Quando os afetos sobem ao palco

Tudo começou dias antes, de forma simples, quase desarmante. Uma mensagem de WhatsApp: "Quero-te comigo". Não era um convite protocolar. Não vinha acompanhado de cargos, formalidades ou listas de convidados ilustres. Era apenas isso: um pedido de presença. E talvez tenha sido exatamente esse o tom de toda a cerimónia. No salão de um hotel…
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No lançamento do livro dedicado a Alda do Espírito Santo, Solange Salvaterra falou da mãe, do pai, dos amigos e da vida. E mostrou que os maiores legados raramente cabem apenas nas páginas de um livro.
Forbes Life

Tudo começou dias antes, de forma simples, quase desarmante. Uma mensagem de WhatsApp: “Quero-te comigo”. Não era um convite protocolar. Não vinha acompanhado de cargos, formalidades ou listas de convidados ilustres. Era apenas isso: um pedido de presença. E talvez tenha sido exatamente esse o tom de toda a cerimónia.

No salão de um hotel lisboeta, num fim de tarde de setembro, as crianças circulavam livremente entre as cadeiras. O violão de Tonecas Prazeres dava música à tarde. Havia amigos, família, abraços demorados, gente que se conhecia há décadas e gente que se reconhecia pelo afeto. Tudo parecia acontecer ao sabor da vida, sem a rigidez dos eventos cuidadosamente coreografados que tantas vezes enchem as agendas institucionais. O livro era o centro da celebração. Alda, a menina que amava as palavras. Mas não era o único protagonista.

Ao longo de um discurso profundamente pessoal, Solange Salvaterra fez o que raramente se vê em cerimónias públicas: recusou a tentação dos nomes sonantes, dos agradecimentos formais ou da enumeração de títulos. Preferiu falar da mãe. Do pai. Do irmão. Dos sobrinhos. Dos amigos de uma vida inteira. Preferiu falar dos cheiros que a construíram enquanto pessoa: o cheiro do colo materno, da educação, da solidariedade, da dignidade e do amor.

O seu discurso foi, em muitos momentos, uma homenagem à família antes de ser uma apresentação literária. E foi também, muito,  uma viagem às origens.

Falou da mãe, Didi, cuja ausência continua a ocupar um lugar enorme na sua presença. Falou do pai, exemplo de integridade e dedicação à educação. Falou dos irmãos, do filho, dos amigos que escolheu como família. Falou de São Tomé e Príncipe, da memória coletiva e da urgência de preservar histórias para as gerações futuras.

Tudo isso desembocava naturalmente na figura de Alda do Espírito Santo, a mulher que inspira o livro e cuja vida atravessa a história contemporânea de São Tomé e Príncipe. Poetisa, educadora, nacionalista, revolucionária e defensora da dignidade humana, Alda surge na obra como a menina que amava as palavras, muito antes de se tornar uma das grandes referências da identidade são-tomense.

E enquanto falava do livro foi chamando pessoas ao palco. Sem guião. ao sabor do momento.  Sem cerimónia. Sem distância. E, inesperadamente, chamou-me também.

Fê-lo para agradecer uma homenagem que um dia lhe prestei. Mal sabe que é o inverso.. Afinal, foi Solange quem esteve na primeira fila desde a primeira edição do Forbes Portugal Women Summit, como esteve em tantas outras ocasiões, sempre disponível para dizer o que pensa, para desafiar consensos e para participar na conversa. Sempre presente. Foi ela que inspirou, há 40 anos a obra Uma aventura no deserto. Já era uma menina inquieta, curiosa e apaixonada pela escrita. Era impossível não perceber que a mulher que hoje apresentava um livro sobre Alda do Espírito Santo continua a ser, em muitos aspetos, essa mesma menina.

No final, o que ficou não foi apenas a história de Alda. Foi a história da santomense Solange. E a forma como escolheu contá-la. Com lágrimas, risos, música, crianças a correr entre cadeiras e uma declaração simples que resumiu toda a tarde: “Quero-te comigo.”

 

 

 

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