Em especial, à medida que as redes evoluem para um 5G autónomo (SA) e sustentam, por exemplo, Redes de Missão Crítica (MCN).
No contexto de Portugal, é essencial acelerar o processo de renovação do espectro em curso e, a longo prazo, reduzir os custos do espectro e prolongar a duração das licenças para apoiar o investimento sustentado nas redes. É também urgente decidir sobre a atribuição de espectro para a evolução das Redes de Missão Crítica para o 5G, um processo que já foi concluído na maioria dos países europeus.
“Uma política de espectro favorável ao investimento, previsível e harmonizada, será essencial para que a Europa recupere a sua liderança global nas telecomunicações e tire pleno partido dos benefícios da conectividade de próxima geração”.
Num contexto em que se fala cada vez mais de soberania digital, as infraestruturas de telecomunicações devem ser encaradas como ativos estratégicos nacionais e europeus?
As infraestruturas de telecomunicações já constituem um ativo estratégico a nível nacional e europeu. São fundamentais, tanto para a competitividade, como para fatores decorrentes da segurança, serviços essenciais e transição ecológica. Recuperar a liderança económica global requer a criação das condições adequadas para o crescimento e a inovação. A conectividade não se resume apenas às telecomunicações. Apoia toda a economia europeia, ao ligar diferentes setores e ajudar as novas tecnologias a ter sucesso. Algo que vai, desde a viabilização da IA e da automação, passa por uma melhor gestão energética, e impacta igualmente na melhoria da mobilidade e no reforço da competitividade global. Perante estes desafios, a prioridade passa, desde logo, por desbloquear o investimento necessário para construir infraestruturas de conectividade avançadas e fiáveis em toda a Europa e permitir que estas tecnologias alcancem o seu potencial.
Temos de estar cientes que, se a Europa quiser recuperar e manter esta liderança tecnológica global, tem de corrigir o seu clima de investimento. A inovação já existe, o que falta é a capacidade de a expandir. Sem as condições adequadas para o investimento e a implementação em grande escala, o continente continuará a ficar para trás. Mas, e com uma visão otimista de todo o ecossistema, reforço que a Europa tem agora a oportunidade de criar as condições para um investimento duradouro, através de uma inovação revolucionária e crescimento sustentado. Aproveitar esta oportunidade determinará a sua competitividade futura e posição global.
“Sem as condições adequadas para o investimento e a implementação em grande escala, o continente continuará a ficar para trás”.
Nesse sentido, entende que essa soberania na Europa está ameaçada por alguns players não europeus? Em caso afirmativo, o que deve a Europa fazer?
A proteção das infraestruturas críticas é essencial, não só para a segurança, resiliência e privacidade dos europeus, mas também para manter a competitividade e a integridade do Mercado Único Europeu. A cibersegurança é um pilar fundamental da soberania tecnológica da Europa e, no atual contexto de ameaças, é oportuno que a UE reforce a segurança e a resiliência das suas cadeias de abastecimento digitais.
“A proteção das infraestruturas críticas é essencial, não só para a segurança, resiliência e privacidade dos europeus, mas também para manter a competitividade e a integridade do Mercado Único Europeu”.
A Europa tem sido frequentemente criticada por falta de escala no setor tecnológico. O que deveria ser feito, na prática, para consolidar o mercado europeu das telecomunicações?
Na Europa, o desafio é estrutural. Por força da sua fragmentação e concorrência intensa, tal tem limitado o investimento, numa altura em que a competitividade e a resiliência dependem cada vez mais de uma conectividade avançada. A competitividade depende da capacidade de todo o Mercado Único de investir na próxima geração de conectividade. As redes avançadas não são apenas uma camada técnica, são a base da IA e da inovação digital. Garantem a implantação de novas tecnologias, tão necessárias para que a economia europeia continue a crescer e a criar empregos.
“A competitividade depende da capacidade de todo o Mercado Único de investir na próxima geração de conectividade. As redes avançadas não são apenas uma camada técnica, são a base da IA e da inovação digital”.
Mas, para alcançar este objetivo, a Europa necessita, tanto de escala, como de previsibilidade. Uma abordagem fragmentada, com 27 estratégias diferentes para regulamentar e construir infraestruturas de conectividade avançadas, limitará os investimentos globais na Europa. A região, no seu todo, conta com mais de 100 operadores móveis com bases de assinantes relativamente pequenas, o que fragmenta o investimento e torna mais difícil financiar implementações ambiciosas de 5G SA, em comparação com os EUA ou a China.
Na prática, é necessário um verdadeiro Mercado Único Digital para as telecomunicações, com uma consolidação transfronteiriça pragmática que traga eficiência, modelos de partilha de redes mais robustos e uma regulamentação das fusões que reflita a necessidade de investimento e de concorrência global. As políticas devem recompensar a escala e o investimento a longo prazo nas redes. Algo que exige uma política de espectro coerente, regras de implantação mais simples e apoio público direcionado nas zonas rurais, para que as operadoras europeias possam competir em termos de inovação e qualidade das infraestruturas.
“É necessário um verdadeiro Mercado Único Digital para as telecomunicações. A Europa, no seu todo, conta com mais de 100 operadores móveis com bases de assinantes relativamente pequenas, o que fragmenta o investimento e torna mais difícil financiar implementações ambiciosas de 5G SA, em comparação com os EUA ou a China.”
Em função do conhecimento que tem, como é que está a implementação a todo o território nacional da tecnologia 5G?
O espectro 5G em Portugal foi atribuído mais tarde do que na maioria dos mercados europeus. Desde então, o país tem registado progressos significativos na implantação de redes 5G e na utilização das novas bandas de espectro. À medida que a procura por serviços móveis cresce, e a dependência da sociedade em relação à conectividade se aprofunda, é fundamental evoluir da cobertura 5G inicial para o 5G de alta capacidade, suportado por uma arquitetura Standalone, por uma implantação mais ampla do espectro de banda média 5G e pela introdução do 5G Advanced com IA. Esta evolução irá libertar todo o valor do 5G, com a adoção de redes de alta capacidade, orientadas para a intenção e programáveis, que podem ser rentabilizadas e suportar aplicações muito além da banda larga móvel tradicional.
A regulamentação e a ação governamental são fundamentais para garantir um clima de investimento favorável e para atuarem como um principal acelerador da procura. É essencial existir uma forte colaboração público-privada que fomente a inovação, salvaguarde a soberania e estabeleça um quadro de financiamento adequado. Aspeto ainda mais reforçado pelas recentes recomendações da iniciativa da Lei das Redes Digitais (DNA) da UE.
“A regulamentação e a ação governamental são fundamentais para garantir um clima de investimento favorável e para atuarem como um principal acelerador da procura”
De que forma a evolução das redes, nomeadamente com o 5G e o futuro 6G, pode influenciar a competitividade das empresas portuguesas e a capacidade de atrair investimento?
O 5G SA e o 5G Advanced são um pré-requisito para a competitividade industrial, ao permitir a automatização, análise avançada, operações remotas e novos serviços em setores, como a indústria transformadora, energia, logística, turismo e agricultura.
Quanto às empresas portuguesas que adotarem precocemente redes 5G privadas e dedicadas, o que se verifica é maior potencial quanto à produtividade e a sustentabilidade, como se verifica, por exemplo, em implementações industriais, como as fábricas de cimento da CIMPOR em todo o país.
Se olharmos para o 6G, a visão europeia de um mundo ciberfísico com redes energeticamente eficientes e nativas de IA significa que os países com 5G Advanced estarão em melhor posição para ao longo da década de 2030 atrair I&D, bancos de ensaio e investimento digital de alto valor.
“Os países com 5G Advanced estarão em melhor posição para ao longo da década de 2030 atrair I&D, bancos de ensaio e investimento digital de alto valor”.
A Ericsson é um dos principais players globais na infraestrutura de redes. Em que novidades têm estado a trabalhar?
Este é um momento muito emocionante para a Ericsson, à medida que entramos numa era de hiperconectividade, em que tudo o que puder ser conectado o será. A conectividade é fundamental para a expansão da IA, e as redes programáveis de alto desempenho sustentam a digitalização acelerada e novas oportunidades de crescimento. Os nossos mais recentes desenvolvimentos apontam todos na mesma direção, construir uma estrutura de rede inteligente nativa de IA e preparada para o 6G, capaz de detetar, prever e agir em tempo real, para que possamos ir além da conectividade “best effort” e alcançar um desempenho garantido e diferenciado para aplicações impulsionadas pela IA.
Na prática, isso significa acelerar o 5G Standalone e o 5G Advanced, com a incorporação de operações autónomas e orientadas por intenções na RAN e no núcleo, e a disponibilização de capacidades de rede seguras através de APIs abertas, para que operadores, empresas e programadores possam executar serviços críticos, conectividade empresarial e novas experiências digitais e financeiras na mesma infraestrutura de confiança.
“Os nossos mais recentes desenvolvimentos apontam todos na mesma direção, construir uma estrutura de rede inteligente nativa de IA e preparada para o 6G”.
Como se posiciona Portugal dentro da estratégia da empresa e que papel pode desempenhar no contexto europeu?
Portugal é um mercado de longa data para a Ericsson, com parcerias sólidas com os operadores de telecomunicações e um historial de colaboração com todo o ecossistema local. O país é uma importante vitrine de inovação, com casos de utilização desenvolvidos ao longo do tempo com os nossos parceiros e com redes 5G privadas pioneiras em indústrias críticas e de grande porte, como portos ou cimenteiras, que servem de referência para outros países europeus.
Ao contar com algumas das redes 5G mais avançadas da Europa, Portugal tem todo o potencial para liderar a próxima fase de conectividade avançada, que apoiará a economia nacional e impulsionará a Europa para a competitividade digital e a transição ecológica.





